novembro 13, 2012

Ruas de portas e números repetidos



Despido, à janela, situando-me tanto nesse quarto andar como no passeio ou no bar da esquina, rigorosamente na esquina, entendo a espera como o passo fulcral do prazer. As vozes, as que deixo entrar, cercam-me de dedos apontados, lençóis esperando calor, copos que se querem meio cheios, deveres e brincos de madre-pérola espalhados por entre os papeis, cinzeiros cheios. Na rua, no passeio por debaixo das árvores sussurrantes, os degraus esperam a pausa ou o vício, o assassino de medo em riste, a mesma espera, os embriagados de rumo incerto descobrindo curiosidades alheias como se o escuro se tratasse com xarope. Na esquina, rigorosamente na esquina, já não existe nada. Tiraram o bar, todo, levaram-no para às escondidas o despirem e o meterem na cama, um sono que não acabe, um sono que faça o esquecimento acordar. O vidro da minha janela tem desenhada a minha respiração. Traço-lhe uma decisão. Alguém, os passos incertos de algum amante, olharão para cima e reconhecerão a senha. A porta está aberta. Sempre esteve.

2 comentários:

Não me esqueças.... disse...

realidades oblíquas aos respirares paralelos nas janelas abertas de par em par deixando entrar a esquina marejada de vícios (s)em pausa.

porta aberta com senha conhecida. e o mistério do desvendado aos poucos?

repito letras: excelente!

Não me esqueças.... disse...

Quase que jurava já ter comentado este excerto de neo-realismo perturbantemente belo. Mas as provas que me pedem para a certeza de eu não ser um robô, nem sempre as ultrapasso com sucesso. De qualquer modo, já não saberia reproduzir o comentário inicial, assim, fico-me pelo banal...
...há portas que parecendo abertas, são paredes disfarçadas de saídas. Já as entradas distinguem-se pelas portas entreabertas :-)