dezembro 29, 2010

Dia 29

A menina encostou-se à janela e procurou na rua algum resto de amor. Seguia-lhe os passos pelo resto de passeio mesmo em frente da varanda comprida. Via-o descer os degraus de tijolo vermelho, saltar o passo de relva e correr o fim do parque de estacionamento, antes de saltar os degraus da entrada e deixar de vê-lo. Todos, quase todos os dias, acertava-lhe o meio da tarde, neste regresso a casa, lanche antes da torrada que a mamã lhe barrava com doce de morango. Um doce antes do doce. E depois, sempre sem excepção, olhava a janela de persiana corrida até a ver subir de três sacões e o saber olhando o horizonte de aviões e autocarros apressados. Sempre, também quase sempre, ligava o gira-discos e punha a agulha no princípio do disco, sempre a primeira canção do lado B, sempre à espera do mesmo minuto e meio final, prolongando o olhar, os passos debaixo da sua varanda, a persiana a subir e o desejo desse beijo prolongado nos seus lábios cor de rosa enquanto a mão lhe tocava o rosto. E sempre, sempre, antes do fim da canção, recuava a agulha e repetia o minuto e meio. E encostada à janela, beijava o vidro embaciado enquanto tocava a sua face com as mãos frias. E aí deixava-se ficar, até a canção já não ser canção, até os passos deixarem de ecoar, até o beijo só se desejar no dia seguinte. E sentia-se menina, mesmo com o contorno de mulher desenhado na janela embaciada.

1 comentário:

Anónimo disse...

tão eça!