fevereiro 22, 2011

SMPL

Apetece-me estar aí. Sentado num degrau de uma dessas casas de bonecas. De t-shirt, uma rebelde, de ténis envelhecidos, talvez por me fazer sentir velho, de cigarro e copo na mão. Entregue a esse remoinho de fim de tarde, nunca fim de dia, gente esvoaçante num fio condutor ziguezagueante. Quero estar aí nas mesmas atitudes que são incompatíveis, voyeur e actor, num arremesso de frases feitas desde que feitas por mim. E no copo nada mais que chá. E no cigarro, o fumo que preciso como argumento. E na voz a rouquidão de noites mal dormidas sem me empaturrarem a decisão. Sei que tenho de escrever filmes, peças de teatro onde entro sem me mostrar, sei a hora de dizer adeus desde que venha alguém comigo, sei despertar e dizer os bons dias em todos os idiomas. E se não souber, o meu sorriso falará as palavras estranhas que não sei pronunciar. E sei que devo um beijo antes de fechar os olhos. Sei e esqueço-o demasiadas vezes. Não me posso esquecer. Posso depender de isso. Sei que dependo, por muitas novelas solitárias que insisto em escrever e vender a revistas de leitura fugaz. Forram caixotes de lixo com elas e mesmo assim tenho-lhes devoção. Revestem o sangue de cor dois tons abaixo, que produzo. E afinal, esse desejo infame e insano de escrever canções é o único que nunca sorverei sedento, multiplicado por mil e decorando cada quarto de motel em capela sistina. Apetece-me e apenas consigo acender o cigarro e sentir-me longe.

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