junho 01, 2007

Enquanto vazio


Com a fragilidade ao longo da pele, suavidade tensa e contida, surgem os remoínhos. Sugere-se um altar, um apartamento vazio de janelas e silhuetas obscuras, um armazém comprido e repleto de flanelas. Permite-se o desgosto, a leviandade, até algum torpor com tonalidade de preguiça. Tudo desde que acompanhado de um sonambulismo iluminado por monitores de tons azulados. Aguarda-se um suspiro ou qualquer outra forma de indiferença casual, como se a verdade estivesse presa por cordéis de marioneta. E a verdade é observar a verdade, pé ante pé, audaz no seu modo de boneca, forrada do tecido que convém ao baile e perdida no salão, ante os espelhos que esmagam e os veludos que enternecem. As meninas trocam risinhos emboscados, as senhoras sustêm os leques em atitude de concha enquanto as matronas, revelam impaciência. Serenam-se os pecadilhos de pouca monta, apenas por um travo a carne fresca. Tudo gira à volta de mecanismos estudados em pormenor e projectados só para esta noite. Uma câmara, estratégica num pulsar milimétrico, capta atmosferas em vez de imagens. Pretende-se transformar veias em artérias. Imbuir o sangue de sabor. Repetir à exaustão, as seduções e outros subornos. Selar com prazer, os nãos, os sins e o talvez; mas apenas quando este for indeciso.

Ao som de Les Jumeaux "Empty Drama"

1 comentário:

Anónimo disse...

Mais uma vez inatacável, a luz do enorme salão de baile entrou no meu ecran! Quanto às "seduções e outros subornos" permita-me não concordar consigo, nem sempre é assim, por vezes a natureza é distinta e a sedução é apenas encantamento sem moeda de troca.
maria joão