setembro 02, 2013

Aquela esquina desbotou o céu anil

A caneta, como as cartas, envergonham-me cada minuto, desfazendo a serenidade que anseio, aqui sentado, disforme por dentro e com os dentes amarelos de décadas. Descobri hoje que sou de carne e osso, mortal como todos e aprazado como quem preza cada dia, mesmo na consequência de ser o último. Já não escolho as palavras, deixei-me purista. Abraço agora a condição de medíocre como se amanuense não fosse um pretérito. Nas canções de outros, e porque sou incapaz de escrever as minhas, descubro cada centímetro de mim. Suspiro lentamente e respiro, quase transpiração, as horas enterradas pela fuligem dos ponteiros, lápides e degraus, passeios fora da agenda e cafés vazios depois do almoço. Aceito com solenidade a esquina onde uma velhinha vendia tremoços e pevides aos domingos, gente sem passar segunda vez, como a batota num jogo com um só jogador. No regresso, fechada a gaveta das mangas curtas, rebolavamos na garagem escurecida ou adormecíamos nas escadas do museu, certos que existiamos sem nós. na praia deserta avistava-se no mar a chuva que não tardava, e encharcava-me na doce carícia da transgressão. Faz-me falta purificar na areia molhada e sentir que amanhã, é apenas um quadrado de calendário que me trará o outra vez. Antes, muito antes de descobrir, que o calendário pode desprender-se da parede.

1 comentário:

AnaMar (pseudónimo) disse...

esquinas com vendedores de tremoços e pevides ou caranguejos cozidos, desbotam o anil de qualquer céu e a consciência da mortalidade transgride todas os calendário de não sei.