dezembro 24, 2013

No divino a embriaguez da demora


Tenho-te debaixo da pele, como tantas vezes te senti com a pele gasta dos meus dedos, mesmo se a chuva me lava as imperfeições dos sentidos e me escorre os demónios dos pensamentos, tornando-me limpo à imagem de algo que se inventou e escondeu com medo do que erra e se arrasta pelas paredes imundas dos cemitérios e das fábricas abandonadas, pastos de infâmia e doçura, vislumbres feitos de almas passadas que brilham no escuro. Com o meu isqueiro entrego-lhes o que de solidário tenho no íntimo, ínfimo que ofereço na ilusão de lhes dar a provar o meu sabor e a minha carne. No sorriso, o que de humano me resta, há restos dessa poção que os antigos chamavam amor. E dos antigos admito uma lenda, existem deuses. Eles aqui estão, sentados pesadamente enquanto trocam olhares e hálitos. Eu, no meio da tempestade, olho-os com a deferência da tradição e a altivez da rebeldia, ciente e esquecido da condição de ser um deles.

1 comentário:

Anónimo disse...

Quantas vezes a pele se veste de pele do outro, num manjar de deuses que aguardam em fila sabores de amores e hálitos de espanto quando sabem a música...


As tempestades têm a clarividência dos relâmpagos serem trovões de silêncio e paz duradoura.

Mais um texto que me espanta de cada vez que o releio.