maio 16, 2012

Mr. Skarsgård, presumo

Ao cimo da rua, um planalto de meia praceta provoca a calma no rebuliço. Sábado de manhã diferente de algum dia de feira, os passos reduzem o impulso, os olhos levantam-se ao céu e ao cimo dos prédios antigos, quando se vivia e se sacudia o bairro. Parei o carro, abri o vidro e deixei-me estar na certeza de alguma chegada ou janela aberta depois do sono e da paixão. Acendi a última cigarrilha, pois sabe-se que terminam sempre quando se necessitam. A necessidade é um conceito traidor. Na metade da rua à minha frente, vestia um fato claro, desses quase sem recorte ou solenidade, subia com passo regular, talvez algum cansaço. Os óculos de sol castanhos adivinhavam a diferença ou estrangeirismo. Num momento, apoiou-se à parede e olhou para o cimo. Sorriu num esgar, endireitou-se numa pose quase de princípe e percorreu os últimos metros com a dignidade dos de outrora. Rodeou o carro pela esquerda, abriu a porta e entrou sem palavra. Depois de um suspiro, obrigatório digo eu, virou-se para mim, estendeu-me a mão e apresentou-se. Apertei-lhe a mão, parti a cigarrilha, o que restava, em dois e dei-lhe a metade apagada. Os olhos brilharam-lhe enquanto aceitava a chama. Aspirou profundamente, tossiu as réstias do cansaço e com um semblante renovado disse.
- Esperam-nos no armazém número 2. O um está irremediavelmente perdido. O cubano e o alemão chegaram antes de nós.
Rodei a chave, meti a mudança e acelerei rua abaixo sempre na sensação de atropelar o último transeunte. Antes do semáforo, abri o porta-luvas e apontei a automática. Ele sorriu e recusou com a palma da mão.
- Prefiro uns carapauzinhos e um copo de branco.