janeiro 22, 2011

Ré, Si e Fá na ordem correcta

Um após outro, os dedos desfiam os meus passos mesmo quando encostado ao muro dos correios. O frio não me deixa ver o fim da rua. Nem a janela do teu quarto. A minha língua sente os dentes gelados, o céu da boca sedento, a falta que o teu sabor me faz. Imóvel, já não sei quantos dedos tenho, cotos enfiados nos bolsos fundos de um cotão redondo de amizade. Esqueci-me de chorar e de te adivinhar por detrás dos vidros fechados e da luz que hoje não está. Persegues-me como só eu sei. Nunca te saberia explicar. Sou homem, aí tens. Não sei explicar o amor. Sei senti-lo. Sei ajoelhar-me aos teus joelhos e beijar-lhes o amarrotado. Sei sair de mim e empurrar-te ao meu abraço enfeitado de um grito abafado por palavras religiosas feitas ladainha e bruxedo. E encostado ao muro dos correios, sei avaliar o vazio que provoca a imobilidade. Sei e respeito o frio, por me gritar mais e mais.

2 comentários:

George Sand disse...

Este é o blogue mais estranho que eu conheço: sinfonias de poesia embaladas por uma kalashnikov...

Von disse...

As coisas estranhas são as que mais se entranham na pele. Como uma seda no torso de uma concubina.