janeiro 21, 2012

Vidros embaciados



Sentindo as meias e os sapatos, sinto também a linha de horizonte da cidade, esse novelo que me arrasta e me retira algo morno para me atirar ao frio, como se o gelo me entregasse forças e palavras. O segredo é estar sempre pronto, de isqueiro e óculos à mão, um par de notas de algum banco e as canções. Provam-se cafés e cigarros, não necessariamente por esta ordem, escolhem-se beijos da ementa, beijos que podem ser braços e dedos revolvendo o cabelo e atingindo o pescoço, decidem-se os trajectos e as luzes de algum aeroporto nas imediações, porque palcos são sempre poucos. Lembram-se rotas da seda, todas as samarcandas que caibam num quarto de hotel, de preferência num terceiro andar. Se projectar uma esquina da janela, juntamente com os mortos-vivos de ocasião, encostando-se aos carros estacionados, imaginados pelos candeeiros de rua como se vissem coisas de um passado distante e esfomeado. Tantas curiosas contradições, como um guarda-livros num cubículo às tantas da manhã, emoldurado pelo fumo, um certo aconchego impossível de ultrapassar.

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