maio 25, 2005

De sol no alto

As manhãs são agiotas sem perdão. Exigem esforços impossíveis, dentro de redomas, faíscando ao sol da diferença. Querem-nos mal, as manhãs, reprovam a audácia das noites intermináveis, ferem o romance que só existe no sonho, precipitam o amor que navega por entre almofadas e e gemidos de preguiça. São arautos da manha e da tortura, as manhãs viradas a nascente. Sussurram promessas vãs, paixões desordenadas de silêncios comprometidos onde o beijo é bocejo madrugador. São vis, as manhãs de direcção única. Os becos sem saída dos fiéis.
Gosto de as confundir com uma voz de seda. Uma voz que matina uma canção de encantar. Um cigarro prometido, uma chávena de café sem pátria, um restolhar de lábios ávidos de serão. À beira dos carris de um eléctrico atrasado, um bairro dolente, onde as primeiras horas de luz são fadiga muito atenta. Uma porta entreaberta, uma promessa sem final, um dia de insiste em começar, mesmo quando vazio.
As manhãs perturbam os gestos lentos dos deuses. E como eles, também eu não encontro o norte. A bússola de marfim, ainda dorme, coitada.

Ao som de Eskobar featuring Emma Daumas "You Got Me"

maio 20, 2005

5 e meia da manhã, sob o temporal

Sem horas desfeitas
nem minutos perdidos,
conto histórias de pessoas,
de amores
amanhecidos pela ausência de vento,
sós
nas horas de neblina
e pó de arroz.

Na voz enrouquecida
de um jardim em repouso,
um suspiro
é o bastante.
Procuram-se nas mãos,
os esquecimentos de praia,
os degraus do museu,
a vaga suspeita de quem se apaixona num repente.
Mordisca-se uma maçã
num apetite que tarda em regressar,
ouvem-se canções de embalar
com os olhos muito abertos,
onde sorver é razão.

Nos horizontes
guardados no bolso,
estão as fraquezas,
os beijos intermináveis,
os verbos conjugados em suor.
O colchão ficou perdido,
nas ruínas de uma casa que caminha em paz.
A luz do candeeiro de rua,
já não sabe acender.
A lentidão dos dias sem azul,
a esquina que perdeu a memória,
o cheiro de um bocado de noite,
a capa do disco que fala em armários e balas.

E depois dos calendários,
depois das fadas e dos editais,
à beira do rio
num segundo,
rimos longe um do outro,
mortos para o reencontro,
suaves para a sedução.

Mim

A qualquer hora da noite, esfrangalhando células e faltas de apetite, há um ponto de onde não se pode regressar. São 2 horas e 45 minutos e a distância que me separa da auto-estrada, é maior do que a chave na porta de entrada e do botão do elevador. É esta mania da perfeição, da gravação exacta, das chaves do carro na gaveta, do isqueiro meio cheio e da bebida esquecida no copo. É uma irritação que não descola, um algodão encharcado de álcool que se passa no pescoço e refresca o instante. Um minuto mais na conta que o tempo insiste em apresentar, mesmo antes da sobremesa.
Não gosto de falar em noites perdidas. Não acho que as tenha perdido. Encontrei sempre qualquer coisa brilhante, em todas elas. Começar ou terminar um vício, bocados de sono, canções que nunca tinha ouvido com cuidado, vontades ou amanheceres. Não gosto de falar dos momentos escondidos da minha infância, mas não há noite que deixe passar em claro o que fiz, o que deixei de fazer, os caminhos, as manhãs bem cedo, a areia, os tufos amarelecidos pelo vento, as páginas soltas de histórias que me diziam respeito. Lembro cada momento, cada minuto que vale a pena retornar, como frases e palavras que nunca disse a ninguém. Guardo-as sem lhes reconhecer a dicção. É como uma fábrica que só depois de morta me apaixonou. Vagueei pelos seus escombros, toquei nas paredes esgravatadas, demorei-me junto aos ferros retorcidos, desejei entrar na miragem de algumas placas incompletas, tornei-me curioso da ruína e da desolação. E lembro-me dela como uma mulher. Uma que se quer esquecer, mesmo se regressamos onde a vimos pela primeira vez. Mesmo se fugimos dela em linha pouco recta.
Os fins abruptos provocam-me uma certa amargura, mas este, imponho-me a mim mesmo.

