janeiro 04, 2011

Maneirismos

Escrevia todos os dias uma carta. Dobrava em quatro, soprava o envelope em busca de espaço e penetrava-lhe a brancura com o papel bem apertado, não fosse a dobra traí-lo. Escolhia sempre um selo com animais. De preferência pássaros. A carta chegaria mais depressa. Lambia com vontade e com o polegar que gostava mais, pressionava até a falange estalar. Tinha um hábito difícil. Escrevia sempre o endereço já depois do envelope fechado. E só fechava o envelope depois do selo colado. Olhava-o de frente, estendia a língua e passava-a em ângulo obtuso ao longo da faixa de goma, sorvendo-lhe o sabor como um colegial apaixonado. Só depois o deitava de costas, e de tira linhas em punho, num fio de escrita finíssimo e de traço azul, de tinteiro, afincava-lhe endereço, nome próprio e apelido, deixando sempre um Excelentíssimo como o tio lhe tinha ensinado. No remetente, apenas as iniciais entrelaçadas, à boa maneira daquela época que teimava em esquecer-se. Apoiava-o em 60 graus e admirava-lhe a alvura manchada de azul com sainete. Orgulhava-se dessa gentil obra diária, sinal de respeito pelas instituições e códigos de civilidade. Por fim, tomava-a nas mãos, pois só nesse momento era carta, e atirava-a para o gavetão aberto, obeso de envelopes marcados a azul. Um dia, passaria pelos Correios. Quando o Rei fizesse anos.

2 comentários:

George Sand disse...

Cartas são palavras que se enviam.
Ou que se guardam, nas dobras do papel.
Depois dão-nos o pretexto para comprarmos uma fita de cetim e fazer-mos laços.
Laços de palavras dobradas.

Von disse...

Tenho de escrever uma carta. Uma daquelas verdadeiras, que se enviam e se espera apaixonadamente a resposta.