dezembro 13, 2010

Marginais correndo descalços

O que irei fazer quando experimentar aquele fato? Fazer, sim, o concretizar, o construir, aquela sensação de alcance, chuva sobre uma cara molhada pelo baptismo da manhã. Lembras-te daqueles barcos imóveis sob a neblina, aquela manhã, meia madrugada, em que o acordar cedo e o deitar tarde estavam tão misturados que nem o relógio funcionava. Lembras-te? Ainda sanes o dia? Desconfias de sábado, ou talvez domingo. Por esse cálculo idiota de agendas e afazeres ditos úteis em dias tão inúteis de manhã à noite. Lembras-te desses dias? Nunca os esqueceste? Tens bílis entranhada nas unhas, por mais limpas que pareçam. Cumprimentas muitas almas com essas mãos? Ofereces-lhes baunilhas e segredos? Deixa. Esquece todos estes fios de memória e concentra-te nessa chávena de café esfriada e no teu umbigo. Fumega? És tu que fermentas. Sabes a ócio. És doce. Um doce enjoativo, viscosamente inoportuno. Eu, ao menos, sou amargo nos dias de meio sol. É o tempero que me apresenta aos juízes e aos homens de algum bem. Não conheço os homens de mal. Quanto aos de bem, chamo-os mas eles não se dignam. Talvez por não me reconhecerem trono. Ou a falta dele.

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