janeiro 22, 2011

Pele em tons azul

Queres ver-te como a cobaia que te faz eleitor, pai ou criança. Queres a absolvição em todas as portas e com o cotovelo na secretária que te separa do mundo. Queres perder essa virgindade de apelos e causas, mas só depois do jantar e talvez de uma noite bem dormida, sem conseguires dizer palavra a quem dorme a teu lado, nem sequer o sinónimo de foder. Desapontas o vizinho do lado, sabes? Deixas a tua marca, mas o cimento é sempre areia junto à rebentação. Dizes-te profeta e cívico. Deixa-me chamar-te seixo. Ou vívere. Aquele que mastigo lentamente e depois cuspo por um encolher de ombros. Passam-se tantas noites assim, sem fogueira, sem luzes de presença que podem alertar o inimigo. O fogo de morteiro. A fé e caridade. Há tanto para te dizer. Tanto para me dizeres. As chuvas que começam no verão para nunca mais terem fim. As mulheres de xaile e manta. Os dizeres da fronteira, onde os idiomas se misturam e sabem a manteiga derretida. Vejo-te mas não me dou a conhecer. Vejo-te daqui mas ficarei calado na sombra. Viro-me para a parede e esperarei milagres. Mudei de ideias: quero-te. Mas só se fores o meu oxigénio.

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