agosto 29, 2007

Talvez 17 músculos

Repetem-se apelos, esvaziam-se gavetas para se encherem logo de seguida, alinham-se as gravatas e em cada mão uma garrafa para o acordar lúcido de cada pesadelo. Eis o mote.
Um homem segue sózinho pela rua. A noite espera-o. Reparte um trajecto recortado por ambas as margens de cada avenida, de cada acesso às pontes que entrelaçam o destino. Ao longe reflecte a miragem de soldados que se camuflam nas paragens de autocarros. Tenta sorrir mas não encontra todos os músculos necessários. De vez em quando, ao abrandar numa esquina ou por uma curiosidade mórbida, olha o interior de janelas iluminadas. Recordam-lhe círculos e geometrias que tinha como certas. Com a mão direita arrasta da cara a primeira camada e suor e humidade. Nunca mais se sentirá completamente seco. Mais um pecado para a enorme lista.
Ao descer a rampa demasiado íngreme, avista os contentores. Para trás ficaram os abortos que coabitam a miséria e o esforço. Pelo menos, um a menos.
Já encostado a um contentor, aparentemente cheio de inutilidades, respira fundo, tira o isqueiro do bolso esquerdo e acende o último. Demoradamente puxa o primeiro fumo e de costas para oeste apercebe-se do clarão da explosão. Eliminou o ruído do seu organismo. E sem se voltar, sorri.

Ao som de Marillion "Fugazi"

Sem comentários: