dezembro 17, 2013

Cruel



Sinto-me perdido nesta extensão de nada, sufocado por uma praia que se deixou raptar em vez dos teus braços me agarrarem e me obrigares a olhar esse teu lado que insisto em ver como monumento e obra litúrgica. Preso nesta camisa de forças, coberto pela cinza que cai do meu capricho, enfrento todos os corredores e pontapeio as portas fechadas procurando pornografias alheias onde me possa enroscar e encontrar abrigo silencioso. Abro a carta pela enésima vez, e de todas as vezes não sei ler. Os hábitos, perdi-os no campo de batalha, onde as rotinas sangram e o gibão despedaçado deixa ver o peito imaculado. Cobardias decerto, essas migalhas que satisfazem a fome aos cinzentos e arrancam gargalhadas aos invisíveis que se alimentam de ouro colhido sobre as barrigas inchadas dos mortos de fome. Eu não vi estas atrocidades. Em vez disso, rebusquei as gavetas dos tesouros menores convencido de riquezas que saciassem o meu egoísmo. Como um ovo, almejei a perfeição que só encontrei em botões de punho desadequados. Na tradição, descobri a ordem do universo. Um projecto de universo, onde as galáxias se discutiam em programas de televisão. Olhei as estrelas e sorri com um leve escárnio de mim próprio. Era incapaz de saber o que eram estrelas. Olhei em volta, para os corpos nus copulando desenfreadamente entre o suor das aves de rapina, deitei-me lentamente e adormeci. Que a crueldade me assombrasse o sono e os dedos sentissem a vertigem.

Sem comentários: