janeiro 05, 2011

O homem com o sorriso que não acaba nunca

Nesta chuva que o meu cérebro há-de beber até à última gota, saboreio o último chocolate na certeza de me saber o dobro, mesmo depois de duas semanas em salmoura, pechisbeque em cima da cómoda, ladeado pelo relógio e algum perfume esquecido por alguma das amantes. Não me deito com os nomes, logo, não preciso deles. Chamo-lhes divindades, cada uma, uma diferente. E saboreio-as, mesmo se alguma for a última. Será, porque não pretendo ficar aqui. Comprei os bilhetes de todos os comboios que partem hoje, por se algum acaso me decida destino. E não o serei enquanto saborear o último chocolate, enquanto a chuva continuar a cair, tropeçando no beiral da varanda para se estatelar no passeio mal cheiroso. Devia ter oferecido o último chocolate ao sem-abrigo que me faz sorrir. Lá estava ele, sentado no carro abandonado onde dorme com os cães, janela meia aberta e sorriso meio aberto. Sorrio porque tem um sorriso que faz sorrir. Chamo-lhe o homem do sorriso que nunca acaba. Assim, como num provérbio árabe que se aprende no deserto à beira dum poço. Saboreio o último chocolate com o céu na boca sintonizado no seu sorriso. Sem perfumes, nem amantes sem nome. O seu sorriso que não acaba nunca, mesmo depois de lhe oferecer o bilhete de comboio e de o ver de braços caídos, olhos doces e sorriso que não acaba nunca. Eram 14 horas e o próximo só parte às 18. Se me decidir...

Sem comentários: