fevereiro 09, 2011

Adormecer

Representar papéis, palavras de outras pessoas sem as folhas brancas que preciso. Sentir as noites de outros corpos, murmurar as palavras dos filmes e das folhas preenchidas de outras pessoas preenchidas por outros alcances. Anseio, por reconhecer no verbo as notas das canções que me fazem parar. Perjúrio, por lamentar as declarações de amor que fiz com palavras de outros, respiradas nos suspiros de outros olhos colados às janelas humedecidas pela chuva. Sento-me nesse tribunal de mim só e minto. Juro a solenidade nos livros que não sinto, evito olhar de frente os jurados, não reconheço advogado e juiz. Todos têm a minha cara e as minhas palavras. Todos são partes de uma verdade salpicada de mentiras. Todos são eu e eu não quero ser todos. E porque ser todos é afinal ser um, ser eu, eu não quero. Quero representar e quero as palavras, quero as noites e os murmúrios, quero o sabor que só eu sei. E ao querer, serei.

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