junho 25, 2014

Institucional

Começa à porta de casa. Quando há casa. Começa à beira do caminho. Porque há sempre caminho. Começa nos olhos de todos os dias, por onde nos movemos em negação e optimismo, o mesmo que acredita nos corvos só na porta ao lado. Como se a noite fosse sempre mais escura onde nos esquecemos de existir. Como se não houvesse sono suficiente para descansar a ingenuidade. Como se isso tudo só existe longe, onde se dizem amarguras com palavras desconhecidas. Como se a destruição parasse nas margens do rio. E sentado na margem de cá, porque há margens certas para estar sentado, olha-se o fumo do outro lado, nas fogueiras onde se engana a fome, nos incêndios onde se morre o dia seguinte. Existe um muro, ou uma parede, demasiado enegrecida para lhe julgar a diferença. Consegue-se ler, ou adivinhar, os contornos da palavra liberdade. Os traços suficientes. Não sei o que significa. Não compreendo se tem sinónimo. Parece-me o resultado de um humor requentado. Aquela pasta cinzenta que se deixa ferver numa frigideira apodrecida. Quente para a fome se rir um pouco menos. Quente para aquecer o corpo sem vida que serve de almofada. Nas ruas, sem ruído, passam enormes veículos escuros. Nas ruas com luzes escassas e grandes cartazes onde se diferencia. Onde se escala a espécie humana. Nas prateleiras dos supermercados, pegam-se caixas em troca do seu código de barras. Nos peitos escondendo seios verdadeiros, estão escritos nomes femininos que não se sabem dizer. Algum dicionário antigo chama-lhes nomes. São apenas esquecimentos escritos com letras. Não fazem qualquer sentido. Não são números. São escolas. Não se ouve nada nas escolas. Não há quadros pintados a giz. Não há janelas onde se pintam dias de sol. Não há sol. Os corredores são construídos com medidas impossíveis de lhes conhecer a última porta. As estradas continuam até onde não haja ninguém. Os edifícios levantam-se até o suicídio não precisar de bater no chão. Do pátio, apenas resta a rede de segurança. O último lugar para alguém se sentir seguro. Tenho sede. E não há água no regador.

1 comentário:

Anónimo disse...

Poderoso:'Os edifícios levantam-se até o suicídio não precisar de bater no chão.'

Verdade nua e crua: 'o resultado de um humor requentado. Aquela pasta cinzenta que se deixa ferver numa frigideira apodrecida. Quente para a fome se rir um pouco menos. Quente para aquecer o corpo sem vida que serve de almofada.'

Para a sua sede...
https://www.youtube.com/watch?v=aBWxjAiO_KQ

que a fome devora os incautos, por serem pessoas de bem. Como quem aqui escreve.

Deixo um beijo, Von