abril 22, 2005

De Galileu, nem sinal

Nos pingos de água que caem do tecto e sonoros, desaguam nas lages frias, leio as sinas dos poderosos. Fechado nestas quatro paredes, há séculos demasiados para uma só vida, acordo todos os dias com vontade de assistir a um massacre. Ao que leio nas sinas dos poderosos. E aqui, só, na cadência dos pingos de água que caem no meu reino, desvendo os segredos dos príncipes, dos papas , dos avaros, dos iludidos, dos senhores do ouro e da prata, dos juízes e das rameiras. Escolhem-me todos para a verdade, mas só aceitam mentiras. As deles e as que roubam aos outros. Só, entre o salitre que escorre das paredes, reguardado por uma manta em fiapos e um hábito enegrecido pelo uso, troco de lugar as peças do xadrez num tabuleiro de marfim, pilhagem de outras épocas. Troco de lugar os reis e rainhas, levedando o sexo de cada um, fervilhando os travestidos do poder. Mudo os bispos de lugar, enviando-os a outras religiões. Faço de cavalos, torres, e vergo-lhes a carne em pedra. E os torreões da conquista, transformo-os em leprosos de feira, tragando-lhes as ameias cruas. Aos peões, simples plebeus, deixo-os ir em santa paz. Mas apenas lhes adio o sofrimento e a promessa. No tabuleiro de avesso, escrevo as vontades, as últimas, as que a eternidade nunca me há-de ofertar. E como louco, percorro o quadrilátero do meu cárcere, urrando berros bestiais, afinal a condição de quem determina as leis, de quem serve os poderosos e de seguida os mata.

Passados mais quatrocentos anos, uma bagatela, eu sei, continuo aqui fechado. Sózinho, amontoado. Ainda leio alguma sina. Ainda espirra salpicos, a água que cai do tecto. Nestes séculos a somar, apenas algo mudou. Algo apenas, quase nada, como um brisa serena em dias de tempestade. Mudou a cor do horizonte. O mundo, desapareceu.

Ao som de Das Zeichen "Hundert Jahre Einsamkeit"

abril 19, 2005

Depois do minuto anterior e antes do próximo

De tempos em tempos, descia a rua até ao jardim, sentava-me num banco de onde pudesse ver o coreto e algum mar e ficava ali, sem decisões nem ponteiros de relógio. Via as senhoras de regresso do mercado, alguns gritos de crianças soltos pelas férias, adivinhava um poeta no olhar vago de alguém que passava, a pressa de um seminarista, o suspiro da vendedora de gelados que ainda não tinha feito um tostão naquela manhã. À volta, um frio miudinho, o lago dos peixes vermelhos, o jardineiro que varre as folhas secas, os restos de orvalho que a escuridão gosta de oferecer. E a vida no andar desajeitado dos patos e na menina que colhe flores, de cócoras, sujando a borda do vestido claro.
De tempos em tempos, descer a rua até ao jardim, era a única forma de me convencer a manter-me vivo. Acordava todas as manhãs bem cedo, perseguindo uma sensação de menino, quando quase de madrugada, tremendo de frio, esperava a janela do meu amigo abrir-se e indicar a brincadeira. Era um arrepio de água gelada na cara, os ténis calçados à pressa e escada abaixo, até à porta que teimava em ranger e que eu abria com cuidados de equilibrista. Era a imagem do alfaiate, das plantas nos vasos, dos restos de jogos no cimento molhado, das traineiras que avisavam a chagada, de horas e minutos simples em amanhãs sossegados. E sobretudo ver as coisas como elas são, sem intenções, sem motivos para mudar só por mudar. Ver o adro da igreja como adro da igreja, o hospital velho como um velho prédio sem significado, o café da rampa como o balcão onde se pediam as pastilhas, a rua como o refúgio das alquimias. E quando o sol desaparecia por detrás das nuvens, levantava-me do banco de jardim, olhava em volta à procura de algo que me esquecera e regressava a casa. De tempos em tempos, sorria. Lembrava-me da doca e do quiosque e sorria. Lembrava-me de existir há muito, antes da vida automática, antes das 7 da manhã e dos bons dias de obrigação. Antes dos cafés e dos pacotes de açucar amachucados no pires.
De tempos em tempos, fico mudo e sonolento. Esqueço o caminho até ao jardim e não consigo recordar a cor dos bancos junto ao coreto. Acendo um cigarro e fico a olhar qualquer coisa, enquanto o fumo me faz companhia. E depois de alguns minutos, volto a existir. Por estar aqui...

ao som de Beth Orton "So Much More"

abril 16, 2005

Uma intimidade

Devagar, no meio do caos e da ternura, com um copo de vinho ao alcance da minha mão, reservo-me a um fim de frase. Com a força que uma casa vazia me oferece, desaguo no egoísmo e quero-me só para mim. Viajo sentado, a três mil quilómetros por momento, ultrapassando as recordações e as tentativas de esconderijo. Empurro as portas entreabertas, vagueio de quarto em quarto, desço as escadas mais que uma vez, olho e procuro só para me lembrar de tudo. E tudo ficou ali, escondido na terra revolvida, nos espinhos das rosas que a minha avó plantava, na água que secou no tanque, nos vasos vazios à espera de ontem. E como ontem, o silêncio vem de fora. Aqui há barulho, pratos arrumados no seu lugar de sempre, passos que não se dão por ser tarde. Demasiado tarde. Lá fora, o céu azul resiste à tentação. Vejo-o daqui, sempre com pressa que a noite chegue. E porque a pressa governa o tempo, lá fora já tudo é diferente, as árvores, os peixes, as pessoas e as vendedoras de pevides. Lá fora, o que existe já acabou. E aqui, o que já acabou continua a existir.

ao som de Eurythmics "I save the world today"

abril 14, 2005


ThePriest Posted by Hello

abril 08, 2005

Pausa forçada

A justificação pareceu-me breve. Breve e desajustada. Afinal, tinha assassinado uma mulher. Linda de morrer...

abril 05, 2005

Pausa

O inferno só é confortável, quando sussurrado por uma mulher de voz celestial.

Retrosarias de iluminuras

Predicados que voam baixinho, ostras e velhas obtusas sacudindo o pó dos corpos, o mel escorre em todos os telhados e a neve, essa, vale mil moedas de ouro. Na vertical, só existem escalenos e cavalos de tróia, cegos por maldizer o mundo livre. Dizem que sonham com elefantes invejosos; e na verdade, são o sonho de um marajá. O de Kampur, decerto ouviram falar. Dá ordens só nos dias de meio sol. Veste brocados cor de escola flamenga, no turbante insiste em mostrar uma ametista e bebe todos os dias, ao bater das 7, um chá de honra e limite. É feio, tem os dentes amarelos e no fim de cada lauta refeição, não arrota.
Na horizontal, passam sem cessar caravanas de camelos e homens de barba cerrada. Guardam nos odres água de frutas escondidas e à cintura, carregam o orgulho na forma de misericórdia antiga. Olham o horizonte com a sábia reflexão dos ausentes. Conhecem o sol, a areia e do tempo, tecem considerações perversas. Falam pouco. Nunca riem. Sabem quase todos os segredos do mundo... Quase. Desviam a sua rota de qualquer oásis e quando chegam a uma cidade, é alecrim, salva e hortelã. Ao entrar o portão pesado da urbe, cruzam-se com os mendigos de olhos rosa. Levam no bornal rasgado as vitualhas de trigo e pó. Bebem água das fontes e ao passar por algum casamento, pedem cabaçinhas de vinho novo. Rezam dezoito vezes por dia. Já esqueceram a que deus. Na torre mais alta do bairro mais perto, junto aos minaretes, vive uma menina de cabelos longos e tez prateada. É filha legítima da lua. Nunca conheceu o pai. Tem duas aias: Uma que lhe penteia os cabelos, manejando com a perícia dos hunos, uma escova de marfim e pelo de crina. A outra, de olhos semicerrados e cabelo cor de açafrão, canta versos da Etiópia, entoando as melodias que aprendeu com os tocadores de alaúde. Às cinco da tarde, sem a aflição dos relógios, as duas, a quatro mãos, servem a taça de azeite e múrmurios. A menina olha os corvos que esvoaçam ao longo da muralha e de um trago, bebe a beberagem antiga.
Quando a noite tenta os corações mais apressados, chegam à praça principal os malabaristas e as aves de rapina. Seguem-nas as dançarinas de ventre inchado, palco de fome e blasfémia. Aos gritos, irrompem por entre a populaça os faunos e as serpentes com voz de homem. Vêm de longe, cobrem-se de peles por curtir, espalham a boa nova dos Onze e de manhã cedo, ao raiar da cotovia, fazem-se ao caminho de outras gentes e negócios. Na praça, pelas horas da noite curta, a algazarra é humana. Acendem-se as fogueiras e os archotes, tombam as malhas de ferro forjado e trocam-se saúdes com vinhos sebentos. Vive-se com o vagar das lentidões. Vive-se e espera-se pelo messias... Um qualquer.
Depois de traçada a vertical e a horizontal, no ponto exacto onde se cruzam, nasce um rio de águas tépidas. Vai desaguar na rua das janelas pouco fechadas, onde passeiam as convenções. E porque hoje é dia de fazer de conta, os que restam, os que valem a pena, esticam os dedos, mostram a palma das mãos e recitam em toada, os versículos da idade de todos os dias. Mesmo se hoje é dia de meio sol.

ao som de Gentle Giant "The Runaway"

março 24, 2005

Em frente, na segunda à direita

Do limiar da negação, existe sempre uma rua sem fundo, onde se pode chorar, enterrar subversões, inventar divindades e no fim, seguir o caminho até à esquina seguinte, com a certeza de nunca encontrar becos sem saída. É fatal percorrer uma destas ruas, sem a demora própria de um casamento ou funeral. Deviam ter normas, estas ruas. Avisos ao incauto peão, sugestões de meditação, enfim algo que lhe acordasse a atenção e o incitasse à revolta. O mundo distrai-se com facilidade. Evita parar e perde oportunidades de diamante. Embrenhado numa cadência que não é sua, que lhe foi vendida por alguém sem rosto, segue os passos que fogem à sua frente e acredita em direcções que raramente o levam ao seu destino. Por vezes, esquece o caminho de casa. Por vezes, sabe-o demasiadamente bem. Nestas ruas sem fundo, os outros não importam. Só cada um.

ao som de The The "Kingdom of Rain"

março 22, 2005

Quando ela foge

Sentada à mesa de um café de bairro, esperava o chá arrefecer. Pegou numa revista de ocasião, mas largou-a, certa de não ter pachorra para os sonhos dos outros. Ao balcão, a dona do café quase dormitava. A tarde corria devagar, com pingos de sol furtivos e um calor fora de época. Sorveu o chá, ainda quente demais, sentindo algum veludo na garganta. Abanava a perna ao som de piano, que o rádio desbotado oferecia. Ouviu o eléctrico aproximar-se. Estendeu o olhar e invejou-lhe a rotina. No prédio em frente, algumas janelas abertas, as idosas espreitando junto às cortinas, alguma roupa interior a secar, alguém que escrevia com a outra mão enrolando o cabelo. Nos outros prédios, outros bocados de alguma coisa. Na rua, um estudante de passo rápido e braços pesados de livros e folhas. Uma bicicleta apoiada numa porta de garagem ferrugenta. O cheiro a café usado e coisas de ontem, ruminava-lhe a forma de pensar. Bebeu mais algum chá, morno, ultrapassado. De alguma forma, sentiu-se em casa. Gostava de sonhar que pertencia ali. A este pequeno bocado de vida, pasto de idéias de todos os dias, calado, anónimo, perdido. Queria ficar ali, sem ter de buscar direcções. Ficar ali, alimentando-se de chá e cheiros, abandonada à sua preguiça, vendo os eléctricos levar estrangeiros a outra cidade. Olhou a capa da revista pousada na cadeira e sentiu pena. Das outras e de si. A sua, esqueceu depressa. Recostou-se mais, sentindo as costas da cadeira, tirou um cigarro do maço e acendeu-o com um fósforo. Puxou o fumo com força e deixou-o sair, sem forçar. Pensou na morte, na mãe, no professor que a iniciou para o sexo, no seu quarto, nas poesias que plagiava, nas canções da sua vida, nos bocados de existência que ainda se obrigaria a cumprir.
Levantou a cabeça, como se acordasse de repente de um sono passageiro, bebeu o resto do chá já frio, de um só gole, levantou-se e foi pagar. Agradeceu entre dentes e saiu. Ainda viu o eléctrico a aproximar-se, mas preferiu correr para fora dali. Virou na primeira esquina e desapareceu. Na mesa, agora vazia, só uma chávena e uma revista. Rasgada.

ao som de Paolo Conte "Alle Prese con una Verde Milonga"

março 21, 2005

4 da madrugada

O semáforo está vermelho. Na rua deserta, por entre as sombras das árvores e dos prédios às escuras, pretende encontrar alguém cúmplice. Tem a câmara de video ligada e regista todos os seus pensamentos. Depois do semáforo ter a luz verde acesa, mantém-se imóvel. A música que ouve já a ofereceu em tempos. Com prazer. Ainda se lembra dele.
Sem encontrar quem pretendia, carrega no botão de next e avança para a música seguinte. Esta só a ele lhe pertence. Mete a primeira e arranca. Nem reparou na luz do semáforo.

Primeiro, ao som de Cowboy Junkies "Me and the Devil Blues"... a outra, não digo.

Cirurgias

Primeiro, ao longe, entre as folhas que teimam em cair, ouve o sussurro da estrada molhada, na expectativa do momento seguinte. Depois, no inicio, na justificação de um cheiro, no sabor e na retina, encontra as pistas que ordenou na parede. O branco das paredes, enjoa-lhe a mudança e a arrumação. E na dúvida, sente-lhe a frescura e o espaço. Nas milhares de capas dos discos que lhe compõem as paredes, descobre definições e palavras certeiras, como os tiros que gosta de exibir. Como empenhou o relógio, por ter a correia solta, esquece as horas com avidez. Amontoa os livros de linguagens de programação, num labirinto que só ele sabe desvendar. Fuma. Perfuma-se do cheiro de tabaco, num glamour que só ele conhece. Numa pausa estudada, lê as linhas que a vergonha não sabe omitir. Oferece-lhes um olhar brilhante.
Num segundo, deixa de ouvir o mundo fora da sua janela e estende a sua vida. A que lhe resta. Pega num bisturi e pressiona a incisão. Sabe de cor o nome dos orgãos e o seu lugar de origem. Mas quer mais. Limpa o sangue que se entorna de dentro, pega numa pinça e começa a mudar os orgãos de lugar. Decide-se e deita dois deles no caixote do lixo. Olha-os uma última vez e não lhes sente a falta. Volta a encarar a tarefa, volta a limpar mais sangue e recomeça. A primeira troca não o satisfaz. Retira o orgão mais problemático e coloca-o no cinzeiro, entre as cinzas. Com uma nova pinça, arquitecta os orgãos que mantém dentro. Ao fim de alguns minutos, levanta a cabeça e observa. Está quase perfeito. Olha o cinzeiro e enfrenta a transfusão. Limpa o sangue e à falta de linha e agulha, fecha a abertura com agrafes. Limpa as mãos, passa uma toalha pela testa e fecha o computador.
Escolhe um disco, sem acasos, guarda o isqueiro no bolso e com a chave do carro na mão, fecha a porta de casa com estrondo. Precisa de uma bebida.

ao som de Bolshoi "Crack in Smile"

março 15, 2005

Quase sem querer

Azuis e verdes em vermelho vivo,
com destino marcado,
redondo,
multiplicado por mil ou outro número qualquer.

Um lilás de tarde,
onde um cinzento não é cor,
onde se precipitam as adivinhas açucaradas,
crocantes na surpresa
e na chegada.

Pintar um lilás moderno,
enquanto o pássaro pousa no portão de ferro,
à hora do chá,
no pátio das folhas de Outono
em emaranhados infantis de alguma vez.

Onde os besouros vão acabar o dia,
na tranquilidade da senhora.
A senhora das meias negras,
da boquilha de prata,
da gargalhada sumida,
do anel de faz de conta.

A ternura,
a de sempre,
de um tempo de avós e mel,
onde a frescura se faz
e se ensina.
Onde o beijo não tem lugar,
por noctívago,
por indiferente.

Com as mãos em labirinto,
em novelos desordenados
de cores fundamentais,
a espera toma o sabor da areia depois do vento.

E o lugar,
o que ficou para o fim,
é azul
e verde
e vermelho redondo de céu azul.
Porque as cores só valem por um dia.
Amanhã,
já serão outras.

ao som de Craig Armstrong "Della´s Theme"

março 03, 2005

Do principio

Seguramente a pedra será sempre pedra.
Deitada nos caminhos
nos carreiros,
sentada à janela dos moínhos,
escutando os afazeres das gentes,
das aldeias,
perigando as fúrias
das meninas,
nos ausentes.
Seguramente a pedra será sempre muda.
Agachada de fronte para as vielas,
é testemunha cega dos artistas,
no seio pacato dos autistas.
Sorvendo as migalhas do orvalho,
matam a sede de trezentos anos,
antigas que são na calmaria.
Perturbam as passadas na calçada,
certas de grata companhia.
Caladas,
como murchas de perigo,
candeias de noite alta
de martírio.
Seguramente a pedra será sempre dura.
Fugitiva
entre crimes e ousadias,
nula por vocação
enjeitada,
mordaz entre golpes e morfinas
na dura razão de não ser nada.
Persegue-se a si própria
a rocha escura,
servil
de idioma derrotado,
cortina que se prende ao fechar,
num salão
onde vergonha é acabar.
Seguramente a pedra será sempre só.
Por vontade,
por motivo,
por ser pó.

ao som de Stoa "Tharmas"

Em contemplação

O mundo aqui, mostra-se devagar, silencioso entre o vento que agora é só brisa. Ao longo da curva do monte, em sossego, o mundo parou para ver o fim do dia. Conhece a noite que já sussurra, as trevas de asas de corvo, como os avós diziam. A noite, a de sempre, a que não esquece as cores das almas e das aflições. O mundo aqui, mostra-se inteiro. Um só, pasto de memórias e alfazemas. Um, de todos os invernos.

Quando o dia acaba, os sentidos perdem a justiça. Tornam-se proscritos. Inseguros, tacteiam velhos muros e penedos, em busca de guarida e segredo. Ouvem ao longe reis antigos e gritos incitando à luta. Ferros faiscando ao lume alto. Barbas grisalhas em desalinho. À noite, os lamentos são língua de fogo. São principio e raramente fim. São elixires e sarcófagos. À noite, recitam-se trovas de ontem. Lançam-se sorrisos baixinho. Está-se muito quieto, à beira das horas que passam com lentidão.

De longe, os murmúrios cercam as pedras caídas no chão. Estremecem os medos sob latidos de cães vadios, que procuram alimento pobre. E agachados, os terrores e as ânsias não têm lugar. Até onde a vista alcança, governam as sombras. E aqui, agora, o mundo sente-se devagar. Cheira a erva doce, a rosmaninho, a morte. Escondida sob a caruma, uma lápide de monge. Um que sabia. Fundiu-se com o mundo. Deixou de ser pó, para se tornar fermento. E fez mais depois de morto, do que em mil vidas da sua.

É tarde. E o tempo não manda aqui. Neste ermo, neste canto do universo, as regras não se conhecem. Nem as rezas, nem os nãos. Nem ódios, nem ouros, nem pão. Aqui jaz o velho mundo. Inteiro, de um só pedaço. O único. O verdadeiro.

ao som de Freiburger Spielleyt "Nenbressete, Madre de Deus"

fevereiro 25, 2005

Tudo

O amor é um cesto de maçãs. Carnudas, de apetites preferidos, de mel e flores colhidas pela manhã.
O amor só faz sentido a todas as horas. As primeiras, frias, aconchegantes, as de oriente, quando sol agarra as veias e brinca com elas. As suadas, corridas, sedentas de atenções e as de fome a dois, sorvidas com vagar ou à pressa, porque o amor as apressa. As soalheiras, lentas, salpicadas de pequenos tudos, solenes e lânguidas como um leito ameno. As seguintes, despertas, onde a luz se mistura com a vida, onde o fim não está à vista. As de poente, mornas, únicas, subjugando torreões e lendas. As de crepusculo, trémulas, escorregadias, onde a calçada permite o beijo. As que a noite empresta no seu reinado, principescas, naturais, começo de qualquer miragem. As ocultas, de memória, de badaladas aldeãs, de todos os juramentos, as que se dizem amanhã. E depois, todas as outras. As que faltam e se querem. E de terminar, se negam.
As maçãs, arrumadas no cesto, deixam-se quietas e mudas. Por amor.

ao som de Chet Baker "My Funny Valentine"

fevereiro 22, 2005

Pausa

A estrada, o traço contínuo amarelo de onde nascem as duvidas, as metades e os beijos gémeos. Este é o labirinto onde esvair não é verbo. E este, é o remoinho onde se deseja mergulhar.

Epitáfio

Na certeza de um tempo ausente, na carícia de uma voz de mulher, no pedido e na ária que ficou atrás das cortinas, no dourado e no azar, na intuição feminina de um olhar hesitante. Na tortura. No poço. Nas almas.

Enternecido pela volúpia, deitado sobre almofadas de fios desbotados, procuro o momento da metamorfose. Espreito o casulo e a roda dentada, encho os copos dos violadores e num assomo de inteligência, brado aos céus que me enterrem num sítio ermo e gélido, onde os vermes não existam e as carpideiras não me encontrem. Morro como poeta. Delego o meu legado aos perdidos, aos fracos e aos eremitas. Que as minhas palavras sejam comidas pelo vento. Que do meu rosto não se lembre ninguém. Que da minha carne, se sacie a fome. E morto, fétido em farrapos de conde, eu seja entregue a alguma amante, para que me trespasse a mortalha. Não quero nojo nem vivalma. Não pressinto feridas imensas. Pretendo apenas o enterro que encontrei numa obra-prima.

Estou à beira do precipício. Vejo as ondas a meus pés e as flechas nos meus braços. Fui coroado rei. Vilmente. Os prados estão cobertos de vassalos que ajoelham a minha soberba. Os cleros e as nobrezas agitam lenços vermelhos. A corte traja de negro. Eu, senhor da terra e do céu, obtenho a promessa dos outros deuses. Serei um. O único. Por dentro sinto a ruindade a trincar-me. Tusso sangue e ouro. Sou filho de Maquiavel. Quero carnes, vinhos quentes, mulheres e homens nus em grupos de oitocentos. Chamo videntes e assassinos, clamo por alguns amigos. Ordeno que me tragam cegos, todos os estropiados do reino, padres de bornal bem cheio e virgens mudas de medo. Se vou morrer, que morra de apoplexia. De fartos concílios e deboche, de orgias descomunais. E que mil olhos me observem toda a noite. Todas as noites daqui até ao apocalipse. E então, entre almas miseráveis e adúlteros manietados, que me seja entregue a coroa da desgraça. Desnudado, com um punhal na mão, que me cubram de mentiras. Ergam a torre mais alta e empurrem-me no abismo.

Rezem-se todas as missas. Celebrem-se três velórios. O rei está morto. Enterrado. Que não descanse em paz.

Kling Klang Absurda Posted by Hello

Ao menos uma vez

No semáforo de todos os dias pares,
reconheço as intenções
dos pioneiros.
Resignam-se a cada passo,
passam ao lado do vento
e das penumbras,
bebem nenúfares
e cantam odes
sem melodia.
De embaraço esquecido no canto da boca,
vejo-os olhar os vectores,
sinto-os trémulos
em feixes de horas tardias.
Tomam a direcção da toca
e encolhem-se
à passagem dos potros amestrados.
São demasiados,
mutantes de fim de dia,
entornados nas sarjetas cristalinas.
São livres.
Mas só nas horas mortas.
Antes de voltarem ao início,
trincam o que resta da vaidade
e brincam,
sob réstias de chocolate amargo.
Todos os dias pares
me afligia a falha da minha pedra da sorte.
Mudei-a de posição
várias vezes,
para esconder o defeito.
Nunca o consegui.
Mas descobri outros raios de sol.
Ofereço-os aos pioneiros.

ao som de Kate Bush "Wow"

fevereiro 21, 2005

Ícaro num dia de chuva

Precipitas querelas de amantes e intriguistas, numa sopa de lentilhas louras, aquecida num bico de Bunsen regular. Realizas os sonhos dos ateus entre as câmaras 1 e 3, desligando a 2 por conveniências múltiplas. Suas, aquecido por decisões ímpias, alagado na saliva dos notáveis. Dormes no oposto e na vantagem, sentes o perigo das rachas na parede, multiplicas os cifrões sem tempo para os gastar. Ginasticas o empenho e a carne, dobras os cabos das tormentas alheias, significas muito pouco para o conselho de administração. Tens família, mas só no notário. Divides os amigos pelas garrafas de álcool, nos sentimentos de elos escancarados, nas paixões de minuto, na velhice. Gargalhas, lacrimejas, terminas os nós por atar. Encaras o sucesso como mortalha e inventas todas as letras do teu alfabeto. Morres na insistência, analfabeto por vocação, vazio, entretido no porém e no vocábulo. És esquecido. E cambaleias a existência.

ao som de The Cure "A Forest (Original 12 inch)"