março 14, 2013

Johnny Sundown



Como uma segunda pele, senti, quando fechei a porta do carro. Agarrei o volante e deslizei os dedos ao longo desse circular deleite, não imaginando melhor substituto da pele de uma mulher. Senti na cara os resquícios da típica poeira das estradas mexicanas, e interroguei-me se o desvio tinha valido a pena. Afinal, se o destino fosse à vista desse oceano azul o que seria essa dose de pó... Verifiquei se tinha cigarros e sintonizei uma banda de mariachis modernaços. Olhei o espelho retrovisor e agradeci-lhe mentalmente os óculos escuros. Nunca teria comprado aquele modelo, mas ela tinha acertado em cheio. Geralmente acertava. Relembrei-lhe o cabelo em desordem calculada, a camisa branca que adorava sobre aquela pele bronzeada, até as calças rasgadas e os pés nus que adorava estender sobre o tablier. Olhei o lugar vazio. Acendi um cigarro, liguei o carro e depois de um derradeiro semicerrar dos olhos, arranquei. Talvez a encontrasse em San Diego. Ou pelo menos, a sua pedra tumular.

1 comentário:

Anónimo disse...

o fascínio duma desordem calculada num cabelo de mulher conjugada com os pés nus no tablier, reflectidos nos óculos escuros do homem. fantástica imagem, fabulosa viagem



Nota: sou um robô :-)))