fevereiro 16, 2011

Ficaste à minha espera?


Como essa praia, essa que conheces, onde te abrigas, lugar de encontro, uma antiga essência de agora, músculo que compreendes sem a gaveta dos sinónimos, sem o teu nome nem a fisionomia, tu por dentro e por fora, essas gramas que alteram o cadáver, esse olhar em algo preferido, talvez determinado, as folhas verdes, o cinzento feito azul, uma luz por cima de todas as coisas, um além sem nome próprio, a pele em saliência respirando a medida exacta de ar para um coração aberto e o vento voando em todas as direcções, em arquivos de doce e sal, sorvendo o lacre de existir num momento chamado certo, tantas palavras para escolher, comboios de partida para leste, avozinhas sentadas nas cozinhas depois de serem o que são, chávenas de café e chicória para acabar nas entranhas ávidas de alguma certeza.
És calmo e terra batida, encolher os ombros aos sapatos com poeira, descrever o pulso e não saber contar, ganhar os prémios só de imaginar concorrer. Caminhar apenas por existir caminho? Esse medo de ousar por se acreditar em outro mundo. Precisas de ver, sentir as formas dos barcos de pesca, essas carcaças expectantes junto ao cais enquanto o hábito dorme. Aprendeste a seguir esse copo de vinho, acreditaste no sabor mas desconheces o seu alcance. Assim mesmo, sem tons bonitos ou sedas caras. Engoles sem saber o ânimo e a candura, a baunilha e o anil. Proteges o número de identificação que te determina o conhecimento, assinas as letras exactas da tua impressão digital e não reconheces se vives ou já morreste. Obedeces a quem? A um fascínio corrente que te ensina ou reconheces num espelho qualquer os lábios com que beijas.
É longa a crença e o vesúvio, esse encanto mordaz na tentação de ser no mundo dos acordados, um casulo de mel amargo onde a geleia é real sem o significado. Conhecer o miserável, a ladainha e a fome, ver a solidão com todas as suas cores baças e gastas, beber graduações impossíveis apenas para continuar ser sozinho rodeado de espíritos, que nunca serão fantasmas. Sentado à tua mesa, no fim da manjedoura onde te acalmaste, esperando sempre mais um mimo, um acrescento de comodidade mesmo sem compreender o conceito, aí sentado com quase tudo à beira da mão estão os abismos que as cidades míticas revelavam ao se aventurar nas profundezas do acesso. E de ti ninguém se lembrará do nome. Ninguém dos que sabem recordar, porque esses não conhecem o suspiro e o pescoço assente em linho. Vaguear tem preço. O mesmo que se esconde na compreensão. E para esse não existe câmbio. Não se conhece taxa de juro. Acorda. Tens a praia a teus pés. Pousa as tuas mãos na areia. Olhas e reconheces o rasto. Bebes os olhos. Fixas o que vês. E por entre a chuva, recuperas a razão de teres chegado aqui.

2 comentários:

Anónimo disse...

essas gramas? caramba...

Von disse...

São as gramas que diferenciam o corpo do cadáver.