janeiro 09, 2011

Espaço

Havia uma sexta-feira, muitas, todas as que sabiam a sabor, de noite cerrada e candeeiros de aldeia sem alumiar quase nada. As mesmas curvas, as mesmas casas de luzes apagadas, as janelas de persianas corridas e sonos antes do tempo, a busca de uma ponte em silhueta e as luzes da cidade decalcadas no rio. Poucas coisas se oferecem assim, sem brilho de precioso, só com aquela sensação de alma, de alguma boa acção paga com juros. Era o tempo em que dois dias eram mundos e fundos, maiores que uma razão de tempos modernos de uma civilização de números sem tempo para nomes. E havia uma sacola. E gavetas meio vazias e cheias de tudo o que dava prazer. E uma vidraça alta que de manhã estaria preenchida. As coisas, as janelas e as escadas de sete degraus são como uma garagem de porta de madeira rolando num veio de ferro, um piso de cimento com manchas de óleo secas e as prateleiras empoeiradas de dias a fio escurecidos, sem haver sexta-feira nem o dia seguinte. Mas havia. A sexta-feira estava lá, aprumada, resolvida a luz ténue de um tablier iluminado. Tão simples eram as sexta-feiras, antes de sermos crescidos, por fora e por dentro.

2 comentários:

George Sand disse...

belissima escrita. Vai para os favoritos

Von disse...

Gosto que goste.