Ao som de Sofa Surfers "Sofa Rockers (Richard Dorfmeister Remix)"

maio 05, 2005

Fresta

No bolso esquerdo, o isqueiro que a mulher da sua vida lhe deu. Na gaveta, o relógio relembrado tantas vezes. Na porta da rua, as chaves e a serigrafia de um homossexual assumido, de dentes amarelos e casaco branco de lã grossa. Nos tímpanos, a canção de sempre. A que fala do amor, do celulóide e de um espasmo calmo e mudo. Na boca, um charuto com sabor a ilha e uma tentativa de sorriso. Nos olhos, os contornos turvos dos prédios e os seios escolhidos. No tacto, as chaves do automóvel. No olfacto, o copo. Na idéia, turbilhões, amidos azul claro, tormentas com chuva curta, peles que se tocam, perfumes. Na alma, seja lá o que isso significa, a encruzilhada. E na realidade, todos os caminhos.

Ao som de The Passions "I´m in love with a german film star"

Chambre de Nuit

No conforto do canto escuro, é bom esperar pelo fim. Mesmo se o fim , não é o que se escolhe. A almofada entre os braços e o amigo imaginário ao lado, muito atento e muito calado, são o começo perfeito para qualquer fim. Trauteie-se uma canção que fale de miragens e deixe-se os minutos tomarem conta do resto. Já não se ouve a vida passar, mesmo se o movimento continua lá fora. E depois, não faz mal se o telefone não toca, ou se as cartas chegam sempre abertas. O interesse é coisa de ontem. Cheira a bafio. Aqui, no canto escuro, as histórias andam por outras estradas. Basta mudar a posição do corpo, nem que seja um milímetro, para o destino ter outro contorno e a razão, sabor diferente. As cores têm tons de pausa. Aqueles tons de quem espera uma fatalidade. É o que acontece nos cantos escuros: Esperam-se fatalidades, como comboios atrasados, convencidos da sua importância capital.
E alturas em que o canto escuro é só um suspiro ou um ronronar aconchegado. São as horas da condescendencia e do chá arrefecido. São as contas de uma pulseira que estava no sotão, coberta de pó. São as migalhas do bocado de pão que enrijece em cima da mesa. São as bolachas que sabem melhor amolecidas. E com a almofada entre os braços, tudo parece flanela e muito limpo.
É assim o canto escuro. Doce e amargo como uma canção do tempo da guerra. O fim tarda em chegar, ficam os pés dormentes a as pernas, doridas. E num repente, o canto escuro é uma sala de baile envelhecida, mal iluminada, onde no canto mais escuro, uma banda ultrapassada toca canções vagas e dolentes que apetece ouvir. As cadeiras são de veludo gasto e os reposteiros pesam nas arcadas. O relógio, descomunal de dourados impossíveis, está parado e o tempo, interrompido. Se existe vida em mais algum lugar, ela é dispensável. Aqui, no canto escuro, espera-se o fim. Um qualquer. Mesmo se não é o que se escolhe.

Ao som de Les Negresses Vertes "Leila"

maio 03, 2005


Makura Posted by Hello

Por instantes

Antes do filme acabar, amachuco as cartas de amor e num repente, saio em direcção à chuva. Páro no meio da rua e sem destino preferido, fico a ouvir o ruído molhado que toca no chão. Não me consigo mexer. Sou encharcado sem timidez ou sedução. Apenas quero sentir a chuva na cara e nas mãos, deixar as gotas de água escorrerem sobre mim, soltas, possíveis. O balanço das árvores, as luzes dos apartamentos, os passos longínquos que fogem da tormenta, um alarme esquecido, um néon, um bocado de cidade. E debaixo das gotas cheias, com o caos ali tão perto, rodeio-me da serenidade mais pérola deste mundo. Vejo num segundo as imagens que me modelaram. O topo do edifício, a morte que se aproxima, a mão ensanguentada, uns olhos azuis, gulosos de vida, um medo que se esfuma, a violência que no instante seguinte já não existe. E a chuva, terna, lunática, absolvição de uma última noite. Como agora, nesta rua, sem horas, só, a chuva como senhora de um desejo que não sei explicar. Como estas palavras que não deveria mostrar.

Ao som de The Paradise Hotel "Drive"

abril 30, 2005

Laço sem corda

Queres-me? Não sei se deva desdobrar-me e mostrar o contorno dos segredos cor de deserto. Vou pensar nisso. Os minutos que demorar a minha escrita. Mais que isso, não. Seria doentio. Ou indiferente.
Sabes, li com vagar algumas linhas que a brisa de fim de tarde teimava em estremecer. Por entre os cortinados, os contornos da cidade são sempre esguios e atraentes. É por isso que baixo os estores quando tenho a janelas abertas. Sinto o sopro do mundo lá fora, mas mantenho o meu egoísmo intacto. Intocável. Imaculado. É isto, arrastar a existência entre tabacos horizontais e alguma filosofia de pacote, ziguezagueando nos passeios e nas esplanadas de café de bairro, esgotando as matrizes rodoviárias em manobras acidentais e repetindo as mesmas ruas, outra e outra vez.
Às vezes, atravesso a ponte, só uma delas, vagueio na outra margem à procura de cenários para um filme, imitando estrelas de rock, cansadas pelo vai-vém do seu sucesso, mudos pelo halo brilhante da ignorância que escolheram. Sofro de vertigens. Encho-me de iogurtes com sabores estranhos, encarando o objectivo de me sentir outra pessoa. Bebo chávenas de café com açucar. Peço sempre a mesma marca de álcool. Repito com fervor religioso, o local de suicídio. Alcanço nas canções que levarei para uma ilha deserta, a perfeição e a fé. Em suma, escrevo por um sentido de estado, uma responsabilidade caótica de desmaiar durante a entrega do prémio nobel, um desvio na maré inconcebível do marasmo. E isso não será amor?
Ainda penso. Nisso? Não sei.

Ao som de Rheingold "Dreiklang Dimensionen"

Mais subtilezas

Sibilando por uma rua íngrime, ladeado por vidros partidos de montras saqueadas, permito-me a derradeira lata de veneno. De olhar firme e sorriso permissivo, sinto um pisar duro sobre o pavimento encharcado. Em desafio, procuro no céu azul claro um sinal de exactidão. Satisfeito pela fugaz vitória, marco a subida com passadas directas, entoando um refrão que não ouvia desde os meus dezasseis. Há duas horas que decretei estado de sítio. Matei com tiros certeiros os oficiais de patente superior e aos sargentos, fechei-os nas masmorras a céu aberto. A comissão que enviei ao palácio presidencial, já deve ter terminado. No fogo posto à assembleia, ainda se vêem as colunas de fumo. Dos civis, mais de três mil permanecem mortos. Os feridos, teimo em não contabilizar. E por desdenhar artilharias pesadas, dispensei os meus guardas rebatizando a sua função. Estão caídos, numa atitude de extermínio.
Ao chegar à esquina, com a rua dos quiosques amarelos, viro à direita e antevejo ao fundo o largo do quartel. Ao pisar o lajedo da praceta, procuro com alguma avidez a porta entreaberta do café. Atravesso o largo, sem pisar os corpos imóveis no chão e preparo o palato num hedonismo violento. Num gesto infantil cravejado de saudade, pontapeio a porta e entro no café. Todos os clientes jazem retorcidos. Sobre o balcão, um empregado desafia a gravidade. Empurro o cadáver para o lado e encarando o criado ainda de pé, ordeno delicadamente.
- Um café, com um pau de canela.

Há prazeres que valem o esforço.

ao som de Oberkampf "Couleurs sur Paris"

abril 22, 2005

Subtilezas

Ela corre rua abaixo, perseguida por três. Vestem roupas justas e escuras. Têm no pulso direito uma marca. Não consigo ver a cor. Ela grita, enquanto na corrida vai esbarrando nos espelhos dos carros. Tem a camisa rasgada. Os olhos também. Chora traços negros e sente perto o fim. Eles, os três, não forçam a passada. Ganham-lhe tempo e provocam-lhe o pavor. Sabem o que podem conseguir e não o querem nem um segundo mais cedo. Sabem do que falam. E calam-se aos gritos da vitima. Sugam cada momento e cada lágrima. Sabem prolongar o prazer.
Um individuo vestido com um fato vulgar, tenta o gesto, contagiado pelo terror dela. Ao passar o segundo dos três, tenta barrar-lhe a passagem. O segundo dos três, sem o olhar, abate-o com dois tiros na cara. Continuou rua abaixo. As pessoas que sobem, fundem-se com as paredes e as montras. Arfam na tensão que lhes elimina o grito. Deixam-se ultrapassar pelo cenário. O primeiro dos três, sem parar, emite a recomendação em tom de ordem. Os outros respondem. Em estrangeiro. Um qualquer. Ela tropeça e cai, esgotada por um remoinho de horror e cansaço abissal. Sem conseguir levantar-se, arranha a garganta com a dor que antecipa. Rasgou a saia e só conserva um sapato. De salto partido.
Quando eles chegam ao pé dela, está alagada em suor. E medo. Tapa a cara com as mãos e sente a pausa. Os três, rodeiam-na. Têm botas pretas, com atacadores azul forte. Um deles raspa com a biqueira no chão. Nas mãos, seguram com saber navalhas de lâmina cónica. A do primeiro tem recortes de traço medieval. Peça única, certamente. Não sorriem, não falam, apenas a olham deitada no chão, admitindo a desigualdade assumida. Sem qualquer ordem ou sinal, exactamente ao mesmo tempo, rasgam-na de cima abaixo, pressionando o metal na carne morna. Não pestanejam aos salpicos de sangue e esboçam formas quase geométricas no corpo pálido. Sem aviso, imobilizam-se ao mesmo tempo e depois de um derradeiro olhar, levantam-se e limpam as lâminas às calças, junto ao joelho. Guardam-nas no bolso de dentro do blusão. Com um olhar mais calmo e repousado, aproximam-se da berma do passeio e chamam um táxi que tinha parado no inicio da rua. O segundo, ainda olhou com firmeza para o líder. Este encolheu os ombros. Nunca se importava com a cor dos táxis.

Ao som de Probot "Shake Your Blood"

Malgré tout

A mulher continuava ali, debaixo do pórtico, fustigada pelo vento da madrugada, um vento frio e teimoso que nos entranha a culpa. De mãos enluvadas, parecia-me uma figura de outros tempos, de filme ou de crime. O baton carregado e uns lábios tensos insistiam a imagem. A poucos metros, as águas em remoinho investiam contra o cais, saudosas de um antes longínquo. De pescadores ou embarcadiços, nem névoa. Nem sequer um bêbado tardio.

Quando saí do café, ainda se viam ao longe, as luzes acesas nos quartos mornos e aquecidos dos mortais. Olhei através da porta, de relance, as cadeiras que se amontoavam pelos braços experimentados do dono. Preferia ter acabado a noite com outro álcool. Aquele irritava-me o gosto. Meti as mãos nos bolsos do sobretudo e em ângulo agudo, enfrentei a ventania, em direcção da ponta norte do cais. Já deviam ser as três. Nunca conseguia chegar a horas que se visse. Nem uma vez. Encolhi os ombros e enrijeci os músculos, como numa birra. Ela espera. Esperava sempre...

À hora de romper o sol, mesmo sem ele, já os estivadores faziam fila no cais. De mãos nos bolsos, batendo os pés para aquecer o que resta da alma, de cigarro mal aceso na boca, esperam o capataz, e algumas moedas no fundo dos bolsos remendados. A tempestade amainou, a água ainda mostra rancor e o dia custará a passar. Os estivadores de olhos no vazio, esperam. Esperam a fadiga e a teimosia da vida. A mesma teimosia de uma luva de mulher, que as ondas da manhã empurram contra o cais.

Ao som de Sopor Aeternus "The house is empty now"

De Galileu, nem sinal

Nos pingos de água que caem do tecto e sonoros, desaguam nas lages frias, leio as sinas dos poderosos. Fechado nestas quatro paredes, há séculos demasiados para uma só vida, acordo todos os dias com vontade de assistir a um massacre. Ao que leio nas sinas dos poderosos. E aqui, só, na cadência dos pingos de água que caem no meu reino, desvendo os segredos dos príncipes, dos papas , dos avaros, dos iludidos, dos senhores do ouro e da prata, dos juízes e das rameiras. Escolhem-me todos para a verdade, mas só aceitam mentiras. As deles e as que roubam aos outros. Só, entre o salitre que escorre das paredes, reguardado por uma manta em fiapos e um hábito enegrecido pelo uso, troco de lugar as peças do xadrez num tabuleiro de marfim, pilhagem de outras épocas. Troco de lugar os reis e rainhas, levedando o sexo de cada um, fervilhando os travestidos do poder. Mudo os bispos de lugar, enviando-os a outras religiões. Faço de cavalos, torres, e vergo-lhes a carne em pedra. E os torreões da conquista, transformo-os em leprosos de feira, tragando-lhes as ameias cruas. Aos peões, simples plebeus, deixo-os ir em santa paz. Mas apenas lhes adio o sofrimento e a promessa. No tabuleiro de avesso, escrevo as vontades, as últimas, as que a eternidade nunca me há-de ofertar. E como louco, percorro o quadrilátero do meu cárcere, urrando berros bestiais, afinal a condição de quem determina as leis, de quem serve os poderosos e de seguida os mata.

Passados mais quatrocentos anos, uma bagatela, eu sei, continuo aqui fechado. Sózinho, amontoado. Ainda leio alguma sina. Ainda espirra salpicos, a água que cai do tecto. Nestes séculos a somar, apenas algo mudou. Algo apenas, quase nada, como um brisa serena em dias de tempestade. Mudou a cor do horizonte. O mundo, desapareceu.

Ao som de Das Zeichen "Hundert Jahre Einsamkeit"

abril 19, 2005

Depois do minuto anterior e antes do próximo

De tempos em tempos, descia a rua até ao jardim, sentava-me num banco de onde pudesse ver o coreto e algum mar e ficava ali, sem decisões nem ponteiros de relógio. Via as senhoras de regresso do mercado, alguns gritos de crianças soltos pelas férias, adivinhava um poeta no olhar vago de alguém que passava, a pressa de um seminarista, o suspiro da vendedora de gelados que ainda não tinha feito um tostão naquela manhã. À volta, um frio miudinho, o lago dos peixes vermelhos, o jardineiro que varre as folhas secas, os restos de orvalho que a escuridão gosta de oferecer. E a vida no andar desajeitado dos patos e na menina que colhe flores, de cócoras, sujando a borda do vestido claro.
De tempos em tempos, descer a rua até ao jardim, era a única forma de me convencer a manter-me vivo. Acordava todas as manhãs bem cedo, perseguindo uma sensação de menino, quando quase de madrugada, tremendo de frio, esperava a janela do meu amigo abrir-se e indicar a brincadeira. Era um arrepio de água gelada na cara, os ténis calçados à pressa e escada abaixo, até à porta que teimava em ranger e que eu abria com cuidados de equilibrista. Era a imagem do alfaiate, das plantas nos vasos, dos restos de jogos no cimento molhado, das traineiras que avisavam a chagada, de horas e minutos simples em amanhãs sossegados. E sobretudo ver as coisas como elas são, sem intenções, sem motivos para mudar só por mudar. Ver o adro da igreja como adro da igreja, o hospital velho como um velho prédio sem significado, o café da rampa como o balcão onde se pediam as pastilhas, a rua como o refúgio das alquimias. E quando o sol desaparecia por detrás das nuvens, levantava-me do banco de jardim, olhava em volta à procura de algo que me esquecera e regressava a casa. De tempos em tempos, sorria. Lembrava-me da doca e do quiosque e sorria. Lembrava-me de existir há muito, antes da vida automática, antes das 7 da manhã e dos bons dias de obrigação. Antes dos cafés e dos pacotes de açucar amachucados no pires.
De tempos em tempos, fico mudo e sonolento. Esqueço o caminho até ao jardim e não consigo recordar a cor dos bancos junto ao coreto. Acendo um cigarro e fico a olhar qualquer coisa, enquanto o fumo me faz companhia. E depois de alguns minutos, volto a existir. Por estar aqui...

