fevereiro 18, 2005

Falsos profetas

Subjugado por dúvidas de Flandres,
perdido numa ventania oca,
sem pouso, sem catre,
movido por imagens vãs;
vergo-me à direcção da forca.

A caminho,
a caminho meus irmãos,
vede a luz, trémula,
são quebrantos,
violáceos,
perigos de barbárie terrena,
estupros celestiais
vírgulas extremas.

De noite,
sob as sombras das árvores,
os atalhos são vias sacras.
Pedintes
e vagabundos,
sob as marés
entre velas desfraldadas a jusante,
perseguidos pela fé,
esquecidos pela fortuna,
espezinhados em bolor
fervidos em água tépida.

São os gatunos,
bestas infiéis,
em número redondo de quinze,
sujeitos a mil escrútinios
de idade muito avançada.
São mostrengos,
e devoram luares.
Mostram-se alvos à turba,
permitindo a vergonha
enquanto matam a sede
com lodo de santas fontes.

Tremendo terrores de lenda,
de olhos esbugalhados,
pé ante pé
em pavor,
sumidos de algum alento;
os crentes, as prostitutas,
os antigos
e os batoteiros,
toda a fauna que a memória
insiste em mastigar.

Com as muralhas à vista,
vendo os archotes brilhar,
sente-se um querer maligno,
um cálice de velha cicuta.
De chagas abertas ao frio,
de ventre inchado
de míngua,
o choro babado em ribeiro,
a esperança
é cativeiro.

Só,
longe dos meus irmãos,
errando nas curvas da aurora,
ergo o punho para o céu,
e recito a heresia.

Pobre,
doente,
estafado,
protegido por nenhures,
embalsamado em vida
por feridas descomunais,
a voz transtornada em dor,
a vontade em farrapos,
suja de nada mais.

-Eis-me.
Já não sou meu.
Dou-me de pasto aos malditos.
Fustigo-me em vossas preces.
Comungo do vosso nojo.

Possesso,
encandescente,
num derradeiro arremedo,
babado de tons de ira,
desvendo por fim
o segredo:

- Dos céus,
a ignorância,
dos infernos,
compreensão.
De norte, de sul,
a vida.
Do meu próximo,
podridão.

ao som de Orphaned Land "El Norra Alila"

fevereiro 16, 2005

Divino

Por capricho, ou imprudência, tornei-me num deus para questionar a Natureza. Varri todos os papéis que inundavam a mesa do meu trabalho e com um gesto seco, desfiz-me de todos os traços humanos. Depois, inventei uma taça cor de âmbar, que enchi com água. Coloquei-a num dos cantos da mesa. Recolhi as pétalas de quatro rosas e com elas cobri a água.
Estranhei por alguns momentos, mas descobri-me desprovido de todos os sentidos mortais. Descobri outros. Notei que as diferenças entre os homens, são afinal preconceito. A Natureza, a de verdade, a que regulamenta a vida, não perde tempo em criar barreiras entre machos e fêmeas. Isso é tarefa da outra natureza, a que se escreve com letra minúscula. A que serve os desígnios das doutrinas e da retórica. A que se vende em nome de ideais e religiões. A que se limita a ser pântano. Preocupava-me a noção de pureza. A pretensão de regras impostas, o querer de alguns sobre todos os outros, os limites do animalismo e da sua carga magnética. Enfim, as horas, os costumes, as passadas definidas, os capítulos e os tratados. Preocupava-me toda a certeza. O absolutismo de uma certeza que se vende todos os dias. Tornei-me num deus e descobri a Natureza. E verifiquei que a outra, nem sequer existe.
Ser, como viver, tem as regras inerentes ao vazio, ao vento e ao apetite. Nada mais. O homem, como a mulher, decide a sua direcção. E dela, não fará definição nem dever. O homem, como a mulher, desvenda o seu desejo. E dele, não tornará rumo ou objectivo. A sensação deverá tornar-se emoção e esta, plenitude. O sim de um, não será o sim de outro. O sol, a chuva, o vento e o ocaso, serão as únicas forças a admirar. Os deuses, não serão mais que mensageiros. O homem e a mulher só se completam quando tal for a razão. A mulher e outra mulher, tal como o homem e outro homem, serão as partes inteiras se assim a Natureza o indicar. A Natureza de cada homem e de cada mulher. O vocábulo amor não existirá, porque não será necessário escrever ou dizê-lo. Estará presente. O amor terá forma de homem ou mulher. O amor, será homem ou mulher. E como a eternidade, carece de regras ou proibições.
Sentado, com a taça de pétalas no meu horizonte, fechei os olhos por momentos. Na minha Natureza antevi os risos, o prazer, o restolhar de crianças, as palavras dos sábios, os sons, as fases da lua, as cores e os sabores. Na minha Natureza antevi o brilho de uma mulher, o seu sabor e os seus lábios. Na minha Natureza senti-me ofegante, atento, sequioso. Quando abri os olhos, reconheci nas paredes a partilha e a simbologia divina. E por ser um deus, abri as mãos.

ao som de F.G.T.H. "Welcome to the Pleasure Dome (Fruitness Mix)"

fevereiro 15, 2005

Pausa

Toda a sabedoria de uma biblioteca solene, cabe numa vela acesa. Sobra ainda espaço para uma carícia, um vício e um pecado. Não necessáriamente por esta ordem.

Encontramo-nos no Graal

Tremo só de pensar no momento seguinte. Aceito o cigarro que há anos não experimentava, acendo-o com sofreguidão e sem me saber a nada, viro as costas à capela, aos convidados, ao mestre de cerimónias e a todas as flores que cobrem o chão. Tiro do bolso a chave do carro e antes de arrancar, olho a cruz iluminada. Nada mais resta para me demorar ali. Faço a manobra e acelero com a fúria de alguém que foi ludibriado. Fraude e dinheiro fácil... fraude e dinheiro ágil. E tudo isto, todas as provações, todos os cuidados e lamúrias, as tardes lentas, as beatas dos charutos engelhadas, as cinco horas todos os dias, e a seguir, e amanhã e sem nunca querer dizer adeus. Tudo isto, para nada. Para me sentir vítima e carrasco da sofreguidão. Para me acabrunhar de vez, coberto de milhões, enregelado por dividendos e lucros diários. Fui bem enganado.
Acordei na madrugada da realidade guiando um descapotável. Chovia uma morrinha fértil. A chuva dos silenciosos. Percorria a estrada de asfalto claro que cheguei a duvidar. Com o cinto de segurança a travar-me os impulsos, as bombas de gasolina entre as fábricas compridas e os respectivos edifícios de escritórios, o trânsito de ocasião, habitual, julgava-me invencível. Tinha aprendido a invejar as minhas intuições, sabia-me mordaz e cínico, quase como uma menina de laçarotes cor de rosa que exige bolinhos de cereja para o lanche. Conhecia-me. Há uns anos. Com as duas mãos no volante, actor vestido de almirante ou de fugitivo, desenhava as curvas com aplicação, retomando a cada pedaço de recta, o fatalismo dos mandarins que sofrem de gota. Na mala do carro, um monte de papéis em desordem confirmavam o meu estatuto de rico. Aliás, nem seriam necessários. Tinha saído a minha fotografia em quase todos os jornais. Primeira página. Ou última, conforme os casos. Estava lá tudo: A surpresa mal disfarçada, o ameaço de desmaio, as lágrimas inconformadas, os olhos fechados, os óculos escuros, o copo de água e a fuga repentina. Que me importa, era tudo verdade. Por uma vez, os jornais prescindiam do meu reparo. Que se danem.
Eram seis da tarde, quando decidi parar. Era um restaurante conhecido. Meu conhecido. O parque de estacionamento vazio, suspirou-me o desejo de estar sózinho. Fechei o carro e entrei. Comecei pelo fim: No bar, pedi a garrafa de rótulo negro e sentei-me perto da janela. Não me reconheceram. Depois do segundo copo, pedi uma mesa para jantar. Na segunda sala. A que me conhecia. Sentei-me, pedi logo o vinho habitual e recusei a ementa. O costume chegava. Não mudei os hábitos. Se calhar...
Comi pouco, mas bebi toda a garrafa de vinho. Quis sobremesa, mas não consegui engolir. Bebi dois cafés. Seguidos. Sôfregos, na esperança de me fazerem bem. Na casa de banho lavei a cara e olhei-me ao espelho. Estava velho. Pedi a conta e de pé, acendi um cigarro. Paguei com uma nota alta e voltei a fugir. Nada seria como dantes. Nem os silêncios, nem os sabores, nem a ordem natural das coisas. Aspirei o ar fresco da noite, pensei em segundos toda a história do jornal e evitei sorrir.
Sózinho, com o meu dinheiro, voltei à estrada, rumo a uma encruzilhada. Sabia exactamente onde encontrá-la.

ao som de The Stone Roses "I Wanna Be Adored"

fevereiro 14, 2005

Na caixa com os bichos da seda

...Gosto de comas de sete segundos. Confortam a alma. Quando há alma...

As palavras, as interrogações, os lados errados da culpa e do exílio, provocam as mesuras do remorso. Imaginando o centro estático de um crime, a poça de sangue que teima em aumentar, o estalido da patilha de segurança da arma que retorna a pacatez, a espera por qualquer coisa depois, o embaraço de mais um funeral e de um caixão forrado a lilás. Estas são as variáveis. Ou melhor, os coeficientes a usar e deitar fora. O que fica, depois das operações e dos cálculos, a seguir das contagens e das conferências, além da vergonha, é a ímpia vontade por mais vítimas. E o passatempo, o derradeiro gozo, é recusar pretendentes por motivos idiotas. Rebuscam-se ruas a pente fino, observam-se mesas de café e poltronas de colóquios, mandam-se despir prostitutas e pederastas, esvaziam-se lojas de brinquedos e queimam-se bonecas animadas, insufladas a água salgada e cocaína orgânica, recontam-se os votos de qualquer eleição de esquina, violam-se as bagageiras dos carros estacionados em segunda fila, inventam-se palavras em desordem para manifestações silenciosas. Abre-se a comporta de gaz e sufoca-se devagarinho. Morre-se em fatias.

Sete segundos? Ofereço 17... Vendido!

ao som de Carpathian Forest "A Forest"

fevereiro 10, 2005


Green Tranquility (by Roger Dean) Posted by Hello

Sono escreve-se com oito letras

Preparou o alarme do relógio para as 11 da noite. Abriu a gaveta e tirou as chaves de casa. As do carro, esqueceu-se delas. Fechou a porta com três voltas, aspirou o fresco do fim de tarde e sentiu-se vivo. Já no passeio, tirou um cigarro e acendeu-o com o prazer das noites compridas. Sentindo o frio, pôs as mãos nos bolsos do sobretudo de sempre e com os olhos semicerrados ao sol de poente, procurou um táxi.
Recostou-se no banco de trás e deixou-se ir. No rádio, canções populares que normalmente lhe aguçava o ódio. Agora, apenas sorrisos. No longo percurso, sempre junto ao rio, seduziu-se pelas filas de contentores e cargueiros ferrugentos, inspiração para as poesias que outros musicavam. Outros ainda as cantavam. Um trabalho hipócrita de equipa. Pediu ao "chauffer" se podia fumar. O outro, num resmungo, foi simpático. Acendeu outro cigarro e reparou que lhe restavam dois. Ainda havia tempo.
Pagou e recusou o troco. Ignorou os salamaleques e fechou a porta do táxi. Nem o viu arrancar. Olhou em volta. A praça estava na mesma. Como aquele fim de tarde há que tempos. O frio era diferente. Mais ácido. A luz, mais cinzenta. A memória, porque os anos passaram por aqui e não quiseram parar. Viu a porta do café de antigamente e entrou, um pouco solene. Afinal, já lá iam mais de trinta anos. O balcão de mármore era de inox. As prateleiras de madeira e vidro, alumínio e acrílico. O cheiro, uma miragem. Pediu um café, à procura de outro sabor. Já lá não estava. Riu quase alto. O empregado olhou-o com surpresa. Depois, com desagrado. Encolheu os ombros, deixou uma nota em cima do balcão e saíu. Eram 7 e meia. Chamou outro táxi e não se despediu da praça.
- Para a Alta, por favor. - Não perguntou se podia acender o cigarro e com olhos no vidro, embrenhou-se no começo da noite. Desde pequeno, brilhavam-lhe as idéias aqueles reclames luminosos. Mas nada como os néons do seu tempo. Para seu gosto, os actuais ou eram poucos, ou tinham um brilho baço. Falta de ambição. Ou de querer. As montras das lojas fechadas, impassíveis e superiores, acesas para a sua própria soberba, marcavam-lhe o cérebro disponível. Eram como um fetiche. Sempre que chegava a uma nova cidade, sempre ao anoitecer, jantava e rondava essas montras convencidas, até o cansaço e o sono o chamassem. Um prazer carnal, sem o odor a sexo. O táxi ultrapassava-as com rapidez, como se o desprezo fosse um salvo conduto para os semáforos. Riu quase alto e viu os olhos do "chauffer" no espelho. Estavam parados, com o sobrolho franzido. Não ligou.
Pagou e recolheu o troco. Mal saíu, sentiu o táxi arrancar num impulso. Olhou as moedas e deixou-as escorregar para o chão. O restaurante estava aberto. Entrou com o pé esquerdo à frente e escolheu a mesa de então. Pelos velhos tempos, começou com uma imperial. Leu a ementa com vagar. Nome por nome, prato por prato. 8 e 20, tinha tempo. Decidiu-se pelo arroz de pato no forno e uma meia garrafa de um tinto que tinha esquecido o nome. Ainda esperou pela tentação do pãozinho com manteiga, mas achou que era desnecessário. Os empregados eram todos novos. Que seria feito dos outros? O careca de camisa de manga curta. O magro, baixinho, de borbulhas no queixo. Lembrava-se da voz de ambos. Bebeu um gole de vinho à saúde deles. Boa ou fatal. Comeu sem olhar as horas. Mastigou como há muito não se lembrava. À sobremesa, não recusou o toucinho do céu. O sabor era o mesmo. Estranho. Não bebeu café e deixou uma gorjeta pelo doce. Antes de sair, acendeu um cigarro. Só ficava com um. Ao canto, junto da porta, uma máquina automática de venda de tabaco, mostrou-se. Não tnha moedas e não lhe apeteceu trocar dinheiro. Saíu.
Pensou que seria um boa idéia, caminhar até ao fim da rua. Ainda era longe. Tinha tempo. Passou à porta dos hóteis modernos e abrandou à vista de um dos antigos. Sorriu. Já lá tinha estado. Só durante a tarde. Tardes. Lentas de assumir e rápidas de esquecer. Exactamente ao contrário dos pedaços de chocolate que gostava de chupar. Ao longe, viu uma pastelaria e cedeu à gulodice. Comprou a marca que preferia e esperou o cigarro fugir. Imaginou-se numa cidade estrangeira e entregou com minúcia, os olhos à montras. Começou a pensar num idioma à sorte. Insistia nas palavras que já esquecera e criou diálogos inverosímeis, com empregados de lojas imaginários e alguns encontros casuais. Esqueceu o tempo por alguns minutos. Mais do que se imaginaria. Eram 5 para as 10. Sentiu falta de um álcool.
O táxi parou junto à porta iluminada. Pagou e esqueceu o troco e a boa noite. Entrou, baixou a cabeça ao porteiro da noite e chamou o elevador. O bar era no terceiro andar. Sentou-se numa mesa qualquer e satisfeito com a lisura do empregado, pediu conhaque. Olhou o barman, seguiu-lhe o movimento para a garrafa e descansou. Agarrou o copo em forma de balão com as duas mãos, como se fosse despedir-se de um moribundo. Por um acaso único, ouviu a canção que precisava de ouvir. Sorriu com embaraço e ofereceu a si próprio, a delícia de uma paz sem preço. Eram 10 e 35. Bebeu com pequenos goles, agarrou o sobretudo e desejou as boas noites. Deixou o suficiente para a bebida e muito mais pela canção. Já na rua, com as mãos nos bolsos e o vento nos cabelos, subiu a rua íngreme.
Quando chegou junto do muro, acendeu o cigarro, o último, inspirando muito devagar o primeiro fumo. Passou as duas mãos peos cabelos e olhou a cidade em baixo. A velha cidade suja e andrajosa que aprendeu a desejar. Foi a amante que mais lhe deu prazer. Trauteou a canção que lhe devia. Olhou o relógio e estremeceu por um segundo. Faltavam 4 para as 11. Levantou a cabeça, procurou o horizonte e com a mão por cima do bolso direito do sobretudo, sentiu o revólver. Porque gostava de finais felizes.

ao som de Balanescu Quartet "NoTime Before Time"

fevereiro 02, 2005

Quando os olhos dos gatos brilham

Ela fechou a carteira e recostou-se, gozando o prazer de parecer o que não era. Com um gesto feminino, compôs a meia e seguiu a perna até ao sapato preto que lhe agradava a silhueta. Já tinha bebido o suficiente. Qual suficiente? O de alguém ausente? A medida certa de parar o destino e a compostura? Pelo menos era o que lhe tinham impingido no colégio e na herança. Mas como o testamento já estava rasgado em quatro partes, como a fila certa do cemitério já não tinha nome, para quê esperar o dia seguinte. Porque não viver todos os dias que ainda faltam, no que ainda falta da noite? Fez um gesto discreto ao empregado e esperou o copo cheio. Com a cabeça um pouco pesada, embalou-se numa calma própria de tormenta. E sentiu-se mais feliz que nunca.

ao som de Jim Brickman "Harlem Nocturne"

fevereiro 01, 2005


Velvet Posted by Hello

Sumaríssimo

Cristo. A 200 à hora, parto para uma emboscada num desfiladeiro de pão e rosas. Enfrento a velocidade como um julgamento de togas indecentes, planificando defesas e jurados moles e mentirosos, decidindo as razões que os empoeirados exigiram. As portas e janelas fechadas não me impedem a viagem, arranco as ervas daninhas das bermas da estrada, nivelo o espelho retrovisor e procuro à retaguarda os farrapos dos meus sonhos e das minhas amantes. Fecho os olhos e sinto a estrada, um asfalto dolente e de beijos síncronos. Não recuso qualquer firmamento, não faço planos, não ocupo o lugar de nenhum defunto. Sou só eu aqui. Surdo e mudo de nascença, prevarico em dias de sol e peco em abundância à chuva. Na falésia mais perto do meu indicador direito, deixo-me cair com fúria, prolongando a velocidade do motor que me alumia a decência. Caio, caio de muito alto. Com os cabelos em turbilhão, experimento a impotência dos fracos numa queda em espiral. Voo em linha recta. Na vertical. Descubro em mim uma geometria periclitante. Vomito vectores e coordenadas longitudinais. Sou um peso morto que desfila na passarela da cobiça. E prevejo, antecipo curiosidades mórbidas que encherão milhares e milhares de páginas de jornais cor-de-rosa. Também dos de outras cores. Menos o preto. Serei enterrado com pompa, em circunstâncias inauditas e tradicionais. Rezem-se as missas, as ladainhas habituais, chorem-se as lágrimas cor de rímel, troquem-se os abraços e os votos de nunca mais. Quando os coveiros estiverem ao lado do monte de terra e alumiarem o buraco, abra-se o caixão pela última vez, na despedida alegre do condenado. Quando todos os olhos o encontrarem vazio, sintam na pele a vingança do poeta. Eu já não estarei aqui. E no buraco, muito menos.

ao som de Pop Dell´ Arte "Querelle"

janeiro 31, 2005

Nunca disse que voltava

Adeus. Rasgar os últimos papéis intactos, pontapear os amarrotados e seguir pela viela que vem a seguir. Adeus. Sem sentir o que acabou por cair. Ficar um momento encostado à moldura da porta e esperar o abraço, os braços das mulheres que se fez por não esquecer, as bebidas, os cantores. Saber de cor uma canção de longe, de limites pulverizados, de um rio que corre no canal, entre barcaças e tufos de relva alta, onde o saber é mais e a dentada tem sabor. E quando o abraço não chega, quando os braços delas não alcançam, é adeus e talvez até à volta. Mesmo se a volta não se quer.

Adeus. Pelos andarilhos e pelas receitas de pão, pelas primeiras filas dos teatros, por uma rua a subir entre os candeeiros altos, entre muros e caras de Verão. Ssob o sol da tarde, sem os travões, com todos os companheiros. Adeus. Pelos terraços e pelas mansões, com os copos cheios de vinho que azedou nas garrafas de antigamente. Por um torrão de sementes, por uma faca sem lâmina, pela mulherzinha que está agachada à espera do freguês. E mesmo sabendo das juras, das promessas de menino, o adeus é quando um dia se faz tarde. E nas horas altas da noite, à janela, a luzinha ensina o que aconchega. E por nunca esquecer o cheiro dos cigarros, a caneta e as folhas de números e paciência, por guardar bem fundo os degraus e a galeria, por ainda saber o nome e a minúcia, a dor magoa mais.

Adeus. Pelas perpendiculares e por todas as tartes de domingo. Pelas fachadas das idades e por todos os ausentes da hora de lembrar... Aquela esquina que me viu crescer, dar os passos e tropeçar nas alturas no esconderijo de sempre, no grito logo pela manhã, ao frio, depois da água gelada. Adeus, por cúmplice e por honraria. Depois das marés e do farol apitar a penumbra. Depois da porta da garagem ser fechada. Depois dela sorrir e dizer adeus.

Adeus. Por mim e por todos os outros.

ao som de The Rolling Stones "Ruby Tuesday"

janeiro 27, 2005


Sisters Posted by Hello

janeiro 23, 2005

Pausa

Sem que possas evitar, junto dois dedos e suavizo-te a pele dos pulsos. Depois, sem olhar para ti, subo os dois dedos pelo teu braço e quando chego a meio, paro. E deixo-te a imaginar...

