maio 14, 2014

A praia desapareceu


Nesse momento, a onda tomou-lhe a mão e levou-a dali. Sabia que as recordações e os lamentos guardados no seu coração, seriam o antídoto para tanto sal. Levaria os remoinhos a vê-la e dir-lhes-ia que era sua, como se uma mentira em alto mar fosse inofensiva. Enfeitaria os cabelos com quantas estrelas pudesse apanhar, rompendo as constelações num logro que só seria visto por olhos ágeis e moribundos. Quando o vento se escondesse, dançaria valsas e arrastaria a cauda do vestido de algas como se o salão fosse uma maré. Por ciúme, arrastaria o braço inerte até ao fundo, onde os luares não encontram as almas. E num estremunho de amor, daqueles verdadeiros que só as histórias contam, correu sem fôlego e pousou-a na areia, com a luz do farol varrendo a carícia, uma gota de sal sobre a face adormecida, sinal indelével de que a paixão pode apenas ser.

1 comentário:

Anónimo disse...

Um dos mais maravilhosos, mais sublimes textos que li últimamente (e tenho lido imenso).

O acompanhamento musical, poderoso. Um resultado extasiante. E apetece ficar aqui, entre as letras da memória e as notas de música que envolve, percorre, transcende e...


Grandiosa escrita. Aguardo um livro seu.