maio 31, 2018

Rodeando as pegadas


A curva de um destino é uma geometria de difícil digestão, vergando a biologia numa sinuosa sucessão de enganos e surpreendentes encruzilhadas onde os caminhos teimam passar. Existe uma lição algures, numa berma ou num barracão abandonado à beira da estrada, mar rugindo ao longe ou simplesmente acariciando, tal é a longitude do pensamento ou a latitude da emoção. Sou, somos, ervas curvadas pelo vento incessante, pedras desgastadas ou amaciadas se o tempo for soberano ou amante. As cores adaptam-se ao limiar do olhar, a suave espera procura-se num olhar preso no horizonte, os pés não se movem, os dedos crispam-se ao som dos segundos, a maioria dos véus tecidos a alma sustêm a respiração num ondular doce e imóvel. Bandeiras isentas de pátria. Num quarto, numa casa de luzes nocturnas, os papéis espalham-se sobre uma mesa de madeira verdadeira. É esta a única certeza que tresanda a verdade. Sem filosofias nem páginas bojudas de todas as definições da lei. Páginas espalhadas, rabiscadas, desenhadas a tinta da vida, pedaços avulsos contendo instantes.

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