Mais uma vez no local do crime. Impressão digital sobre impressão digital, projéctil atrás de projéctil, cápsulas caídas no chão em desprezo pela verdade. E na verdade, estes regressos ao mesmo local do crime, como se não houvessem outros para escolher, reflectem-me a ousadia e alguma aventura de sentir sempre algo de novo. Hoje é refractar o cansaço, produzir alguns exemplares com a fábrica ainda a meio gás, enrolar-me num cachecol de cachemira e enfrentar uma noite de temporal, amena pelo bom gosto e agreste pela vontade de sair e não sair do mesmo sítio. Apelos e apetites. Comodismos.
Mais uma vez no local de crimes e beijos fluídos. E mais uma vez o terrível vício de docas e cais depois da meia-noite, ruelas escondidas onde se trocam corpos e carícias escolhidas a la carte, cruzadas de excitação onde se cruzam monges e filantropos. Filantropia egoísta, digo eu. Egoísmo rebuscado, digo eu. É como se o assassino soubesse com rigor onde estão as câmaras de vigilância, e depois de as iludir e cometer o crime escolhesse a menos provável, a encarasse com espírito e depois de um aceno estudado se afastasse, deixando-se filmar e reconhecer pelo mundo.
Por alguma matemática alternativa, é agradável provar o teorema de que a noite tem mais tempo que o dia. E já agora, que os locais do crime sabem sempre mais que todos os outros. Mas isso, é para outras núpcias.
Ao som de Spectral "Avalon"
maio 02, 2007
Subscrever:
Enviar feedback (Atom)

2 comentários:
Filantropia egoísta ou Egoísmo rebuscado, dizes tu. Egoísmo alienado ou coragem cega digo eu. O assassino sabe com rigor onde estão as câmaras de vigilância, e não quer saber. Ele tem caras, todas legitimas, todas plausíveis, todas dele, mil e uma mascaras: africanas toscas de madeira e finas de porcelana chinesa, é pigmalião por nascimento. No local do crime ele fareja, descodifica, faz teoremas, analisa com rigor cientifico, e aguarda, tem todo o tempo do mundo, o da noite e o do dia, é rei do tempo parado, não se cansa, não desiste, é bom na espera, tem a natureza telúrica de caçador.
Maria João
Jovialmente, uma boa noite para si também.
Publicar um comentário