maio 31, 2018
Rodeando as pegadas
A curva de um destino é uma geometria de difícil digestão, vergando a biologia numa sinuosa sucessão de enganos e surpreendentes encruzilhadas onde os caminhos teimam passar. Existe uma lição algures, numa berma ou num barracão abandonado à beira da estrada, mar rugindo ao longe ou simplesmente acariciando, tal é a longitude do pensamento ou a latitude da emoção. Sou, somos, ervas curvadas pelo vento incessante, pedras desgastadas ou amaciadas se o tempo for soberano ou amante. As cores adaptam-se ao limiar do olhar, a suave espera procura-se num olhar preso no horizonte, os pés não se movem, os dedos crispam-se ao som dos segundos, a maioria dos véus tecidos a alma sustêm a respiração num ondular doce e imóvel. Bandeiras isentas de pátria. Num quarto, numa casa de luzes nocturnas, os papéis espalham-se sobre uma mesa de madeira verdadeira. É esta a única certeza que tresanda a verdade. Sem filosofias nem páginas bojudas de todas as definições da lei. Páginas espalhadas, rabiscadas, desenhadas a tinta da vida, pedaços avulsos contendo instantes.
março 29, 2018
Relógios e calendários de açúcar
Pequenos nadas recheados de confeitos e outras guloseimas de tempo finito, eis as leis dos tempos de agora e dos minutos que faltam para a próxima granada ou frase pomposa de Estado. São assim os dias desses minutos contados à pressa e sem pressa para dobrar o Bojador da dificuldade alheia, enquanto as guloseimas se amontoam nos tapetes das salas de orçamentos e conversações. Confia-se no tempo, esse mentiroso sem lei que no seu decreto não volta atrás nem corrige o culpado, e as ruas tremem de multidões de insurrectos cujas revoluções não passam de vaidades e invejas. Pequenos nadas são afinal pedaços de tudo. E tudo não será mais que minutos adocicados por confeitos breves e finitos, como a vida se apresenta em momentos e cadências contadas ao minuto e escritas ao momento.
agosto 25, 2017
Decisões, decisões...
Dentro da mala, entre trapos e livros escolhidos, guardam-se ruelas, caminhos estreitos e portas fechadas a cadeado que supostamente abrem-se ao abrir a mente. É quase um mito vestido de alguma lenda e renda, mas acontece, oh se acontece. Sei-o para poder contá-lo, vi-o para poder jurá-lo, e dos sentidos, desses violentos hipnóticos como canções de embalar, não conto nem juro, não direi que sei nem vi, sigo códices que me chamam criança. Mas tenho a mala comigo e ao folhear os livros escolhidos, encontro páginas soltas com as poucas, pouquíssimas, confissões que posso partilhar. Tenho um molho delas na mão. Ainda não decidi se as atiro ao vento do cimo de um penhasco ou se as lerei à luz de velas ao ouvido ávido da luxúria.
agosto 22, 2017
Depois de percorrer as quatro arestas do quarteirão, não voltei
Depois de desaparecido começam as preocupações. As dos outros. As minhas resolvem-se em si mesmo. E a desaparição é, então, uma guloseima travestida de divindade, algum semideus sem forma nem pés nem mãos que rodeia a razão, o motivo, os embrulha em papel dourado e os lança da ponte ao rio ficando a gargalhar enquanto se afundam muito lentamente. Desaparecido tem a veleidade de um desabrochar tardio. E afinal, basta essa simplicidade e começam a acontecer razões e motivos muito mais estimulantes dos que se afundam nas águas. Renascer, afinal, tem método. Eu, que abomino metodologias.
agosto 21, 2017
Não há contabilidade na saudade
Quando se contabilizam os dias retira-se de algum lado o espírito que os envolve. Os dias são vasos sagrados onde se plantam sementes extraordinárias, palavras incompletas ou rajadas de vento. Mas ao se entregar aos dias, a esses vasos uterinos, os números e as fórmulas de catalogar, perdem-se definitivamente as passionatas relíquias que vivem e exaltam a cor e o sabor de que são formados os nós dos amores. E se os números insistem, os vasos secam por dentro, tornam-se quebradiços por fora e cada dia desfaz-se em medidas de tempo que apenas servem os infra-humanos, especialmente os que nunca se imaginaram. Quando o dia faz por existir, quando as horas e os minutos se transformam em verbo, acariciar não é o primeiro de nenhuma lista. É certamente momento de o declamar.
agosto 20, 2017
Na dúvida, certeza absoluta
Na dúvida, certeza absoluta. Porque a luz assim o determina, porque a cidade funciona e a energia é o sangue que perpetua e se consome sem apetite. Atiro-me de qualquer centésimo andar de algum centésimo edifício, a questão é mera retórica ou algum divertimento encadeado pelos faróis de mil automóveis enquanto outros mil esperam a sua vez. A espera existe como palco e a pressa como guião. E cada argumento possui-se a si mesmo, numa latitude impossível onde a manhã se retarda todas as noites. As luzes de qualquer centésima cidade ou milésima rua são a raiz, o caule e a folha. O fruto é a vampiresca necessidade de absorver energia como se fosse guloseima. E a flor, a janela do milionésimo edifício onde se olha, vê e decide o salto.
agosto 19, 2017
O sol será azul se eu quiser.
Ínfimo, eu me confesso perigoso, legado de algum trono que desconheço ou apenas motivo de geração incipiente, onde a hierarquia não passa de um favor ou no limite, uma ordem. A ganância da vontade, esse liquido pecado nulo do qual se constroem as lendas ou os semi-deuses, não passa de teimosia temporária, ou aparência excêntrica onde o olhar pára e se diverte. A lei nunca foi una, apenas o papel confirma, mas mil mentes e mais mil e outras mil, compreendem cada instante de maneira alheia, como se a vida fosse propriedade da alma e a alma existisse como decreto orgânico onde a vírgula e o parágrafo fossem fios de vento que não se agarram nem repetem. Dúvidas são as respostas dos alados quando nos sobrevoam, inchados da sua proeza e inertes no seu propósito. E nós, de olhar no céu, ou em céus diferentes, buscamos o que não se encontra. Prendemos o nosso pulso ao portão enferrujado e ali ficamos em pausa por muito que gritemos luta. Aplaudimos a maré apenas por ser maré. E choramos as lágrimas que guardamos em garrafas para os momentos de choro. Ínfimo, eu me confesso supremo, apenas por me lembrar destas mínimas incertezas arrumadas a um canto.
agosto 17, 2017
Todos os tiros revelarão carícias
Todo o armistício traça-te caminhos na pele onde os meus dedos viajam sem permissão. A trégua ou o beligerante cessar fogo, encontram veredas e caminhos desconhecidos ao longo de muros cobertos de pinturas, os esconderijos que o rio conhece e não esconde, o quarto sem paredes e«nem lençóis onde lutamos o nosso amor como se paixão fosse um carregador repleto de projecteis, mais uma na câmara, para nos atingirmos simultaneamente em todas as partes do corpo onde a ferida seja prazer. Conheço lugares onde o amor conhece minutos que não sabia existir. E nesses lugares, cada disparo molda uma ressurreição que o corpo compreende.
novembro 23, 2016
Creio serem horas
Ao deambular pelos confins e outros lugares um pouco mais perto, descobri a essência, uma claridade ténue varrida por uma brisa gelada, um palco, um altar e uma cadeira, de acordo com as necessidades ou os temores que se guardem no bolso. As águas parecem pairar enquanto uma ave sem nome faz de barco ou de naufrago. O relógio ganhou tédio na medida exacta dos ponteiros que faltam. E a carícia regressou por momentos, ou instantes, só ela sabe. No terceiro andar, a noite espera. E esperará sempre, pelo menos enquanto os passos subirem os degraus alcatifados da íngreme persistência.
outubro 07, 2015
No limiar da floresta não há luzes
Caminho ladeado por azuis e cinzentos, muros e distâncias largas onde se escoam visões e se prendem dúvidas e hesitações. Neste fosso, as ilusões têm a forma de peixes como se os vermelhos e os lodosos fossem irmãos unidos de uma gestação enganosa ou, apenas, porque a natureza decidiu mostrar que a vontade não tem lugar neste remoinho de geometrias sem graduação humana. Eis a atracção pelo vazio, esse bocado de mundo árido que a sede não verga nem polui. E nessa cave imunda, luminosa em dias de marcados pela hora de acordar, os vasos dão guarida a planos de vida sem pressa de chegar a velho. Talvez por isso, o vento é a forma perfeita de entender o lugar exacto das coisas.
setembro 22, 2015
Prolongando a travessia da ponte
Eu não quero que seja fácil. Não quero o sorriso sem o desejo. Não quero o sim sem as dúvidas, o caminho sem os enganos. Não quero saber sem procurar, o sabor sem a antecipação, preciso de cada véu sem forçar os minutos de cada suspiro.
setembro 07, 2015
Demasiado tempo
Se o tempo significar objectos perdidos ou vontades sem significado, então as consequências serão dirigíveis à solta povoando os céus de roteiros extraviados, apenas porque a razão das coisas foi abalada e ameaça desmoronar cada centímetro de lógica que existe dentro de cada um de nós.
maio 16, 2015
Por detrás das cortinas que já não existem
Ao eleger as decisões mais ousadas, pego no prato e no copo, astros de um sideral entre paredes e porta entreaberta, e submeto-me à cidadela que roda ao vagar dos meus intentos e pressas obtusas. O volteio, esse trote ameno que antecede a entrega, é o caminho que os fiapos do amor descrevem, essas pedrinhas coloridas que antigamente sabiam os destinos de todas as encruzilhadas, mesmo se os muros fossem altos e as árvores de pomar se mostrassem despidas. Os passos eram maiores, enormes como as marés altas salpicando o topo das escarpas laminadas, os dedos esticavam-se abertos na ânsia de tocar verões, os olhos procuravam pontos nos areais ou apenas carreiros indicando onde caíam os arco-íris. As cores eram sempre anil. Agora desmaiam. Ao pousar o prato e copo, quieto esse barulho de vidro contra cerâmica, olho pela janela descobrindo que sou janela, levando para a cama o que lá fora me deixa ver.
janeiro 06, 2015
Sintoma
Romper os laços olhados como cordas, esfarrapar os lenços e cobrir-me de folhas amarelas num canto desse jardim, esquecido como no dia em que deixei cair a porta e me tornei amargo e avaro, repetidor de palavras e estripador de sílabas, esquecido dos caminhos do amor, das suas paragens e das árvores que lhe prometem sombra ou abrigo, como se os beijos precisassem de albergue, frutas maduras sem gesto de colheita ou arrependimento.
dezembro 24, 2014
No céu e na terra e no tardar
Brinco sem a memória ou turvo de uma decisão imensa, máscara cobrindo-me a fealdade e ao mesmo tempo revelando, sou um tufo e as copas estão no alto onde os limites combinaram ser inatingíveis. O pensamento vai caindo em pedaços como uma parede de cal antiga, descascada pelo cansaço, indiferença de quem passa porque o olhar só tropeça no óbvio. A fadiga, a verdadeira que tolhe os ossos como aperta o espírito, escolheu-me para par, uma dança fria e calculista que se volteia a cada justificação como se a palavra fosse bengala. As minhas mãos já não apertam como antes. Estão áridas e não sabem como aquecer. Já não conhecem as letras e a cada frase, amolecem de tanto hesitar. Só a calma do silêncio lhes serve de afago, nós de solidão em novelos de fio áspero que se toca imaginando a pele sedosa de uma mulher que se oferece. O tempo jaz em cacos e a vontade desfraldada em farrapos são as notas trémulas de uma canção que tropeça às mãos do seu compositor, um fulano vago, cativo de luas e luzes distantes, incapaz de soletrar o que o coração dita. Quem me encontrar moribundo não me dê água nem sacramentos. Jogo com o meu fim, e a quem me receber do outro lado, entrego essa ousadia. Que a pese e analise demoradamente, e a registe nos livros veniais, como se o epitáfio fosse a notícia de um nascimento.
novembro 07, 2014
Fahrenheit
Desafiar intrusões
como te desafio em nenhum dia,
por te encontrar perdida
e não desejar picos de montanha
lá longe,
nesses lugares cativos
e inapropriados,
caminhadas depois da hora de adormecer
para chegar a algum altar
onde entrego algo de mim,
do meu interior,
algo que me faça falta
e que a vida reclame
para continuar a acordar-me.
Sinto o corpo afundado,
recortado na neve
e pesado como não sabia.
Entendo a reticência,
atiro sim aos rochedos
e ao grito das aves que não migram,
e espero,
espero muito,
pelos degelos
ou outra blasfémia qualquer
que me leve em turbilhão
e me desenhe em algum vale
de sossegos e palavras,
as bastantes,
só as bastantes,
porque não me interessam os porquês,
as razões
ou os perdões.
como te desafio em nenhum dia,
por te encontrar perdida
e não desejar picos de montanha
lá longe,
nesses lugares cativos
e inapropriados,
caminhadas depois da hora de adormecer
para chegar a algum altar
onde entrego algo de mim,
do meu interior,
algo que me faça falta
e que a vida reclame
para continuar a acordar-me.
Sinto o corpo afundado,
recortado na neve
e pesado como não sabia.
Entendo a reticência,
atiro sim aos rochedos
e ao grito das aves que não migram,
e espero,
espero muito,
pelos degelos
ou outra blasfémia qualquer
que me leve em turbilhão
e me desenhe em algum vale
de sossegos e palavras,
as bastantes,
só as bastantes,
porque não me interessam os porquês,
as razões
ou os perdões.
julho 16, 2014
Premonições
No piano que em cada dia se revela aquele, o de outras e afinal as mesmas, porque um coração não se engana apenas esconde de si mesmo, guardo as redenções e os bancos de jardim, vazios como o cais em noite de temporal, passos raros por caminhos de espinhos sem coroa nem beira, amparados pela cor da tristeza em tons de pedra preciosa. Refeito de dores que insistem ser antigas, olho a linha que separa hoje e a ausência de amanhã, como se cada jogo na prateleira fosse uma imaginação. E se a cada movimento fútil do planeta corresponder uma constelação ou um nome grego, ajoelho-me e ofereço o pescoço aos deuses. Rio alto, sabendo que os deuses não existem ou professam um sono demorado. Ao tom brusco da intemporalidade e esquecido de pianos e chuvas cruas, procuro uma cadeira que me responda os mistérios de um mundo próximo, ao mesmo tempo que me acalme as interjeições e os arremedos de poeta. Sentado, saberei o meu ponto cardeal, assim como o segundo exacto da minha morte. Ou de cada uma delas.
junho 25, 2014
Institucional
Começa à porta de casa. Quando há casa. Começa à beira do caminho. Porque há sempre caminho. Começa nos olhos de todos os dias, por onde nos movemos em negação e optimismo, o mesmo que acredita nos corvos só na porta ao lado. Como se a noite fosse sempre mais escura onde nos esquecemos de existir. Como se não houvesse sono suficiente para descansar a ingenuidade. Como se isso tudo só existe longe, onde se dizem amarguras com palavras desconhecidas. Como se a destruição parasse nas margens do rio. E sentado na margem de cá, porque há margens certas para estar sentado, olha-se o fumo do outro lado, nas fogueiras onde se engana a fome, nos incêndios onde se morre o dia seguinte. Existe um muro, ou uma parede, demasiado enegrecida para lhe julgar a diferença. Consegue-se ler, ou adivinhar, os contornos da palavra liberdade. Os traços suficientes. Não sei o que significa. Não compreendo se tem sinónimo. Parece-me o resultado de um humor requentado. Aquela pasta cinzenta que se deixa ferver numa frigideira apodrecida. Quente para a fome se rir um pouco menos. Quente para aquecer o corpo sem vida que serve de almofada. Nas ruas, sem ruído, passam enormes veículos escuros. Nas ruas com luzes escassas e grandes cartazes onde se diferencia. Onde se escala a espécie humana. Nas prateleiras dos supermercados, pegam-se caixas em troca do seu código de barras. Nos peitos escondendo seios verdadeiros, estão escritos nomes femininos que não se sabem dizer. Algum dicionário antigo chama-lhes nomes. São apenas esquecimentos escritos com letras. Não fazem qualquer sentido. Não são números. São escolas. Não se ouve nada nas escolas. Não há quadros pintados a giz. Não há janelas onde se pintam dias de sol. Não há sol. Os corredores são construídos com medidas impossíveis de lhes conhecer a última porta. As estradas continuam até onde não haja ninguém. Os edifícios levantam-se até o suicídio não precisar de bater no chão. Do pátio, apenas resta a rede de segurança. O último lugar para alguém se sentir seguro. Tenho sede. E não há água no regador.
junho 18, 2014
A rua que nunca mais acaba
Sem ontem ou antes, situo-me na periferia das recordações enquanto o eco me circula e detém. Dois pés movidos a sensações, porque cada momento é um quarteirão, coleccionando rumos em cromos desbotados que enchem mais algibeiras do que posso suportar. Pesam-me as almas, todas as que carrego, como mochilas desfiadas por onde vão caindo pequenos esboços de calendários sem datas. Tenho de parar, extenuado, apoiando-me num muro amigo que se ergue para mim. Deste lado, eu e a alvura do dia. Do lado de lá, as penumbras próprias das lápides desarrumadas.
A conta, por favor
Serpenteando por entre o que os anos empilharam sobre os tapetes que outrora foram meus, agora pertencem ao chão, não encontro qualquer fio de meada, nem gavetas vazias onde os esquecimentos guardem as relíquias. Temos mais do que somos. E não chegamos a ser nem o contorno, nem uma aresta afiada por um autómato que se guarda com um par de olhos, enquanto o par de braços está caído e o par de mãos é um amontoado de dedos crispados. Deixámos para trás a criança de brinquedo junto ao coração. Aquela que não sabia que todo o simples compõe-se de complicados. Evito os espelhos para não ver a tabela periódica de traços esmagados pelos dias iguais, cópias fiéis que insisto em pintar e comprar-lhes tempo em forma de moldura. Sou um museu de portas entreabertas onde o direito de admissão é decidido por um tribunal sem certezas.
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