fevereiro 20, 2011

Cruel

Prevejo o fim da litigação. Prevejo os gritos de melodia depois de acordar antes de algum meio-dia, volante em direcção ao outro lado do rio, cabelo sem forma e os cigarros guardados no fundo de um saco de cabedal tão gasto, sem sabor a cruel. Prevejo a curva, os sentidos únicos, as pessoas de trabalho cubicular a troco de um dinheiro de cor lamacenta. Prevejo a ânsia e o labor de jornas impossíveis, os destinos demasiado longe onde chegar não é importante. Prevejo a luz tornar-se noite e luz outra vez. Prevejo a electricidade ao longo das esquinas iluminando-me a cama e a amante transformando-se em mim. Prevejo o bocejo e a repetição. Prevejo seringas, vómitos secos, unhas sujas e rasgões. Prevejo uma noite mal dormida, porque o sono preferiu dois quartos depois neste corredor ao ar livre. Prevejo guerras e munições, bolos a escorrer creme de um amarelo industrial, mãos estendidas por vícios habituais. Prevejo reis e rainhas, pobres de um empobrecer colectivo e comunal, partilha de misérias e uma ou outra vez de palmadinhas nas costas. Prevejo micróbios em todas as carteiras de senhora. Prevejo uma pausa, um intervalar de beijos traiçoeiros, de coxas apertando coxas, desaguares de etiqueta e humores fugidios. Prevejo acreditar em daqui a pouco, com o néon do motel piscando-me o horizonte e de chave na mão, fugir para o próximo condado ou estado de coisas, previsão tola onde crueldade é repetir o amor como uma droga. Prevejo e até logo.

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