maio 23, 2013

Lamento

Suspirar o peso do centro da praça, nas paredes como altares da catedral, um coração roído pelas culpas dos séculos que não chegaram a passar. Fervendo, o sangue dimensiona a tontura, vilã prendada de sonoros sobressaltos perigando o sentido de gravidade. Nos olhos, o levedar de uma carícia que uma era de antes não compartilhou. Das janelas fechadas com o peso do proibido, descobrem-se fios de uma espera de toda a noite, talvez uns dedos delicados suavizando arminho, porventura um cálice esquecido de aroma contagiante. Uma chuva miudinha enternece a palidez dos passos imóveis e das mãos caídas em desuso. Passos que se recusam a sê-lo, apenas no desejo de estar, torpor carmélico de uma devoção. No fim da noite, levadas as folhas encharcadas pelo remoínho da madrugada, o corpo será de pedra, nesse aviso colérico de ogre. Por amor se oferece a carne, e por amor, se assume a imortalidade.

(ao som de Abandoned Toys)

1 comentário:

Anónimo disse...

palavras que se entranham na pele através do olhar de quem lê ou adivinha
imortal a carne acesa pelo amor que a chuva muidinha não arrefece

carícias que crescem com(o) a noite de mãos ansiosas.

descubro o texto, o corpo, descuro o mistério e deito-me com as letras enroscadas nos meus cabelos cor de surpresa.

(desejo um texto longo, longo, maxi que dure uma (ou mais) vida(s) a ler. porque (me) alimenta a sede.