fevereiro 21, 2013

Sapatos de atacadores e meias de costura



Apoiei as mãos na mesa, as duas, com as palmas sentindo a madeira algo rugosa, como alguém que pretende um salto felino sem sair do mesmo lugar. Tamborilei os dedos numa impaciência fugidia, aquele estado de paciência esgotada que dura apenas alguns segundos. Peguei no copo e bebi com generosidade. Sou generoso... Foi então que me lembrei de cruzar prazeres. Meti a mão no bolso, sentindo a caixa quadrada. Tirei, abri e escolhi com a soberba habitual. Acendi e puxei o fumo com vontade. O fumo envolveu-me e pediu-me outro gole. Obedeci. Estava nesse duelo de delícias, quando ela se aproximou. Apoiou-se nas costas da cadeira, ainda vaga - Estou a pensar se lhe consigo dizer o que me provocam as cigarrilhas. - Sorriu e senti-a controlar os músculos dos ombros - Mais logo... - Acrescentou de mansinho.

1 comentário:

Anónimo disse...


...
o ritual de acender, fumar, deliciar-se com cigarrilhas numa onda de fumo que provoca a vontade de fazer amor com as palavras. será talvez uma das muitas formas de firmar as palmas das mãos na madeira rugosa como a alma do corpo que se aspira. ou não.

Soberbo!