fevereiro 26, 2011

Algures num capítulo

Nesse canal de barcaças em entardecer lento, a luz tem as cores que sempre li, aquelas cores que alguém me soube explicar, não a mim, mas a quem se dignasse pegar no livro e entender todas aquelas tardes e referências tardias, todas as horas em que sentado sobre a relva à sombra de choupos, mastigava a sanduiche e procurava os destinos dessas barcaças, sempre à espera que me gritassem um lugar vago para mim. Essas páginas amareladas ainda lá estão, disponíveis como senhoras idosas procurando o ainda amor dos seus dias. Mas a relva já se acastanhou. A sanduíche jaz, ressequida e mordida por algum roedor. As barcaças rareiam. Algures, sentados a uma mesa manca, ou talvez só empenada, em quatro copos escurecidos pelo vinho, os barqueiros lidam com a falta. Olham sem se olhar. Evitam gritar para o balcão, como se a culpa os consumisse em vagas de remorso. Os dedos continuam a amarelecer dos cigarros mal dormidos. Aqui ainda não existem proibições. Apenas viver mantém-se proibido. E de olhos no chão ou na manga larga e desfiada, os barqueiros repetem-se mudos a ousadia de terem nascido e procurado num canal a profecia de se sentirem vivos. Nos ombros e nos pescoços já sentem o peso de envelhecer. Os nós dos dedos perderam o vermelho vivo. As articulações deixaram a dor da corrente. Ainda os sei ver, lentamente descendo o canal, sanduíche esquecida na mão, dentes quietos à passagem desse bilhete para uma fantasia que fiz crescer tanto. Tarde, num perfeito meio a caminho da hora de jantar, quando as luzes acordam pelo safanão da electricidade, ainda me encosto ao pequeno muro e ao longe procuro algo que desça lentamente o canal. Nem que seja um livro rasgado.

Sem comentários: