maio 03, 2005


Makura Posted by Hello

Por instantes

Antes do filme acabar, amachuco as cartas de amor e num repente, saio em direcção à chuva. Páro no meio da rua e sem destino preferido, fico a ouvir o ruído molhado que toca no chão. Não me consigo mexer. Sou encharcado sem timidez ou sedução. Apenas quero sentir a chuva na cara e nas mãos, deixar as gotas de água escorrerem sobre mim, soltas, possíveis. O balanço das árvores, as luzes dos apartamentos, os passos longínquos que fogem da tormenta, um alarme esquecido, um néon, um bocado de cidade. E debaixo das gotas cheias, com o caos ali tão perto, rodeio-me da serenidade mais pérola deste mundo. Vejo num segundo as imagens que me modelaram. O topo do edifício, a morte que se aproxima, a mão ensanguentada, uns olhos azuis, gulosos de vida, um medo que se esfuma, a violência que no instante seguinte já não existe. E a chuva, terna, lunática, absolvição de uma última noite. Como agora, nesta rua, sem horas, só, a chuva como senhora de um desejo que não sei explicar. Como estas palavras que não deveria mostrar.

Ao som de The Paradise Hotel "Drive"

abril 30, 2005

Laço sem corda

Queres-me? Não sei se deva desdobrar-me e mostrar o contorno dos segredos cor de deserto. Vou pensar nisso. Os minutos que demorar a minha escrita. Mais que isso, não. Seria doentio. Ou indiferente.
Sabes, li com vagar algumas linhas que a brisa de fim de tarde teimava em estremecer. Por entre os cortinados, os contornos da cidade são sempre esguios e atraentes. É por isso que baixo os estores quando tenho a janelas abertas. Sinto o sopro do mundo lá fora, mas mantenho o meu egoísmo intacto. Intocável. Imaculado. É isto, arrastar a existência entre tabacos horizontais e alguma filosofia de pacote, ziguezagueando nos passeios e nas esplanadas de café de bairro, esgotando as matrizes rodoviárias em manobras acidentais e repetindo as mesmas ruas, outra e outra vez.
Às vezes, atravesso a ponte, só uma delas, vagueio na outra margem à procura de cenários para um filme, imitando estrelas de rock, cansadas pelo vai-vém do seu sucesso, mudos pelo halo brilhante da ignorância que escolheram. Sofro de vertigens. Encho-me de iogurtes com sabores estranhos, encarando o objectivo de me sentir outra pessoa. Bebo chávenas de café com açucar. Peço sempre a mesma marca de álcool. Repito com fervor religioso, o local de suicídio. Alcanço nas canções que levarei para uma ilha deserta, a perfeição e a fé. Em suma, escrevo por um sentido de estado, uma responsabilidade caótica de desmaiar durante a entrega do prémio nobel, um desvio na maré inconcebível do marasmo. E isso não será amor?
Ainda penso. Nisso? Não sei.

Ao som de Rheingold "Dreiklang Dimensionen"

Mais subtilezas

Sibilando por uma rua íngrime, ladeado por vidros partidos de montras saqueadas, permito-me a derradeira lata de veneno. De olhar firme e sorriso permissivo, sinto um pisar duro sobre o pavimento encharcado. Em desafio, procuro no céu azul claro um sinal de exactidão. Satisfeito pela fugaz vitória, marco a subida com passadas directas, entoando um refrão que não ouvia desde os meus dezasseis. Há duas horas que decretei estado de sítio. Matei com tiros certeiros os oficiais de patente superior e aos sargentos, fechei-os nas masmorras a céu aberto. A comissão que enviei ao palácio presidencial, já deve ter terminado. No fogo posto à assembleia, ainda se vêem as colunas de fumo. Dos civis, mais de três mil permanecem mortos. Os feridos, teimo em não contabilizar. E por desdenhar artilharias pesadas, dispensei os meus guardas rebatizando a sua função. Estão caídos, numa atitude de extermínio.
Ao chegar à esquina, com a rua dos quiosques amarelos, viro à direita e antevejo ao fundo o largo do quartel. Ao pisar o lajedo da praceta, procuro com alguma avidez a porta entreaberta do café. Atravesso o largo, sem pisar os corpos imóveis no chão e preparo o palato num hedonismo violento. Num gesto infantil cravejado de saudade, pontapeio a porta e entro no café. Todos os clientes jazem retorcidos. Sobre o balcão, um empregado desafia a gravidade. Empurro o cadáver para o lado e encarando o criado ainda de pé, ordeno delicadamente.
- Um café, com um pau de canela.

Há prazeres que valem o esforço.

ao som de Oberkampf "Couleurs sur Paris"

abril 22, 2005

Subtilezas

Ela corre rua abaixo, perseguida por três. Vestem roupas justas e escuras. Têm no pulso direito uma marca. Não consigo ver a cor. Ela grita, enquanto na corrida vai esbarrando nos espelhos dos carros. Tem a camisa rasgada. Os olhos também. Chora traços negros e sente perto o fim. Eles, os três, não forçam a passada. Ganham-lhe tempo e provocam-lhe o pavor. Sabem o que podem conseguir e não o querem nem um segundo mais cedo. Sabem do que falam. E calam-se aos gritos da vitima. Sugam cada momento e cada lágrima. Sabem prolongar o prazer.
Um individuo vestido com um fato vulgar, tenta o gesto, contagiado pelo terror dela. Ao passar o segundo dos três, tenta barrar-lhe a passagem. O segundo dos três, sem o olhar, abate-o com dois tiros na cara. Continuou rua abaixo. As pessoas que sobem, fundem-se com as paredes e as montras. Arfam na tensão que lhes elimina o grito. Deixam-se ultrapassar pelo cenário. O primeiro dos três, sem parar, emite a recomendação em tom de ordem. Os outros respondem. Em estrangeiro. Um qualquer. Ela tropeça e cai, esgotada por um remoinho de horror e cansaço abissal. Sem conseguir levantar-se, arranha a garganta com a dor que antecipa. Rasgou a saia e só conserva um sapato. De salto partido.
Quando eles chegam ao pé dela, está alagada em suor. E medo. Tapa a cara com as mãos e sente a pausa. Os três, rodeiam-na. Têm botas pretas, com atacadores azul forte. Um deles raspa com a biqueira no chão. Nas mãos, seguram com saber navalhas de lâmina cónica. A do primeiro tem recortes de traço medieval. Peça única, certamente. Não sorriem, não falam, apenas a olham deitada no chão, admitindo a desigualdade assumida. Sem qualquer ordem ou sinal, exactamente ao mesmo tempo, rasgam-na de cima abaixo, pressionando o metal na carne morna. Não pestanejam aos salpicos de sangue e esboçam formas quase geométricas no corpo pálido. Sem aviso, imobilizam-se ao mesmo tempo e depois de um derradeiro olhar, levantam-se e limpam as lâminas às calças, junto ao joelho. Guardam-nas no bolso de dentro do blusão. Com um olhar mais calmo e repousado, aproximam-se da berma do passeio e chamam um táxi que tinha parado no inicio da rua. O segundo, ainda olhou com firmeza para o líder. Este encolheu os ombros. Nunca se importava com a cor dos táxis.

Ao som de Probot "Shake Your Blood"

Malgré tout

A mulher continuava ali, debaixo do pórtico, fustigada pelo vento da madrugada, um vento frio e teimoso que nos entranha a culpa. De mãos enluvadas, parecia-me uma figura de outros tempos, de filme ou de crime. O baton carregado e uns lábios tensos insistiam a imagem. A poucos metros, as águas em remoinho investiam contra o cais, saudosas de um antes longínquo. De pescadores ou embarcadiços, nem névoa. Nem sequer um bêbado tardio.

Quando saí do café, ainda se viam ao longe, as luzes acesas nos quartos mornos e aquecidos dos mortais. Olhei através da porta, de relance, as cadeiras que se amontoavam pelos braços experimentados do dono. Preferia ter acabado a noite com outro álcool. Aquele irritava-me o gosto. Meti as mãos nos bolsos do sobretudo e em ângulo agudo, enfrentei a ventania, em direcção da ponta norte do cais. Já deviam ser as três. Nunca conseguia chegar a horas que se visse. Nem uma vez. Encolhi os ombros e enrijeci os músculos, como numa birra. Ela espera. Esperava sempre...

À hora de romper o sol, mesmo sem ele, já os estivadores faziam fila no cais. De mãos nos bolsos, batendo os pés para aquecer o que resta da alma, de cigarro mal aceso na boca, esperam o capataz, e algumas moedas no fundo dos bolsos remendados. A tempestade amainou, a água ainda mostra rancor e o dia custará a passar. Os estivadores de olhos no vazio, esperam. Esperam a fadiga e a teimosia da vida. A mesma teimosia de uma luva de mulher, que as ondas da manhã empurram contra o cais.

Ao som de Sopor Aeternus "The house is empty now"

De Galileu, nem sinal

Nos pingos de água que caem do tecto e sonoros, desaguam nas lages frias, leio as sinas dos poderosos. Fechado nestas quatro paredes, há séculos demasiados para uma só vida, acordo todos os dias com vontade de assistir a um massacre. Ao que leio nas sinas dos poderosos. E aqui, só, na cadência dos pingos de água que caem no meu reino, desvendo os segredos dos príncipes, dos papas , dos avaros, dos iludidos, dos senhores do ouro e da prata, dos juízes e das rameiras. Escolhem-me todos para a verdade, mas só aceitam mentiras. As deles e as que roubam aos outros. Só, entre o salitre que escorre das paredes, reguardado por uma manta em fiapos e um hábito enegrecido pelo uso, troco de lugar as peças do xadrez num tabuleiro de marfim, pilhagem de outras épocas. Troco de lugar os reis e rainhas, levedando o sexo de cada um, fervilhando os travestidos do poder. Mudo os bispos de lugar, enviando-os a outras religiões. Faço de cavalos, torres, e vergo-lhes a carne em pedra. E os torreões da conquista, transformo-os em leprosos de feira, tragando-lhes as ameias cruas. Aos peões, simples plebeus, deixo-os ir em santa paz. Mas apenas lhes adio o sofrimento e a promessa. No tabuleiro de avesso, escrevo as vontades, as últimas, as que a eternidade nunca me há-de ofertar. E como louco, percorro o quadrilátero do meu cárcere, urrando berros bestiais, afinal a condição de quem determina as leis, de quem serve os poderosos e de seguida os mata.

Passados mais quatrocentos anos, uma bagatela, eu sei, continuo aqui fechado. Sózinho, amontoado. Ainda leio alguma sina. Ainda espirra salpicos, a água que cai do tecto. Nestes séculos a somar, apenas algo mudou. Algo apenas, quase nada, como um brisa serena em dias de tempestade. Mudou a cor do horizonte. O mundo, desapareceu.

Ao som de Das Zeichen "Hundert Jahre Einsamkeit"

abril 19, 2005

Depois do minuto anterior e antes do próximo

De tempos em tempos, descia a rua até ao jardim, sentava-me num banco de onde pudesse ver o coreto e algum mar e ficava ali, sem decisões nem ponteiros de relógio. Via as senhoras de regresso do mercado, alguns gritos de crianças soltos pelas férias, adivinhava um poeta no olhar vago de alguém que passava, a pressa de um seminarista, o suspiro da vendedora de gelados que ainda não tinha feito um tostão naquela manhã. À volta, um frio miudinho, o lago dos peixes vermelhos, o jardineiro que varre as folhas secas, os restos de orvalho que a escuridão gosta de oferecer. E a vida no andar desajeitado dos patos e na menina que colhe flores, de cócoras, sujando a borda do vestido claro.
De tempos em tempos, descer a rua até ao jardim, era a única forma de me convencer a manter-me vivo. Acordava todas as manhãs bem cedo, perseguindo uma sensação de menino, quando quase de madrugada, tremendo de frio, esperava a janela do meu amigo abrir-se e indicar a brincadeira. Era um arrepio de água gelada na cara, os ténis calçados à pressa e escada abaixo, até à porta que teimava em ranger e que eu abria com cuidados de equilibrista. Era a imagem do alfaiate, das plantas nos vasos, dos restos de jogos no cimento molhado, das traineiras que avisavam a chagada, de horas e minutos simples em amanhãs sossegados. E sobretudo ver as coisas como elas são, sem intenções, sem motivos para mudar só por mudar. Ver o adro da igreja como adro da igreja, o hospital velho como um velho prédio sem significado, o café da rampa como o balcão onde se pediam as pastilhas, a rua como o refúgio das alquimias. E quando o sol desaparecia por detrás das nuvens, levantava-me do banco de jardim, olhava em volta à procura de algo que me esquecera e regressava a casa. De tempos em tempos, sorria. Lembrava-me da doca e do quiosque e sorria. Lembrava-me de existir há muito, antes da vida automática, antes das 7 da manhã e dos bons dias de obrigação. Antes dos cafés e dos pacotes de açucar amachucados no pires.
De tempos em tempos, fico mudo e sonolento. Esqueço o caminho até ao jardim e não consigo recordar a cor dos bancos junto ao coreto. Acendo um cigarro e fico a olhar qualquer coisa, enquanto o fumo me faz companhia. E depois de alguns minutos, volto a existir. Por estar aqui...

ao som de Beth Orton "So Much More"

abril 16, 2005

Uma intimidade

Devagar, no meio do caos e da ternura, com um copo de vinho ao alcance da minha mão, reservo-me a um fim de frase. Com a força que uma casa vazia me oferece, desaguo no egoísmo e quero-me só para mim. Viajo sentado, a três mil quilómetros por momento, ultrapassando as recordações e as tentativas de esconderijo. Empurro as portas entreabertas, vagueio de quarto em quarto, desço as escadas mais que uma vez, olho e procuro só para me lembrar de tudo. E tudo ficou ali, escondido na terra revolvida, nos espinhos das rosas que a minha avó plantava, na água que secou no tanque, nos vasos vazios à espera de ontem. E como ontem, o silêncio vem de fora. Aqui há barulho, pratos arrumados no seu lugar de sempre, passos que não se dão por ser tarde. Demasiado tarde. Lá fora, o céu azul resiste à tentação. Vejo-o daqui, sempre com pressa que a noite chegue. E porque a pressa governa o tempo, lá fora já tudo é diferente, as árvores, os peixes, as pessoas e as vendedoras de pevides. Lá fora, o que existe já acabou. E aqui, o que já acabou continua a existir.

ao som de Eurythmics "I save the world today"

abril 14, 2005


ThePriest Posted by Hello

abril 08, 2005

Pausa forçada

A justificação pareceu-me breve. Breve e desajustada. Afinal, tinha assassinado uma mulher. Linda de morrer...

abril 05, 2005

Pausa

O inferno só é confortável, quando sussurrado por uma mulher de voz celestial.

Retrosarias de iluminuras

Predicados que voam baixinho, ostras e velhas obtusas sacudindo o pó dos corpos, o mel escorre em todos os telhados e a neve, essa, vale mil moedas de ouro. Na vertical, só existem escalenos e cavalos de tróia, cegos por maldizer o mundo livre. Dizem que sonham com elefantes invejosos; e na verdade, são o sonho de um marajá. O de Kampur, decerto ouviram falar. Dá ordens só nos dias de meio sol. Veste brocados cor de escola flamenga, no turbante insiste em mostrar uma ametista e bebe todos os dias, ao bater das 7, um chá de honra e limite. É feio, tem os dentes amarelos e no fim de cada lauta refeição, não arrota.
Na horizontal, passam sem cessar caravanas de camelos e homens de barba cerrada. Guardam nos odres água de frutas escondidas e à cintura, carregam o orgulho na forma de misericórdia antiga. Olham o horizonte com a sábia reflexão dos ausentes. Conhecem o sol, a areia e do tempo, tecem considerações perversas. Falam pouco. Nunca riem. Sabem quase todos os segredos do mundo... Quase. Desviam a sua rota de qualquer oásis e quando chegam a uma cidade, é alecrim, salva e hortelã. Ao entrar o portão pesado da urbe, cruzam-se com os mendigos de olhos rosa. Levam no bornal rasgado as vitualhas de trigo e pó. Bebem água das fontes e ao passar por algum casamento, pedem cabaçinhas de vinho novo. Rezam dezoito vezes por dia. Já esqueceram a que deus. Na torre mais alta do bairro mais perto, junto aos minaretes, vive uma menina de cabelos longos e tez prateada. É filha legítima da lua. Nunca conheceu o pai. Tem duas aias: Uma que lhe penteia os cabelos, manejando com a perícia dos hunos, uma escova de marfim e pelo de crina. A outra, de olhos semicerrados e cabelo cor de açafrão, canta versos da Etiópia, entoando as melodias que aprendeu com os tocadores de alaúde. Às cinco da tarde, sem a aflição dos relógios, as duas, a quatro mãos, servem a taça de azeite e múrmurios. A menina olha os corvos que esvoaçam ao longo da muralha e de um trago, bebe a beberagem antiga.
Quando a noite tenta os corações mais apressados, chegam à praça principal os malabaristas e as aves de rapina. Seguem-nas as dançarinas de ventre inchado, palco de fome e blasfémia. Aos gritos, irrompem por entre a populaça os faunos e as serpentes com voz de homem. Vêm de longe, cobrem-se de peles por curtir, espalham a boa nova dos Onze e de manhã cedo, ao raiar da cotovia, fazem-se ao caminho de outras gentes e negócios. Na praça, pelas horas da noite curta, a algazarra é humana. Acendem-se as fogueiras e os archotes, tombam as malhas de ferro forjado e trocam-se saúdes com vinhos sebentos. Vive-se com o vagar das lentidões. Vive-se e espera-se pelo messias... Um qualquer.
Depois de traçada a vertical e a horizontal, no ponto exacto onde se cruzam, nasce um rio de águas tépidas. Vai desaguar na rua das janelas pouco fechadas, onde passeiam as convenções. E porque hoje é dia de fazer de conta, os que restam, os que valem a pena, esticam os dedos, mostram a palma das mãos e recitam em toada, os versículos da idade de todos os dias. Mesmo se hoje é dia de meio sol.

ao som de Gentle Giant "The Runaway"

março 24, 2005

Em frente, na segunda à direita

Do limiar da negação, existe sempre uma rua sem fundo, onde se pode chorar, enterrar subversões, inventar divindades e no fim, seguir o caminho até à esquina seguinte, com a certeza de nunca encontrar becos sem saída. É fatal percorrer uma destas ruas, sem a demora própria de um casamento ou funeral. Deviam ter normas, estas ruas. Avisos ao incauto peão, sugestões de meditação, enfim algo que lhe acordasse a atenção e o incitasse à revolta. O mundo distrai-se com facilidade. Evita parar e perde oportunidades de diamante. Embrenhado numa cadência que não é sua, que lhe foi vendida por alguém sem rosto, segue os passos que fogem à sua frente e acredita em direcções que raramente o levam ao seu destino. Por vezes, esquece o caminho de casa. Por vezes, sabe-o demasiadamente bem. Nestas ruas sem fundo, os outros não importam. Só cada um.

ao som de The The "Kingdom of Rain"

março 22, 2005

Quando ela foge

Sentada à mesa de um café de bairro, esperava o chá arrefecer. Pegou numa revista de ocasião, mas largou-a, certa de não ter pachorra para os sonhos dos outros. Ao balcão, a dona do café quase dormitava. A tarde corria devagar, com pingos de sol furtivos e um calor fora de época. Sorveu o chá, ainda quente demais, sentindo algum veludo na garganta. Abanava a perna ao som de piano, que o rádio desbotado oferecia. Ouviu o eléctrico aproximar-se. Estendeu o olhar e invejou-lhe a rotina. No prédio em frente, algumas janelas abertas, as idosas espreitando junto às cortinas, alguma roupa interior a secar, alguém que escrevia com a outra mão enrolando o cabelo. Nos outros prédios, outros bocados de alguma coisa. Na rua, um estudante de passo rápido e braços pesados de livros e folhas. Uma bicicleta apoiada numa porta de garagem ferrugenta. O cheiro a café usado e coisas de ontem, ruminava-lhe a forma de pensar. Bebeu mais algum chá, morno, ultrapassado. De alguma forma, sentiu-se em casa. Gostava de sonhar que pertencia ali. A este pequeno bocado de vida, pasto de idéias de todos os dias, calado, anónimo, perdido. Queria ficar ali, sem ter de buscar direcções. Ficar ali, alimentando-se de chá e cheiros, abandonada à sua preguiça, vendo os eléctricos levar estrangeiros a outra cidade. Olhou a capa da revista pousada na cadeira e sentiu pena. Das outras e de si. A sua, esqueceu depressa. Recostou-se mais, sentindo as costas da cadeira, tirou um cigarro do maço e acendeu-o com um fósforo. Puxou o fumo com força e deixou-o sair, sem forçar. Pensou na morte, na mãe, no professor que a iniciou para o sexo, no seu quarto, nas poesias que plagiava, nas canções da sua vida, nos bocados de existência que ainda se obrigaria a cumprir.
Levantou a cabeça, como se acordasse de repente de um sono passageiro, bebeu o resto do chá já frio, de um só gole, levantou-se e foi pagar. Agradeceu entre dentes e saiu. Ainda viu o eléctrico a aproximar-se, mas preferiu correr para fora dali. Virou na primeira esquina e desapareceu. Na mesa, agora vazia, só uma chávena e uma revista. Rasgada.

ao som de Paolo Conte "Alle Prese con una Verde Milonga"

março 21, 2005

4 da madrugada

O semáforo está vermelho. Na rua deserta, por entre as sombras das árvores e dos prédios às escuras, pretende encontrar alguém cúmplice. Tem a câmara de video ligada e regista todos os seus pensamentos. Depois do semáforo ter a luz verde acesa, mantém-se imóvel. A música que ouve já a ofereceu em tempos. Com prazer. Ainda se lembra dele.
Sem encontrar quem pretendia, carrega no botão de next e avança para a música seguinte. Esta só a ele lhe pertence. Mete a primeira e arranca. Nem reparou na luz do semáforo.

Primeiro, ao som de Cowboy Junkies "Me and the Devil Blues"... a outra, não digo.

Cirurgias

Primeiro, ao longe, entre as folhas que teimam em cair, ouve o sussurro da estrada molhada, na expectativa do momento seguinte. Depois, no inicio, na justificação de um cheiro, no sabor e na retina, encontra as pistas que ordenou na parede. O branco das paredes, enjoa-lhe a mudança e a arrumação. E na dúvida, sente-lhe a frescura e o espaço. Nas milhares de capas dos discos que lhe compõem as paredes, descobre definições e palavras certeiras, como os tiros que gosta de exibir. Como empenhou o relógio, por ter a correia solta, esquece as horas com avidez. Amontoa os livros de linguagens de programação, num labirinto que só ele sabe desvendar. Fuma. Perfuma-se do cheiro de tabaco, num glamour que só ele conhece. Numa pausa estudada, lê as linhas que a vergonha não sabe omitir. Oferece-lhes um olhar brilhante.
Num segundo, deixa de ouvir o mundo fora da sua janela e estende a sua vida. A que lhe resta. Pega num bisturi e pressiona a incisão. Sabe de cor o nome dos orgãos e o seu lugar de origem. Mas quer mais. Limpa o sangue que se entorna de dentro, pega numa pinça e começa a mudar os orgãos de lugar. Decide-se e deita dois deles no caixote do lixo. Olha-os uma última vez e não lhes sente a falta. Volta a encarar a tarefa, volta a limpar mais sangue e recomeça. A primeira troca não o satisfaz. Retira o orgão mais problemático e coloca-o no cinzeiro, entre as cinzas. Com uma nova pinça, arquitecta os orgãos que mantém dentro. Ao fim de alguns minutos, levanta a cabeça e observa. Está quase perfeito. Olha o cinzeiro e enfrenta a transfusão. Limpa o sangue e à falta de linha e agulha, fecha a abertura com agrafes. Limpa as mãos, passa uma toalha pela testa e fecha o computador.
Escolhe um disco, sem acasos, guarda o isqueiro no bolso e com a chave do carro na mão, fecha a porta de casa com estrondo. Precisa de uma bebida.

ao som de Bolshoi "Crack in Smile"

março 15, 2005

Quase sem querer

Azuis e verdes em vermelho vivo,
com destino marcado,
redondo,
multiplicado por mil ou outro número qualquer.

Um lilás de tarde,
onde um cinzento não é cor,
onde se precipitam as adivinhas açucaradas,
crocantes na surpresa
e na chegada.

Pintar um lilás moderno,
enquanto o pássaro pousa no portão de ferro,
à hora do chá,
no pátio das folhas de Outono
em emaranhados infantis de alguma vez.

Onde os besouros vão acabar o dia,
na tranquilidade da senhora.
A senhora das meias negras,
da boquilha de prata,
da gargalhada sumida,
do anel de faz de conta.

A ternura,
a de sempre,
de um tempo de avós e mel,
onde a frescura se faz
e se ensina.
Onde o beijo não tem lugar,
por noctívago,
por indiferente.

Com as mãos em labirinto,
em novelos desordenados
de cores fundamentais,
a espera toma o sabor da areia depois do vento.

E o lugar,
o que ficou para o fim,
é azul
e verde
e vermelho redondo de céu azul.
Porque as cores só valem por um dia.
Amanhã,
já serão outras.

ao som de Craig Armstrong "Della´s Theme"

março 03, 2005

Do principio

Seguramente a pedra será sempre pedra.
Deitada nos caminhos
nos carreiros,
sentada à janela dos moínhos,
escutando os afazeres das gentes,
das aldeias,
perigando as fúrias
das meninas,
nos ausentes.
Seguramente a pedra será sempre muda.
Agachada de fronte para as vielas,
é testemunha cega dos artistas,
no seio pacato dos autistas.
Sorvendo as migalhas do orvalho,
matam a sede de trezentos anos,
antigas que são na calmaria.
Perturbam as passadas na calçada,
certas de grata companhia.
Caladas,
como murchas de perigo,
candeias de noite alta
de martírio.
Seguramente a pedra será sempre dura.
Fugitiva
entre crimes e ousadias,
nula por vocação
enjeitada,
mordaz entre golpes e morfinas
na dura razão de não ser nada.
Persegue-se a si própria
a rocha escura,
servil
de idioma derrotado,
cortina que se prende ao fechar,
num salão
onde vergonha é acabar.
Seguramente a pedra será sempre só.
Por vontade,
por motivo,
por ser pó.

ao som de Stoa "Tharmas"

Em contemplação

O mundo aqui, mostra-se devagar, silencioso entre o vento que agora é só brisa. Ao longo da curva do monte, em sossego, o mundo parou para ver o fim do dia. Conhece a noite que já sussurra, as trevas de asas de corvo, como os avós diziam. A noite, a de sempre, a que não esquece as cores das almas e das aflições. O mundo aqui, mostra-se inteiro. Um só, pasto de memórias e alfazemas. Um, de todos os invernos.

Quando o dia acaba, os sentidos perdem a justiça. Tornam-se proscritos. Inseguros, tacteiam velhos muros e penedos, em busca de guarida e segredo. Ouvem ao longe reis antigos e gritos incitando à luta. Ferros faiscando ao lume alto. Barbas grisalhas em desalinho. À noite, os lamentos são língua de fogo. São principio e raramente fim. São elixires e sarcófagos. À noite, recitam-se trovas de ontem. Lançam-se sorrisos baixinho. Está-se muito quieto, à beira das horas que passam com lentidão.

De longe, os murmúrios cercam as pedras caídas no chão. Estremecem os medos sob latidos de cães vadios, que procuram alimento pobre. E agachados, os terrores e as ânsias não têm lugar. Até onde a vista alcança, governam as sombras. E aqui, agora, o mundo sente-se devagar. Cheira a erva doce, a rosmaninho, a morte. Escondida sob a caruma, uma lápide de monge. Um que sabia. Fundiu-se com o mundo. Deixou de ser pó, para se tornar fermento. E fez mais depois de morto, do que em mil vidas da sua.

É tarde. E o tempo não manda aqui. Neste ermo, neste canto do universo, as regras não se conhecem. Nem as rezas, nem os nãos. Nem ódios, nem ouros, nem pão. Aqui jaz o velho mundo. Inteiro, de um só pedaço. O único. O verdadeiro.

ao som de Freiburger Spielleyt "Nenbressete, Madre de Deus"

fevereiro 25, 2005

Tudo

O amor é um cesto de maçãs. Carnudas, de apetites preferidos, de mel e flores colhidas pela manhã.
O amor só faz sentido a todas as horas. As primeiras, frias, aconchegantes, as de oriente, quando sol agarra as veias e brinca com elas. As suadas, corridas, sedentas de atenções e as de fome a dois, sorvidas com vagar ou à pressa, porque o amor as apressa. As soalheiras, lentas, salpicadas de pequenos tudos, solenes e lânguidas como um leito ameno. As seguintes, despertas, onde a luz se mistura com a vida, onde o fim não está à vista. As de poente, mornas, únicas, subjugando torreões e lendas. As de crepusculo, trémulas, escorregadias, onde a calçada permite o beijo. As que a noite empresta no seu reinado, principescas, naturais, começo de qualquer miragem. As ocultas, de memória, de badaladas aldeãs, de todos os juramentos, as que se dizem amanhã. E depois, todas as outras. As que faltam e se querem. E de terminar, se negam.
As maçãs, arrumadas no cesto, deixam-se quietas e mudas. Por amor.

ao som de Chet Baker "My Funny Valentine"

fevereiro 22, 2005

Pausa

A estrada, o traço contínuo amarelo de onde nascem as duvidas, as metades e os beijos gémeos. Este é o labirinto onde esvair não é verbo. E este, é o remoinho onde se deseja mergulhar.

Epitáfio

Na certeza de um tempo ausente, na carícia de uma voz de mulher, no pedido e na ária que ficou atrás das cortinas, no dourado e no azar, na intuição feminina de um olhar hesitante. Na tortura. No poço. Nas almas.

Enternecido pela volúpia, deitado sobre almofadas de fios desbotados, procuro o momento da metamorfose. Espreito o casulo e a roda dentada, encho os copos dos violadores e num assomo de inteligência, brado aos céus que me enterrem num sítio ermo e gélido, onde os vermes não existam e as carpideiras não me encontrem. Morro como poeta. Delego o meu legado aos perdidos, aos fracos e aos eremitas. Que as minhas palavras sejam comidas pelo vento. Que do meu rosto não se lembre ninguém. Que da minha carne, se sacie a fome. E morto, fétido em farrapos de conde, eu seja entregue a alguma amante, para que me trespasse a mortalha. Não quero nojo nem vivalma. Não pressinto feridas imensas. Pretendo apenas o enterro que encontrei numa obra-prima.

Estou à beira do precipício. Vejo as ondas a meus pés e as flechas nos meus braços. Fui coroado rei. Vilmente. Os prados estão cobertos de vassalos que ajoelham a minha soberba. Os cleros e as nobrezas agitam lenços vermelhos. A corte traja de negro. Eu, senhor da terra e do céu, obtenho a promessa dos outros deuses. Serei um. O único. Por dentro sinto a ruindade a trincar-me. Tusso sangue e ouro. Sou filho de Maquiavel. Quero carnes, vinhos quentes, mulheres e homens nus em grupos de oitocentos. Chamo videntes e assassinos, clamo por alguns amigos. Ordeno que me tragam cegos, todos os estropiados do reino, padres de bornal bem cheio e virgens mudas de medo. Se vou morrer, que morra de apoplexia. De fartos concílios e deboche, de orgias descomunais. E que mil olhos me observem toda a noite. Todas as noites daqui até ao apocalipse. E então, entre almas miseráveis e adúlteros manietados, que me seja entregue a coroa da desgraça. Desnudado, com um punhal na mão, que me cubram de mentiras. Ergam a torre mais alta e empurrem-me no abismo.

Rezem-se todas as missas. Celebrem-se três velórios. O rei está morto. Enterrado. Que não descanse em paz.

Kling Klang Absurda Posted by Hello

Ao menos uma vez

No semáforo de todos os dias pares,
reconheço as intenções
dos pioneiros.
Resignam-se a cada passo,
passam ao lado do vento
e das penumbras,
bebem nenúfares
e cantam odes
sem melodia.
De embaraço esquecido no canto da boca,
vejo-os olhar os vectores,
sinto-os trémulos
em feixes de horas tardias.
Tomam a direcção da toca
e encolhem-se
à passagem dos potros amestrados.
São demasiados,
mutantes de fim de dia,
entornados nas sarjetas cristalinas.
São livres.
Mas só nas horas mortas.
Antes de voltarem ao início,
trincam o que resta da vaidade
e brincam,
sob réstias de chocolate amargo.
Todos os dias pares
me afligia a falha da minha pedra da sorte.
Mudei-a de posição
várias vezes,
para esconder o defeito.
Nunca o consegui.
Mas descobri outros raios de sol.
Ofereço-os aos pioneiros.

ao som de Kate Bush "Wow"

fevereiro 21, 2005

Ícaro num dia de chuva

Precipitas querelas de amantes e intriguistas, numa sopa de lentilhas louras, aquecida num bico de Bunsen regular. Realizas os sonhos dos ateus entre as câmaras 1 e 3, desligando a 2 por conveniências múltiplas. Suas, aquecido por decisões ímpias, alagado na saliva dos notáveis. Dormes no oposto e na vantagem, sentes o perigo das rachas na parede, multiplicas os cifrões sem tempo para os gastar. Ginasticas o empenho e a carne, dobras os cabos das tormentas alheias, significas muito pouco para o conselho de administração. Tens família, mas só no notário. Divides os amigos pelas garrafas de álcool, nos sentimentos de elos escancarados, nas paixões de minuto, na velhice. Gargalhas, lacrimejas, terminas os nós por atar. Encaras o sucesso como mortalha e inventas todas as letras do teu alfabeto. Morres na insistência, analfabeto por vocação, vazio, entretido no porém e no vocábulo. És esquecido. E cambaleias a existência.

ao som de The Cure "A Forest (Original 12 inch)"

Orly, manhã cedo

Jurar
Potenciar escárnios e bem dizeres
Minguar

Na solidão,
perdido na vista de um par de cuecas,
nas calças de vinco imperfeito,
na luz fosca
dos segredos no fundo do copo.

À cor da selva que não se molha,
no aeroporto
de madrugada
a claridade que se mantém muda;
o café
a quente,
samaritano,
perdido nas bagagens dos outros,
no autocarro
ao lado da chuva
com o saco sujo entre as pernas,
as mãos nos bolsos,
húmidos,
lentos...
divorciados.

Com a cidade
ao fundo
gemendo,
antecipando vinganças,
a rua de sempre longe
amnésica
no zumbido do motor,
chocalhando o cansaço
de gente
anónima.

E na boca,
o sorriso tímido
de quem alcança.
No verso,
na fagulha,
reentrar na vida
mordiscando um pedaço de céu.

ao som de Talking Heads "Heaven"

fevereiro 18, 2005

Falsos profetas

Subjugado por dúvidas de Flandres,
perdido numa ventania oca,
sem pouso, sem catre,
movido por imagens vãs;
vergo-me à direcção da forca.

A caminho,
a caminho meus irmãos,
vede a luz, trémula,
são quebrantos,
violáceos,
perigos de barbárie terrena,
estupros celestiais
vírgulas extremas.

De noite,
sob as sombras das árvores,
os atalhos são vias sacras.
Pedintes
e vagabundos,
sob as marés
entre velas desfraldadas a jusante,
perseguidos pela fé,
esquecidos pela fortuna,
espezinhados em bolor
fervidos em água tépida.

São os gatunos,
bestas infiéis,
em número redondo de quinze,
sujeitos a mil escrútinios
de idade muito avançada.
São mostrengos,
e devoram luares.
Mostram-se alvos à turba,
permitindo a vergonha
enquanto matam a sede
com lodo de santas fontes.

Tremendo terrores de lenda,
de olhos esbugalhados,
pé ante pé
em pavor,
sumidos de algum alento;
os crentes, as prostitutas,
os antigos
e os batoteiros,
toda a fauna que a memória
insiste em mastigar.

Com as muralhas à vista,
vendo os archotes brilhar,
sente-se um querer maligno,
um cálice de velha cicuta.
De chagas abertas ao frio,
de ventre inchado
de míngua,
o choro babado em ribeiro,
a esperança
é cativeiro.

Só,
longe dos meus irmãos,
errando nas curvas da aurora,
ergo o punho para o céu,
e recito a heresia.

Pobre,
doente,
estafado,
protegido por nenhures,
embalsamado em vida
por feridas descomunais,
a voz transtornada em dor,
a vontade em farrapos,
suja de nada mais.

-Eis-me.
Já não sou meu.
Dou-me de pasto aos malditos.
Fustigo-me em vossas preces.
Comungo do vosso nojo.

Possesso,
encandescente,
num derradeiro arremedo,
babado de tons de ira,
desvendo por fim
o segredo:

- Dos céus,
a ignorância,
dos infernos,
compreensão.
De norte, de sul,
a vida.
Do meu próximo,
podridão.

ao som de Orphaned Land "El Norra Alila"

fevereiro 16, 2005

Divino

Por capricho, ou imprudência, tornei-me num deus para questionar a Natureza. Varri todos os papéis que inundavam a mesa do meu trabalho e com um gesto seco, desfiz-me de todos os traços humanos. Depois, inventei uma taça cor de âmbar, que enchi com água. Coloquei-a num dos cantos da mesa. Recolhi as pétalas de quatro rosas e com elas cobri a água.
Estranhei por alguns momentos, mas descobri-me desprovido de todos os sentidos mortais. Descobri outros. Notei que as diferenças entre os homens, são afinal preconceito. A Natureza, a de verdade, a que regulamenta a vida, não perde tempo em criar barreiras entre machos e fêmeas. Isso é tarefa da outra natureza, a que se escreve com letra minúscula. A que serve os desígnios das doutrinas e da retórica. A que se vende em nome de ideais e religiões. A que se limita a ser pântano. Preocupava-me a noção de pureza. A pretensão de regras impostas, o querer de alguns sobre todos os outros, os limites do animalismo e da sua carga magnética. Enfim, as horas, os costumes, as passadas definidas, os capítulos e os tratados. Preocupava-me toda a certeza. O absolutismo de uma certeza que se vende todos os dias. Tornei-me num deus e descobri a Natureza. E verifiquei que a outra, nem sequer existe.
Ser, como viver, tem as regras inerentes ao vazio, ao vento e ao apetite. Nada mais. O homem, como a mulher, decide a sua direcção. E dela, não fará definição nem dever. O homem, como a mulher, desvenda o seu desejo. E dele, não tornará rumo ou objectivo. A sensação deverá tornar-se emoção e esta, plenitude. O sim de um, não será o sim de outro. O sol, a chuva, o vento e o ocaso, serão as únicas forças a admirar. Os deuses, não serão mais que mensageiros. O homem e a mulher só se completam quando tal for a razão. A mulher e outra mulher, tal como o homem e outro homem, serão as partes inteiras se assim a Natureza o indicar. A Natureza de cada homem e de cada mulher. O vocábulo amor não existirá, porque não será necessário escrever ou dizê-lo. Estará presente. O amor terá forma de homem ou mulher. O amor, será homem ou mulher. E como a eternidade, carece de regras ou proibições.
Sentado, com a taça de pétalas no meu horizonte, fechei os olhos por momentos. Na minha Natureza antevi os risos, o prazer, o restolhar de crianças, as palavras dos sábios, os sons, as fases da lua, as cores e os sabores. Na minha Natureza antevi o brilho de uma mulher, o seu sabor e os seus lábios. Na minha Natureza senti-me ofegante, atento, sequioso. Quando abri os olhos, reconheci nas paredes a partilha e a simbologia divina. E por ser um deus, abri as mãos.

ao som de F.G.T.H. "Welcome to the Pleasure Dome (Fruitness Mix)"

fevereiro 15, 2005

Pausa

Toda a sabedoria de uma biblioteca solene, cabe numa vela acesa. Sobra ainda espaço para uma carícia, um vício e um pecado. Não necessáriamente por esta ordem.

Encontramo-nos no Graal

Tremo só de pensar no momento seguinte. Aceito o cigarro que há anos não experimentava, acendo-o com sofreguidão e sem me saber a nada, viro as costas à capela, aos convidados, ao mestre de cerimónias e a todas as flores que cobrem o chão. Tiro do bolso a chave do carro e antes de arrancar, olho a cruz iluminada. Nada mais resta para me demorar ali. Faço a manobra e acelero com a fúria de alguém que foi ludibriado. Fraude e dinheiro fácil... fraude e dinheiro ágil. E tudo isto, todas as provações, todos os cuidados e lamúrias, as tardes lentas, as beatas dos charutos engelhadas, as cinco horas todos os dias, e a seguir, e amanhã e sem nunca querer dizer adeus. Tudo isto, para nada. Para me sentir vítima e carrasco da sofreguidão. Para me acabrunhar de vez, coberto de milhões, enregelado por dividendos e lucros diários. Fui bem enganado.
Acordei na madrugada da realidade guiando um descapotável. Chovia uma morrinha fértil. A chuva dos silenciosos. Percorria a estrada de asfalto claro que cheguei a duvidar. Com o cinto de segurança a travar-me os impulsos, as bombas de gasolina entre as fábricas compridas e os respectivos edifícios de escritórios, o trânsito de ocasião, habitual, julgava-me invencível. Tinha aprendido a invejar as minhas intuições, sabia-me mordaz e cínico, quase como uma menina de laçarotes cor de rosa que exige bolinhos de cereja para o lanche. Conhecia-me. Há uns anos. Com as duas mãos no volante, actor vestido de almirante ou de fugitivo, desenhava as curvas com aplicação, retomando a cada pedaço de recta, o fatalismo dos mandarins que sofrem de gota. Na mala do carro, um monte de papéis em desordem confirmavam o meu estatuto de rico. Aliás, nem seriam necessários. Tinha saído a minha fotografia em quase todos os jornais. Primeira página. Ou última, conforme os casos. Estava lá tudo: A surpresa mal disfarçada, o ameaço de desmaio, as lágrimas inconformadas, os olhos fechados, os óculos escuros, o copo de água e a fuga repentina. Que me importa, era tudo verdade. Por uma vez, os jornais prescindiam do meu reparo. Que se danem.
Eram seis da tarde, quando decidi parar. Era um restaurante conhecido. Meu conhecido. O parque de estacionamento vazio, suspirou-me o desejo de estar sózinho. Fechei o carro e entrei. Comecei pelo fim: No bar, pedi a garrafa de rótulo negro e sentei-me perto da janela. Não me reconheceram. Depois do segundo copo, pedi uma mesa para jantar. Na segunda sala. A que me conhecia. Sentei-me, pedi logo o vinho habitual e recusei a ementa. O costume chegava. Não mudei os hábitos. Se calhar...
Comi pouco, mas bebi toda a garrafa de vinho. Quis sobremesa, mas não consegui engolir. Bebi dois cafés. Seguidos. Sôfregos, na esperança de me fazerem bem. Na casa de banho lavei a cara e olhei-me ao espelho. Estava velho. Pedi a conta e de pé, acendi um cigarro. Paguei com uma nota alta e voltei a fugir. Nada seria como dantes. Nem os silêncios, nem os sabores, nem a ordem natural das coisas. Aspirei o ar fresco da noite, pensei em segundos toda a história do jornal e evitei sorrir.
Sózinho, com o meu dinheiro, voltei à estrada, rumo a uma encruzilhada. Sabia exactamente onde encontrá-la.

ao som de The Stone Roses "I Wanna Be Adored"

fevereiro 14, 2005

Na caixa com os bichos da seda

...Gosto de comas de sete segundos. Confortam a alma. Quando há alma...

As palavras, as interrogações, os lados errados da culpa e do exílio, provocam as mesuras do remorso. Imaginando o centro estático de um crime, a poça de sangue que teima em aumentar, o estalido da patilha de segurança da arma que retorna a pacatez, a espera por qualquer coisa depois, o embaraço de mais um funeral e de um caixão forrado a lilás. Estas são as variáveis. Ou melhor, os coeficientes a usar e deitar fora. O que fica, depois das operações e dos cálculos, a seguir das contagens e das conferências, além da vergonha, é a ímpia vontade por mais vítimas. E o passatempo, o derradeiro gozo, é recusar pretendentes por motivos idiotas. Rebuscam-se ruas a pente fino, observam-se mesas de café e poltronas de colóquios, mandam-se despir prostitutas e pederastas, esvaziam-se lojas de brinquedos e queimam-se bonecas animadas, insufladas a água salgada e cocaína orgânica, recontam-se os votos de qualquer eleição de esquina, violam-se as bagageiras dos carros estacionados em segunda fila, inventam-se palavras em desordem para manifestações silenciosas. Abre-se a comporta de gaz e sufoca-se devagarinho. Morre-se em fatias.

Sete segundos? Ofereço 17... Vendido!

ao som de Carpathian Forest "A Forest"

fevereiro 10, 2005


Green Tranquility (by Roger Dean) Posted by Hello

Sono escreve-se com oito letras

Preparou o alarme do relógio para as 11 da noite. Abriu a gaveta e tirou as chaves de casa. As do carro, esqueceu-se delas. Fechou a porta com três voltas, aspirou o fresco do fim de tarde e sentiu-se vivo. Já no passeio, tirou um cigarro e acendeu-o com o prazer das noites compridas. Sentindo o frio, pôs as mãos nos bolsos do sobretudo de sempre e com os olhos semicerrados ao sol de poente, procurou um táxi.
Recostou-se no banco de trás e deixou-se ir. No rádio, canções populares que normalmente lhe aguçava o ódio. Agora, apenas sorrisos. No longo percurso, sempre junto ao rio, seduziu-se pelas filas de contentores e cargueiros ferrugentos, inspiração para as poesias que outros musicavam. Outros ainda as cantavam. Um trabalho hipócrita de equipa. Pediu ao "chauffer" se podia fumar. O outro, num resmungo, foi simpático. Acendeu outro cigarro e reparou que lhe restavam dois. Ainda havia tempo.
Pagou e recusou o troco. Ignorou os salamaleques e fechou a porta do táxi. Nem o viu arrancar. Olhou em volta. A praça estava na mesma. Como aquele fim de tarde há que tempos. O frio era diferente. Mais ácido. A luz, mais cinzenta. A memória, porque os anos passaram por aqui e não quiseram parar. Viu a porta do café de antigamente e entrou, um pouco solene. Afinal, já lá iam mais de trinta anos. O balcão de mármore era de inox. As prateleiras de madeira e vidro, alumínio e acrílico. O cheiro, uma miragem. Pediu um café, à procura de outro sabor. Já lá não estava. Riu quase alto. O empregado olhou-o com surpresa. Depois, com desagrado. Encolheu os ombros, deixou uma nota em cima do balcão e saíu. Eram 7 e meia. Chamou outro táxi e não se despediu da praça.
- Para a Alta, por favor. - Não perguntou se podia acender o cigarro e com olhos no vidro, embrenhou-se no começo da noite. Desde pequeno, brilhavam-lhe as idéias aqueles reclames luminosos. Mas nada como os néons do seu tempo. Para seu gosto, os actuais ou eram poucos, ou tinham um brilho baço. Falta de ambição. Ou de querer. As montras das lojas fechadas, impassíveis e superiores, acesas para a sua própria soberba, marcavam-lhe o cérebro disponível. Eram como um fetiche. Sempre que chegava a uma nova cidade, sempre ao anoitecer, jantava e rondava essas montras convencidas, até o cansaço e o sono o chamassem. Um prazer carnal, sem o odor a sexo. O táxi ultrapassava-as com rapidez, como se o desprezo fosse um salvo conduto para os semáforos. Riu quase alto e viu os olhos do "chauffer" no espelho. Estavam parados, com o sobrolho franzido. Não ligou.
Pagou e recolheu o troco. Mal saíu, sentiu o táxi arrancar num impulso. Olhou as moedas e deixou-as escorregar para o chão. O restaurante estava aberto. Entrou com o pé esquerdo à frente e escolheu a mesa de então. Pelos velhos tempos, começou com uma imperial. Leu a ementa com vagar. Nome por nome, prato por prato. 8 e 20, tinha tempo. Decidiu-se pelo arroz de pato no forno e uma meia garrafa de um tinto que tinha esquecido o nome. Ainda esperou pela tentação do pãozinho com manteiga, mas achou que era desnecessário. Os empregados eram todos novos. Que seria feito dos outros? O careca de camisa de manga curta. O magro, baixinho, de borbulhas no queixo. Lembrava-se da voz de ambos. Bebeu um gole de vinho à saúde deles. Boa ou fatal. Comeu sem olhar as horas. Mastigou como há muito não se lembrava. À sobremesa, não recusou o toucinho do céu. O sabor era o mesmo. Estranho. Não bebeu café e deixou uma gorjeta pelo doce. Antes de sair, acendeu um cigarro. Só ficava com um. Ao canto, junto da porta, uma máquina automática de venda de tabaco, mostrou-se. Não tnha moedas e não lhe apeteceu trocar dinheiro. Saíu.
Pensou que seria um boa idéia, caminhar até ao fim da rua. Ainda era longe. Tinha tempo. Passou à porta dos hóteis modernos e abrandou à vista de um dos antigos. Sorriu. Já lá tinha estado. Só durante a tarde. Tardes. Lentas de assumir e rápidas de esquecer. Exactamente ao contrário dos pedaços de chocolate que gostava de chupar. Ao longe, viu uma pastelaria e cedeu à gulodice. Comprou a marca que preferia e esperou o cigarro fugir. Imaginou-se numa cidade estrangeira e entregou com minúcia, os olhos à montras. Começou a pensar num idioma à sorte. Insistia nas palavras que já esquecera e criou diálogos inverosímeis, com empregados de lojas imaginários e alguns encontros casuais. Esqueceu o tempo por alguns minutos. Mais do que se imaginaria. Eram 5 para as 10. Sentiu falta de um álcool.
O táxi parou junto à porta iluminada. Pagou e esqueceu o troco e a boa noite. Entrou, baixou a cabeça ao porteiro da noite e chamou o elevador. O bar era no terceiro andar. Sentou-se numa mesa qualquer e satisfeito com a lisura do empregado, pediu conhaque. Olhou o barman, seguiu-lhe o movimento para a garrafa e descansou. Agarrou o copo em forma de balão com as duas mãos, como se fosse despedir-se de um moribundo. Por um acaso único, ouviu a canção que precisava de ouvir. Sorriu com embaraço e ofereceu a si próprio, a delícia de uma paz sem preço. Eram 10 e 35. Bebeu com pequenos goles, agarrou o sobretudo e desejou as boas noites. Deixou o suficiente para a bebida e muito mais pela canção. Já na rua, com as mãos nos bolsos e o vento nos cabelos, subiu a rua íngreme.
Quando chegou junto do muro, acendeu o cigarro, o último, inspirando muito devagar o primeiro fumo. Passou as duas mãos peos cabelos e olhou a cidade em baixo. A velha cidade suja e andrajosa que aprendeu a desejar. Foi a amante que mais lhe deu prazer. Trauteou a canção que lhe devia. Olhou o relógio e estremeceu por um segundo. Faltavam 4 para as 11. Levantou a cabeça, procurou o horizonte e com a mão por cima do bolso direito do sobretudo, sentiu o revólver. Porque gostava de finais felizes.

ao som de Balanescu Quartet "NoTime Before Time"

fevereiro 02, 2005

Quando os olhos dos gatos brilham

Ela fechou a carteira e recostou-se, gozando o prazer de parecer o que não era. Com um gesto feminino, compôs a meia e seguiu a perna até ao sapato preto que lhe agradava a silhueta. Já tinha bebido o suficiente. Qual suficiente? O de alguém ausente? A medida certa de parar o destino e a compostura? Pelo menos era o que lhe tinham impingido no colégio e na herança. Mas como o testamento já estava rasgado em quatro partes, como a fila certa do cemitério já não tinha nome, para quê esperar o dia seguinte. Porque não viver todos os dias que ainda faltam, no que ainda falta da noite? Fez um gesto discreto ao empregado e esperou o copo cheio. Com a cabeça um pouco pesada, embalou-se numa calma própria de tormenta. E sentiu-se mais feliz que nunca.

ao som de Jim Brickman "Harlem Nocturne"

fevereiro 01, 2005


Velvet Posted by Hello

Sumaríssimo

Cristo. A 200 à hora, parto para uma emboscada num desfiladeiro de pão e rosas. Enfrento a velocidade como um julgamento de togas indecentes, planificando defesas e jurados moles e mentirosos, decidindo as razões que os empoeirados exigiram. As portas e janelas fechadas não me impedem a viagem, arranco as ervas daninhas das bermas da estrada, nivelo o espelho retrovisor e procuro à retaguarda os farrapos dos meus sonhos e das minhas amantes. Fecho os olhos e sinto a estrada, um asfalto dolente e de beijos síncronos. Não recuso qualquer firmamento, não faço planos, não ocupo o lugar de nenhum defunto. Sou só eu aqui. Surdo e mudo de nascença, prevarico em dias de sol e peco em abundância à chuva. Na falésia mais perto do meu indicador direito, deixo-me cair com fúria, prolongando a velocidade do motor que me alumia a decência. Caio, caio de muito alto. Com os cabelos em turbilhão, experimento a impotência dos fracos numa queda em espiral. Voo em linha recta. Na vertical. Descubro em mim uma geometria periclitante. Vomito vectores e coordenadas longitudinais. Sou um peso morto que desfila na passarela da cobiça. E prevejo, antecipo curiosidades mórbidas que encherão milhares e milhares de páginas de jornais cor-de-rosa. Também dos de outras cores. Menos o preto. Serei enterrado com pompa, em circunstâncias inauditas e tradicionais. Rezem-se as missas, as ladainhas habituais, chorem-se as lágrimas cor de rímel, troquem-se os abraços e os votos de nunca mais. Quando os coveiros estiverem ao lado do monte de terra e alumiarem o buraco, abra-se o caixão pela última vez, na despedida alegre do condenado. Quando todos os olhos o encontrarem vazio, sintam na pele a vingança do poeta. Eu já não estarei aqui. E no buraco, muito menos.

ao som de Pop Dell´ Arte "Querelle"

janeiro 31, 2005

Nunca disse que voltava

Adeus. Rasgar os últimos papéis intactos, pontapear os amarrotados e seguir pela viela que vem a seguir. Adeus. Sem sentir o que acabou por cair. Ficar um momento encostado à moldura da porta e esperar o abraço, os braços das mulheres que se fez por não esquecer, as bebidas, os cantores. Saber de cor uma canção de longe, de limites pulverizados, de um rio que corre no canal, entre barcaças e tufos de relva alta, onde o saber é mais e a dentada tem sabor. E quando o abraço não chega, quando os braços delas não alcançam, é adeus e talvez até à volta. Mesmo se a volta não se quer.

Adeus. Pelos andarilhos e pelas receitas de pão, pelas primeiras filas dos teatros, por uma rua a subir entre os candeeiros altos, entre muros e caras de Verão. Ssob o sol da tarde, sem os travões, com todos os companheiros. Adeus. Pelos terraços e pelas mansões, com os copos cheios de vinho que azedou nas garrafas de antigamente. Por um torrão de sementes, por uma faca sem lâmina, pela mulherzinha que está agachada à espera do freguês. E mesmo sabendo das juras, das promessas de menino, o adeus é quando um dia se faz tarde. E nas horas altas da noite, à janela, a luzinha ensina o que aconchega. E por nunca esquecer o cheiro dos cigarros, a caneta e as folhas de números e paciência, por guardar bem fundo os degraus e a galeria, por ainda saber o nome e a minúcia, a dor magoa mais.

Adeus. Pelas perpendiculares e por todas as tartes de domingo. Pelas fachadas das idades e por todos os ausentes da hora de lembrar... Aquela esquina que me viu crescer, dar os passos e tropeçar nas alturas no esconderijo de sempre, no grito logo pela manhã, ao frio, depois da água gelada. Adeus, por cúmplice e por honraria. Depois das marés e do farol apitar a penumbra. Depois da porta da garagem ser fechada. Depois dela sorrir e dizer adeus.

Adeus. Por mim e por todos os outros.

ao som de The Rolling Stones "Ruby Tuesday"

janeiro 27, 2005


Sisters Posted by Hello

janeiro 23, 2005

Pausa

Sem que possas evitar, junto dois dedos e suavizo-te a pele dos pulsos. Depois, sem olhar para ti, subo os dois dedos pelo teu braço e quando chego a meio, paro. E deixo-te a imaginar...

Omnia Vanitas Posted by Hello

janeiro 21, 2005

Às 11, no mesmo sol

A menina vivia num filamento pintado de cores muito vivas. Sorria a todos os mares que passavam. Deixava-se ficar por ali, pela beira da rua pintada de amarelo claro e alguns brancos, invejada por todos os cinzentos. De cabelo solto, dedos despertos, imaginava as outras ruas e as outras cores. Fazia-lhes perguntas, todas as que já sabia a resposta. Baixinho, pedia aos gatos que a guardavam um pouco do sol das 11 horas. Os gatos olhavam-na, encostavam-se uns nos outros e sabiam o que ele queria. Quando ninguém estava a olhar, esvoaçava um bocadinho. Só um nada. Se alguém surgia na esquina, esticava as pernas e voltava a tocar o passeio. Todas as pessoas, mesmo as que a pressa não deixava ver, sentiam o perfume a flores de manhã que a menina possuía. E durante todo o dia, todas as pessoas, mesmo as que a pressa não deixava ver, sorriam por um instante sem saber porquê.

ao som de Organic Audio "Always the Sun"

janeiro 20, 2005


Gaijin Posted by Hello

De súbito

Pelo mar, na areia clara que recebe o momento da onda, dentro de um luar de encomenda, o exorcismo completa a ansiedade. Foi esta sensação que me marcou a espera. A espera de metade da noite mal dormida. Descobri a almofada suada mas não consegui lembrar o sonho. E por isso, quis ficar longe do quarto. Vagueei nos corredores, entre a obsessão do roupeiro e a dádiva de um pequeno-almoço madrugador. Sentia-me sem forças, com os destinos à deriva pelo nevoeiro lá fora. Quando dei pelo copo da noite passada, bebi o que restava. O sabor já não era o mesmo. Em cima da mesa, o isqueiro, o relógio e a caneta. No chão, o telefone e o casaco. Por detrás das cortinas a luz de um dia. E na penumbra, sentei-me no sofá do costume e olhei uma vez mais o piano. Foi talvez este último pormenor, que me recordou a minha condição de fantasma.

ao som de Jay Jay Johanson "Automatic Lover"

janeiro 19, 2005

Pausa

Devagarinho, num sussurro, em almofadas vermelhas, sob lilases, sentir a inocência ao murmurar bocadinhos de alguém. São quase gémeos, os dias bons e os dias maus.

Veias e taças de molho chinês

Na culpa e na carótida, no amor, na presunção, na altitude, no vazio e na tontura, no abraço, na mão, na vigilia, no canto mais escondido do manicómio. Lá longe, na exactidão de algum voluntário perdidamente apaixonado, na inveja, na sorte, na rouquidão, no desespero, no esperanto, na candura, no pretérito, em agridoces milímetros. Ao chegar ao cais, por detrás das gruas e das caixas de pó de arroz, no side car pintado de verde escuro, na surdina, ao de leve, ao cair. Ao acaso, à distância, ao virar da esquina na rua de sol cadente, ao longe, ao menos, escorregando ao longo da parede branca. Na cor, na denúncia, no café, no primeiro degrau, na prudência, no gato, na sombra, no adeus, no então. E com os olhos em ângulo agudo, sob a arcada, em viés, subindo os degraus da escada em frente, espreita-se o primeiro andar. É onde mora o suspiro.

ao som de Pink Floyd "Brain Damage"

janeiro 18, 2005

Granada

Nos mistérios e nas canções, existe sempre uma pausa que sabe a começo. E porque sei este segredo, posso adiar as conclusões. Talvez por isso, ou até talvez por nada, procurei o gorro cor de laranja com flores amarelas e brancas e uso-o sempre que quero. E se me dá prazer, só eu e ele sabemos porquê.
Hoje, penso em matrioskas e rubis de um vermelho impossível. Acho que condizem com a cor do meu coração. O que estou a usar agora. Lembro-me de um salão enorme, com um lustre descomunal que irradia luz para os cantos e cadeiras vazias. Espera-se a multidão. Eu, sentado na cadeira que me convidou, aproveito a bonança e deixo que o salão me mime. Sorrio e sinto-me cúmplice. Como nunca senti. Lembro-me desse salão. E da pausa antes da tempestade, lembro-me de um sol, elíptico.
O gorro ainda está aqui. Comigo.

ao som de Leningrad Cowboys "Knockin´On Heaven´s Door"

O turno da noite

Os dias, os que chamamos pelo nome, aqueles que respiram o sorriso e a carícia, deixam-se navegar e oferecem sempre um porto seguro onde desaguar a ternura. "Há dias que doem um pouco mais que outros", e esses, deixam-nos sós como estátuas. Depois, resta esperar "que a noite chegue" e nos enrole na manta do olhar prolongado. Durante o silêncio, basta procurar dentro de nós. E no fim da noite, quando Feynmann nos acordar, traçaremos a trajectória elíptica de um planeta P em torno do Sol F, e lá na Esfera Celeste procuramos o caminho. O que passa por baixo da nossa janela.

ao som de uma canção que guardo para os momentos de quilate

janeiro 17, 2005

Pausa

Quando o sol se apagar, a avenida ainda estará ali. Seca, fumegante, entretida num torpor de amante e de bordel. Porque a entrega é muda e de ruído. Porque a espera é mesmo assim: suja e dolorida.

Com o corpo

Olhar devagar, subtraindo as escolhas, perseverando a vontade onde o desejo não tem lugar. O desejo que de humano não é bem-vindo. Aqui quer-se o ser animal. O magnetismo. Olhar devagar, sequioso, adivinhando as proibições num esgar sem face. Devagar, passar o polegar no indicador, sentindo a textura, a pele que se quer fragmentada. Devagar, muito devagar, suster o sorriso, deixar cair o não e as virtudes, possuir naquele segundo, naquele minuto, a alma e o corpo. E tirando o sentido ao tempo, mergulhar na carne o olhar, o sabor, o paladar da saliva. Humedecer o lábio, o de cima, inclinar a cabeça ao ritmo da curva da perna, pedir mais e mais, revirar os olhos na pausa e exigir movimento. Olhar devagar os trapos pretos, a pele branca, fazer poesia no encontro dos dois... e depois, querer as cores separadas. Recusar o habitual num rito de elixires guardados. E o fumo, sempre exacto, mais que mordaz. O fumo envolvendo a cenografia que o olhar pretende vagarosa. Bonita. Sumarenta. Sem palavras, sem ordens ou pedidos, o olhar quer desnudar, violar a intimidade que já não é. Sedas, grita-se por sedas. Gritos guturais, bafientos, que se perdem nos minutos que separam da hora. Atrasam-se os ponteiros, os cronómetros, altera-se o ritmo do coração, diminuem-se as pulsações, vitimiza-se o silencio. Só o fumo, o olhar, a pele branca, os acordes de uma musica repetitiva. À luz de uma vela cor de vela, sustenho. Hesito explicar palavras e pontos finais. Decido. E fico-me ali, deitado sobre uma almofada que não é minha, minado por uma pele que não é minha, transpirado, movido por um olhar. O que me pertence.

ao som de Les Jumeaux "Feathercut"

O quarteirão

Os dias, quando passam por nós, ganham as cores que nunca julgamos adivinhar. E depois... Depois, somos atingidos pelo brilho de um anil que não é o nosso. Por muito tempo, pressenti ter o dom da ubiquidade. Vaguear por dimensões que não estavam ali. E assim, percorri guerrilhas, sonorizei estados de alma e deixei-me ficar numa rua cheia de gente, sentado no chão, encostado a uma montra, a rir. Chamam-lhe avenida, mas eu não acredito. Não acreditava. Vagueava pelo sentido de um estado químico, que me arrastava para a completa distorção dos ângulos rectos. E cada vez que ria, era da cor quase exacta. Não sabia que existia o tempo. Nem sequer as horas ou os minutos. Estava ali, cúmplice dos meus cúmplices, vestido de uma forma qualquer, sem ponto cardeal, sem doutrina, sem querer. E ficaria ali toda uma vida, se não me tivesse levantado e caído outra vez. Hoje, tenho pena. Como a teria se fosse ontem. Houve um dia que quis entrar num igreja escolhida a dedo. Fui barrado à entrada. Não possuía a senha. Virei costas aos sinos e aos infiéis e quis-me bastardo. Não voltei. Achei que não valia a pena. Às vezes, ainda circundo as ruas que a limitam, mas já nem olho para ela. Nem ela para mim. Prefiro os becos e as ruas estreitas. Onde as igrejas não sabem os segredos. Ofereço-os, nos restaurantes decrépitos e cheios de mesas vazias. A verdade, só a confesso aos comboios. Aqueles que partem das salas estofadas de rasgões e tectos demasiado altos. Os que levam sempre um bocadinho de mim. E por isso, nunca os vejo partir...

ao som de In The Nursery "Days of Freedom"

janeiro 15, 2005

Pausa

Algures, numa rua escurecida por uma noite tardia, existe um átomo que rege o que sinto. Não o guardo só para mim, porque a cumplicidade não mo permite. E por cúmplice, tenho a verdade de um encanto.


A Culpa

No balanço letal, entre o calor invisível e o paladar adocicado por gotas fiéis de um cúmplice que aguarda no fundo de um copo de cristal, pretendem-se carícias e agulhas. As que marcam na pele o segredo dos vencedores. Subjugando um grito, percorro o olhar pelas heranças e despojos de um tempo ausente. Fixo um veludo esverdeado e encaminho dentro de mim, o infinito apetite por coisas mortais, gastas perante a poeira e apetecíveis quando o deleite se profetiza.

É tarde. À lua, suam encantos e texturas. Provoca-se a vontade de muito mais e canibaliza-se a paixão. Está aberta a porta sagrada do limite. Sem olhar o rasto dos passos de quem me precedeu, entro no salão, vasto de sonoros gemidos e apneias esmeraldas, embaraçando o dote que julguei correcto. É tarde. Ajoelho a humildade que se esvai em segundos. E vociferando urros bestiais, entrego-me à orgia. Sem mágoa, sem pertença ou perigo, cativo o estranho poder que atravessa as almas e destrói os muros altos do prazer. Sou um só. Eles, serão mil.

ao som de Ophelia´s Dream "Fairy Dance"

janeiro 14, 2005

Teatro da Salvação

Como numa ópera, subjugo-me aos coros e sinto-me explodir. Adianto as guitarras e os martelos pneumáticos, peço as pausas que me são devidas e parto para o fundo do palco. Volto-me e olho a plateia imóvel. Levanto o olhar para as frisas e os camarotes, para os tectos barrocos pintados de dourado, embacio-me com os veludos escarlates, ofusco-me nas jóias e pérolas das damas biscainhas e invejo-lhes os decotes. Ante as calvas sorumbáticas e disformes dos banqueiros e ministros, oferto os meus esgares de nojo. A um gesto meu, a orquestra irrompe e o coro grita e gesticula odes infernais. Quero o caos, a virtude e um raio fulminante em direcção a Marte. O céu pode esperar. Para sempre. Com os olhos fixos na fila de violinos, abro os braços em desafio e rejo a orquestra entre trovões e pânicos. Alagado em suor, incito os actores ao assassinato, exijo aleluias frenéticos, sinto as articulações ceder e as artérias a rebentar, prevejo cataclismos e os apocalipses que julguei inventar. Estou lívido, fulcral, pertenço a uma ordem que já não existe, sou templário do adeus e da revolta, precipito perdões e carícias, desperto amores vadios e beijos brutais. Sou divino. E imundo. Ordeno as forças do mal e da verticalidade que me cubram de riquezas e ilusões. Torno-me em trono e ocupo o palco com a autoridade dos antigos reis da lenda. Clamo por dragões e virgens, por santos e violadores, por mendigos e generais. Queimo todos os libretos, editando por decreto a minha baba. E luto, luto incessantemente pelo vazio e o nada, por luas intermitentes em volta do meu cerebro. Tatuo o perfil dos meus fémures no meu tórax ferido. Pretendo observar longamente o meu próprio crânio. E num volte face bestial, renego-me num perfeito reajuste, blasfemo as minhas entranhas e num suspiro final, confesso todas as mortes de que fui carrasco. Ao acorde da derradeira linha da pauta, sorrio, mastigo os dentes que me restam e com o sopro de vida que me mantém, a plenos pulmões exclamo: "A vós, a ignomínia... A todos, a ressurreição... A ti, rosas e ornamentos... E a mim, o descanso que me mitigue a fadiga".

ao som de Dargaard "Underworld Domain"