maio 21, 2011

Nos olhos, o rio

Perdido em nuvens ou algodões de mesmo carisma, exponho-me ao longo de canções e dores epidérmicas que não se renovam só porque sim. São ruas, motivos de conversa, chávenas de café fatais, como se a seguir a alguma coisa viesse algo. As prateleiras deixam-se ao mofo de garrafas esquecidas pelos donos que morreram ou já não saem de casa. Na praça cada vez menos passos. Na viela, a que sobe e desce e naquela esquina tinha aquilo, já não nascem acontecimentos. As coisas pararam. Mantêm-se quietas. Talvez por não se encontrarem onde se procuram. Nesse guarda-fatos, esse que tem alturas de castelo, ainda se guardam caixas verde escuras com veludo dentro. Estão vazias. Nunca o estarão. E os ossos, por muito que se transladem, voltam e dizem coisas de assombrar. Dizem mesmo se já as ouvimos mil vezes. No andar de cima havia um alfaiate, e as luzes ficavam acesas até tarde. De manhã, acendiam-se cedo. Na igreja ouvia-se o relógio aos quartos de hora. E se o nevoeiro chegasse, avisava-se. Descia-se a ruazinha estreita e a cada passo, o cheiro a mar. Morria-se, talvez se nascesse, ouviam-se gargalhadas e coisas sérias, comiam-se frituras de peixe. A seguir aos domingos encontrava-se uma segunda-feira de outra cor. Aconteciam e acontecia eu. E no Natal, havia frio e coisas onde pousava os olhos. Ainda os sinto.

Sem comentários: