Algures, numa rua escurecida por uma noite tardia, existe um átomo que rege o que sinto. Não o guardo só para mim, porque a cumplicidade não mo permite. E por cúmplice, tenho a verdade de um encanto.
janeiro 15, 2005
A Culpa
No balanço letal, entre o calor invisível e o paladar adocicado por gotas fiéis de um cúmplice que aguarda no fundo de um copo de cristal, pretendem-se carícias e agulhas. As que marcam na pele o segredo dos vencedores. Subjugando um grito, percorro o olhar pelas heranças e despojos de um tempo ausente. Fixo um veludo esverdeado e encaminho dentro de mim, o infinito apetite por coisas mortais, gastas perante a poeira e apetecíveis quando o deleite se profetiza.
É tarde. À lua, suam encantos e texturas. Provoca-se a vontade de muito mais e canibaliza-se a paixão. Está aberta a porta sagrada do limite. Sem olhar o rasto dos passos de quem me precedeu, entro no salão, vasto de sonoros gemidos e apneias esmeraldas, embaraçando o dote que julguei correcto. É tarde. Ajoelho a humildade que se esvai em segundos. E vociferando urros bestiais, entrego-me à orgia. Sem mágoa, sem pertença ou perigo, cativo o estranho poder que atravessa as almas e destrói os muros altos do prazer. Sou um só. Eles, serão mil.
ao som de Ophelia´s Dream "Fairy Dance"
É tarde. À lua, suam encantos e texturas. Provoca-se a vontade de muito mais e canibaliza-se a paixão. Está aberta a porta sagrada do limite. Sem olhar o rasto dos passos de quem me precedeu, entro no salão, vasto de sonoros gemidos e apneias esmeraldas, embaraçando o dote que julguei correcto. É tarde. Ajoelho a humildade que se esvai em segundos. E vociferando urros bestiais, entrego-me à orgia. Sem mágoa, sem pertença ou perigo, cativo o estranho poder que atravessa as almas e destrói os muros altos do prazer. Sou um só. Eles, serão mil.
ao som de Ophelia´s Dream "Fairy Dance"
janeiro 14, 2005
Teatro da Salvação
Como numa ópera, subjugo-me aos coros e sinto-me explodir. Adianto as guitarras e os martelos pneumáticos, peço as pausas que me são devidas e parto para o fundo do palco. Volto-me e olho a plateia imóvel. Levanto o olhar para as frisas e os camarotes, para os tectos barrocos pintados de dourado, embacio-me com os veludos escarlates, ofusco-me nas jóias e pérolas das damas biscainhas e invejo-lhes os decotes. Ante as calvas sorumbáticas e disformes dos banqueiros e ministros, oferto os meus esgares de nojo. A um gesto meu, a orquestra irrompe e o coro grita e gesticula odes infernais. Quero o caos, a virtude e um raio fulminante em direcção a Marte. O céu pode esperar. Para sempre. Com os olhos fixos na fila de violinos, abro os braços em desafio e rejo a orquestra entre trovões e pânicos. Alagado em suor, incito os actores ao assassinato, exijo aleluias frenéticos, sinto as articulações ceder e as artérias a rebentar, prevejo cataclismos e os apocalipses que julguei inventar. Estou lívido, fulcral, pertenço a uma ordem que já não existe, sou templário do adeus e da revolta, precipito perdões e carícias, desperto amores vadios e beijos brutais. Sou divino. E imundo. Ordeno as forças do mal e da verticalidade que me cubram de riquezas e ilusões. Torno-me em trono e ocupo o palco com a autoridade dos antigos reis da lenda. Clamo por dragões e virgens, por santos e violadores, por mendigos e generais. Queimo todos os libretos, editando por decreto a minha baba. E luto, luto incessantemente pelo vazio e o nada, por luas intermitentes em volta do meu cerebro. Tatuo o perfil dos meus fémures no meu tórax ferido. Pretendo observar longamente o meu próprio crânio. E num volte face bestial, renego-me num perfeito reajuste, blasfemo as minhas entranhas e num suspiro final, confesso todas as mortes de que fui carrasco. Ao acorde da derradeira linha da pauta, sorrio, mastigo os dentes que me restam e com o sopro de vida que me mantém, a plenos pulmões exclamo: "A vós, a ignomínia... A todos, a ressurreição... A ti, rosas e ornamentos... E a mim, o descanso que me mitigue a fadiga".
ao som de Dargaard "Underworld Domain"
ao som de Dargaard "Underworld Domain"
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