abril 04, 2014

Licantropia piedosa


Enquanto os lobos bebem as últimas chuvas da manhã, regressam os rumores de multidões desaparecidas, pegadas que deixam de existir, nomes sem chamamento na mudez da ignorância. No topo da colina ainda se erguem as colunas da passagem, porta ou altar não se sabe, os fiapos e as manchas de sangue seco não respondem e a dúvida já percorre o chão em forma de ervas daninhas. Como fiéis, os lobos olham o céu buscando a neve final, sinal divino do caminho repetido da mudança. Nós, os que escrevemos humanos, deitados e ocultos sob pedras descomunais, somos afinal de quatro patas, óbvia encarnação de algo antigo que se jura antes de entender.

1 comentário:

Não me esqueças.... disse...

As transformações invertem-se em pesadelos subtis de esgares de desprezo.
___________ chuvas que os lobos bebem de pé, antes que os homens- cães cheguem, antes as peles curtidas ao sol mais distante se desfaçam nas mãos dos anjos.

(Uma escrita que nos [e]leva para lugares recônditos da nossa infância. Quando a Lua ainda era cheia de uivos)