Omnia Vanitas Posted by Hello

janeiro 21, 2005

Às 11, no mesmo sol

A menina vivia num filamento pintado de cores muito vivas. Sorria a todos os mares que passavam. Deixava-se ficar por ali, pela beira da rua pintada de amarelo claro e alguns brancos, invejada por todos os cinzentos. De cabelo solto, dedos despertos, imaginava as outras ruas e as outras cores. Fazia-lhes perguntas, todas as que já sabia a resposta. Baixinho, pedia aos gatos que a guardavam um pouco do sol das 11 horas. Os gatos olhavam-na, encostavam-se uns nos outros e sabiam o que ele queria. Quando ninguém estava a olhar, esvoaçava um bocadinho. Só um nada. Se alguém surgia na esquina, esticava as pernas e voltava a tocar o passeio. Todas as pessoas, mesmo as que a pressa não deixava ver, sentiam o perfume a flores de manhã que a menina possuía. E durante todo o dia, todas as pessoas, mesmo as que a pressa não deixava ver, sorriam por um instante sem saber porquê.

ao som de Organic Audio "Always the Sun"

janeiro 20, 2005


Gaijin Posted by Hello

De súbito

Pelo mar, na areia clara que recebe o momento da onda, dentro de um luar de encomenda, o exorcismo completa a ansiedade. Foi esta sensação que me marcou a espera. A espera de metade da noite mal dormida. Descobri a almofada suada mas não consegui lembrar o sonho. E por isso, quis ficar longe do quarto. Vagueei nos corredores, entre a obsessão do roupeiro e a dádiva de um pequeno-almoço madrugador. Sentia-me sem forças, com os destinos à deriva pelo nevoeiro lá fora. Quando dei pelo copo da noite passada, bebi o que restava. O sabor já não era o mesmo. Em cima da mesa, o isqueiro, o relógio e a caneta. No chão, o telefone e o casaco. Por detrás das cortinas a luz de um dia. E na penumbra, sentei-me no sofá do costume e olhei uma vez mais o piano. Foi talvez este último pormenor, que me recordou a minha condição de fantasma.

ao som de Jay Jay Johanson "Automatic Lover"

janeiro 19, 2005

Pausa

Devagarinho, num sussurro, em almofadas vermelhas, sob lilases, sentir a inocência ao murmurar bocadinhos de alguém. São quase gémeos, os dias bons e os dias maus.

Veias e taças de molho chinês

Na culpa e na carótida, no amor, na presunção, na altitude, no vazio e na tontura, no abraço, na mão, na vigilia, no canto mais escondido do manicómio. Lá longe, na exactidão de algum voluntário perdidamente apaixonado, na inveja, na sorte, na rouquidão, no desespero, no esperanto, na candura, no pretérito, em agridoces milímetros. Ao chegar ao cais, por detrás das gruas e das caixas de pó de arroz, no side car pintado de verde escuro, na surdina, ao de leve, ao cair. Ao acaso, à distância, ao virar da esquina na rua de sol cadente, ao longe, ao menos, escorregando ao longo da parede branca. Na cor, na denúncia, no café, no primeiro degrau, na prudência, no gato, na sombra, no adeus, no então. E com os olhos em ângulo agudo, sob a arcada, em viés, subindo os degraus da escada em frente, espreita-se o primeiro andar. É onde mora o suspiro.

ao som de Pink Floyd "Brain Damage"

janeiro 18, 2005

Granada

Nos mistérios e nas canções, existe sempre uma pausa que sabe a começo. E porque sei este segredo, posso adiar as conclusões. Talvez por isso, ou até talvez por nada, procurei o gorro cor de laranja com flores amarelas e brancas e uso-o sempre que quero. E se me dá prazer, só eu e ele sabemos porquê.
Hoje, penso em matrioskas e rubis de um vermelho impossível. Acho que condizem com a cor do meu coração. O que estou a usar agora. Lembro-me de um salão enorme, com um lustre descomunal que irradia luz para os cantos e cadeiras vazias. Espera-se a multidão. Eu, sentado na cadeira que me convidou, aproveito a bonança e deixo que o salão me mime. Sorrio e sinto-me cúmplice. Como nunca senti. Lembro-me desse salão. E da pausa antes da tempestade, lembro-me de um sol, elíptico.
O gorro ainda está aqui. Comigo.

ao som de Leningrad Cowboys "Knockin´On Heaven´s Door"