novembro 10, 2012

Carnegie é antes da próxima esquina



Enquanto espero olho a ponta das calças amarrotadas, aquele afunilar do joelho ao sapato, pretendido na fluidez de uma avenida de luzes ainda acesas, descendo de um pedestal até à praça vazia que ainda há pouco abarrotava de passeantes e gabarolas, esses de cabelo revolto à custa de toques de pulso, cigarros acesos porque sim, portas abertas chamando incautos. Toco com dois dedos no copo, ensaiando movimento que entrechoque o que resta das duas pedras de gelo, pé apoiado nesse tamborim cor de vinho, goles gulosos que daria se fossem menos horas, se as soubesse subtrair e agitar a aritmética do tempo perdido, aquele sorriso feito algoritmo, como se o barman tivesse algo a esconder e aquela mulher, que apenas lhe resta fatalidade, conhecesse os segredos de todos, os que se demoram e os demais, rápidos no prazer e como dobram a esquina. Demorar é o verbo, a coluna jónica do desejo, a dois, o par elevado à condição de único, divindades a meias santificando o prazer à vez. Por cima da última fila de garrafas jaz aquela gravura que insisto homenagear Turner ou algum anónimo, efeito de um ópio envelhecido sem odor nem maleabilidade, mas que se fuma por obrigação. Na esteira, uma gasta partitura. Serve-me de consolo como alguma almofada, se a houvesse. Vejo-a de linhas alinhadas, pontinhos negros ensaiando escadas, a derradeira versão de um testamento roubado em casa de ourives. Sigo-a pelas ruas que circundam o bairro dos quartos alugados, revejo-me no matraqueio regular dos seus saltos altos, serpenteio pela costura da sua meia, colheita preferencial do meu amor que será fumo daqui a duas horas. Serei fiel. Mas apenas enquanto as duas horas demorarem. A demora. A pressa de esperar num banco corrido de madeira numa estação de comboio, malas roçando o chão e esses apressados de farda e boné controlando bilhetes e intenções. Subo a carruagem número sete, amarrotando a ponta da calça, aquela junto ao sapato. Piso a alcatifa adoentada e sigo a geometria básica de um corredor sem extensão. Paro à porta do compartimento vazio, cubículo que tresanda a tabaco e suor. Sento-me revolto em cansaço, moído como farinha, e avisado em demasia dos perigos da fronteira e dos viajantes de última hora.

1 comentário:

Não me esqueças.... disse...

simbiose de pretéritos mais que perfeitos num teatro de palco submerso em metáforas de vidas. brilhante!