abril 19, 2011

A batuta está roída na ponta

Soam tesouras periclitantes num embuste de cinéfila desilusão. Ao piano, veludos precipitam todo o vagar de soirés, fraques roídos pela presença de arquiduques, lama transbordando os copos boémios de fragilidade óbvia. Eu, sentado no banco dos reprováveis, observo tudo com gula. Nos dentes sinto o freio de dias sem refeição, como se de mendigo apenas a fome. E de fome, construo os diagramas da génese. De sede, conheço o meu sangue. Espesso, frutado. Olho, reviro os globos feitos lustres, cedo à patética cor do meu ventre. Obeso me confesso, porque carrego a vida de outrem, feitos reféns os restantes em torno da minha majestade, título efémero, coisa pouca, fiel depositário de uma dinastia fértil e pegajosa, não fosse o meu único antepassado, rastejante e divino. A noite parece ter o fim que merece. Levanto-me numa pantomina sossegada. Componho-me, perfilo-me, marco o passo pelos burgueses, donos do teatro, e saio da li para fora, respirando fundo o meu fedor. A vós a vénia. A mim, a carótida.

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