novembro 09, 2012

Debaixo da mente e à beira da cela

Curvilíneos solares em abóbodas onde se movem as linhas do dedo divino, esse divino chamado ontem, transformação de um medo ou de circulares fechos de contas antigas, uma provocação gerida pelos vulcões, outrora apagados, sediados em alguma cafeteria japonesa onde o tapete rola submisso, soturno, empalidecendo esgares e apetites, daqueles que não terminam, dos que desaguam em hóteis de néon incompleto e camas desfeitas, porque o tempo não demora e os gestos exigem atenção. Somos peças de algemas, encadeados pelo abismo das nossas escolhas, varandas nocturnas onde se espreitam os amantes do prédio próximo, relevos de pêndulo contínuo enquanto a manhã não regressa. Ao longe o comboio, as janelas trémulas de cada passagem, vítimas de horários de conveniência. Já não existe o romântico matraqueio do carril, algum mordomo de ocasião anunciando o sabor e o pecado. Já se esqueceram os furtivos beijos em algum apeadeiro de província, ignorados e motivo de conversa por semanas. Sentado ao balcão, hesitando entre o café frio e a cerveja choca, observo mais do que vejo. E por isso, sou voyeur de mim próprio.

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