fevereiro 17, 2013

Walker com a Lafayette



Chuto a lata, fazendo rebolar o que permanece inanimado. Nesse beco, palco de misérias e reanimações, amontoa-se o lixo de gerações, como se os tesouros perdessem o valor apenas por não desaparecerem. Nas paredes altas, desenho sem pincel os amores e as tragédias que não chegaram a gregas. Imagino esperar todos os dias, à mesma hora, encostado ao mesmo monte ferrugento de entulho. Imagino uma espera romântica, sobrevivente, emoldurada a dourado envelhecido. Imagino dias sem conta, camisa sempre branca, colete de fantasia, sapatos de atacadores encerados. Relógio de corda oferecido com pompa por algum avô, recortes de revistas imortalizando chegadas e partidas. Acordado pelo silêncio fabricado, usual forma das cidades mostrarem o seu tédio, enterro as mãos nos bolsos, esfrego a ponta do sapato no pó e estico o passo para outro sítio qualquer, onde o silêncio não me toque, e a multidão me faça esquecer quem sou.

1 comentário:

AnaMar (pseudónimo) disse...

Imaginar é desafiar o destino.

(E que bom que é trocar-lhe as voltas:-)

O relógio de corda (e de corrente, pois é de bolso) estigmatiza a pompa de qualquer avô que é memória, mesmo que imaginada.

gostei especialmente de 'onde o silêncio não me toque' - um lugar que me é comum, sem ser banal.