janeiro 09, 2012

Acariciar uma escrita

Há bastante que não escrevo. Porque há um que, quebradiço, impedindo a pena ou a tecla, sabe-se lá por quanto, se por demasiado Tejo, se por demasiado sorriso contido, ou então por um estado de sei lá o quê, que mina e disturba, tornando elástica a vontade, até por montras e passeios. Faz-me falta o acre e o doce, algum choque térmico, as mãos geladas e o passo até um café próximo, procurando olhares ou outra coisa qualquer que adoce o a espuma de leite. Faz-me falta aventura, sem capa nem espada, talvez horas tardias e candeeiros de rua acesos, ruas acabadinhas de amanhecer, pão quente que se termina na cama rumo ao meio dia. Longas são as premissas, halls de hotéis, praças e pontes, edifícios a arder de tanta excitação. Prolongar uma semana em um mês e esse mês em um ano. E depois... E depois, rever a matéria dada e expulsar demónios e anjos, como um exorcismo de hora marcada, como se o tédio e a próxima página vivessem em comunhão de fatalidade numa capoeira ferrugenta. Pergunto-me se bastaria um volume, algo hermético onde guardasse a minha essência. As camisas, os livros de cabeceira, um terabyte de mp3, o tabaco, os sapatos, aqueles filmes, o portátil, o isqueiro e os óculos de sol. E os óculos de ver ao perto. Será que a vida tem excesso de peso de bagagem?

1 comentário:

George Sand disse...

Há sempre tempos de silêncios que se entre-põem entre as palavras...depois normalmente, resulta num mar largo de escrita...