março 30, 2011

Agridoce

O homem na lua, sem o ser, sem o parecer, procura a altitude com que se compara aos deuses, esses sim, peões de vigarice levados à potência pela simples atitude de serem uma invenção humana, esses humanos que não acreditam na espécie que se esfuma na selva onde se afundam em lodo cor de rosa. Leio os jornais, as revistas de edição fácil, ouço e regurgito os comentários ininterruptos, as colunas de opinião, as democracias em tempo útil, nas gargalhadas dos que bebem e esperam a assistente para os levar ao confessionário. Sou um sem-abrigo, tenho cama e calor. Sinto-me só, na medida do desejo de prolongar. Sinto frio e tenho as costas doridas. A lua já desapareceu e eu continuo a vê-la e a falar-lhe de amor. Um amor que só eu conheço. E, num paradoxo milenar, não o ofereço a ninguém.

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