maio 04, 2007

À partida do segundo acto

Obediente, esperei que a escada rolante me orientasse as decisões. O incómodo de alguma claustrofobia dos tectos demasiados altos do aeroporto, provocavam-me um estado de tontura morno e desagradável. Pensei numa chávena de café a fumegar, num copo água, que a hipótese de demasiado tépida me fez enjoar. Ao temer algum suor fora de tempo, dirigi-me ao check-in, como tentativa de organizar qualquer coisa. Não reagi aos avisos nem às recomendações, aceitei todas as determinações e com o número 48 do portão de embarque marcado na palma da mão, entrei numa casa de banho e demoradamente, molhei a cara e sem sorriso planeado, olhei-me longamente no espelho. Sem me conseguir mexer, remexi num cansaço do qual fazia parte, remoínho de olhos fechados e mãos afagando a face e o cabelo. Num faiscar, surgiu-me a imagem de uma bomba de gasolina à beira de uma via rápida, lugar de fascínio e partida para viagens de carro, daquelas que se iniciam cinzentas e não devem conter destino. Fechei os olhos muito devagar e sem recusar o apelo, desejei com muita doçura apagar aquela imagem. Com esforço, endireitei os ombros, lavei as mãos e sacudindo o casaco e as calças, fui à procura da tal chávena de café a fumegar. Pelos corredores larguíssimos do aeroporto, procurava nos altifalantes uma canção a condizer.
Foi no momento de pagar e agradecer o sorriso do empregado, ainda antes do primeiro sorvo, que ela surgiu. Nunca percebi se foi coincidência.

Ao som de Goldfrapp "Utopia"

1 comentário:

Anónimo disse...

Não existem coincidências, pena que nem sempre se sigam os acasos, pena que não se interpretem os sinais...pena.
maria joão