ao som de Beth Orton "So Much More"

abril 16, 2005

Uma intimidade

Devagar, no meio do caos e da ternura, com um copo de vinho ao alcance da minha mão, reservo-me a um fim de frase. Com a força que uma casa vazia me oferece, desaguo no egoísmo e quero-me só para mim. Viajo sentado, a três mil quilómetros por momento, ultrapassando as recordações e as tentativas de esconderijo. Empurro as portas entreabertas, vagueio de quarto em quarto, desço as escadas mais que uma vez, olho e procuro só para me lembrar de tudo. E tudo ficou ali, escondido na terra revolvida, nos espinhos das rosas que a minha avó plantava, na água que secou no tanque, nos vasos vazios à espera de ontem. E como ontem, o silêncio vem de fora. Aqui há barulho, pratos arrumados no seu lugar de sempre, passos que não se dão por ser tarde. Demasiado tarde. Lá fora, o céu azul resiste à tentação. Vejo-o daqui, sempre com pressa que a noite chegue. E porque a pressa governa o tempo, lá fora já tudo é diferente, as árvores, os peixes, as pessoas e as vendedoras de pevides. Lá fora, o que existe já acabou. E aqui, o que já acabou continua a existir.

ao som de Eurythmics "I save the world today"

abril 14, 2005


ThePriest Posted by Hello

abril 08, 2005

Pausa forçada

A justificação pareceu-me breve. Breve e desajustada. Afinal, tinha assassinado uma mulher. Linda de morrer...

abril 05, 2005

Pausa

O inferno só é confortável, quando sussurrado por uma mulher de voz celestial.

Retrosarias de iluminuras

Predicados que voam baixinho, ostras e velhas obtusas sacudindo o pó dos corpos, o mel escorre em todos os telhados e a neve, essa, vale mil moedas de ouro. Na vertical, só existem escalenos e cavalos de tróia, cegos por maldizer o mundo livre. Dizem que sonham com elefantes invejosos; e na verdade, são o sonho de um marajá. O de Kampur, decerto ouviram falar. Dá ordens só nos dias de meio sol. Veste brocados cor de escola flamenga, no turbante insiste em mostrar uma ametista e bebe todos os dias, ao bater das 7, um chá de honra e limite. É feio, tem os dentes amarelos e no fim de cada lauta refeição, não arrota.
Na horizontal, passam sem cessar caravanas de camelos e homens de barba cerrada. Guardam nos odres água de frutas escondidas e à cintura, carregam o orgulho na forma de misericórdia antiga. Olham o horizonte com a sábia reflexão dos ausentes. Conhecem o sol, a areia e do tempo, tecem considerações perversas. Falam pouco. Nunca riem. Sabem quase todos os segredos do mundo... Quase. Desviam a sua rota de qualquer oásis e quando chegam a uma cidade, é alecrim, salva e hortelã. Ao entrar o portão pesado da urbe, cruzam-se com os mendigos de olhos rosa. Levam no bornal rasgado as vitualhas de trigo e pó. Bebem água das fontes e ao passar por algum casamento, pedem cabaçinhas de vinho novo. Rezam dezoito vezes por dia. Já esqueceram a que deus. Na torre mais alta do bairro mais perto, junto aos minaretes, vive uma menina de cabelos longos e tez prateada. É filha legítima da lua. Nunca conheceu o pai. Tem duas aias: Uma que lhe penteia os cabelos, manejando com a perícia dos hunos, uma escova de marfim e pelo de crina. A outra, de olhos semicerrados e cabelo cor de açafrão, canta versos da Etiópia, entoando as melodias que aprendeu com os tocadores de alaúde. Às cinco da tarde, sem a aflição dos relógios, as duas, a quatro mãos, servem a taça de azeite e múrmurios. A menina olha os corvos que esvoaçam ao longo da muralha e de um trago, bebe a beberagem antiga.
Quando a noite tenta os corações mais apressados, chegam à praça principal os malabaristas e as aves de rapina. Seguem-nas as dançarinas de ventre inchado, palco de fome e blasfémia. Aos gritos, irrompem por entre a populaça os faunos e as serpentes com voz de homem. Vêm de longe, cobrem-se de peles por curtir, espalham a boa nova dos Onze e de manhã cedo, ao raiar da cotovia, fazem-se ao caminho de outras gentes e negócios. Na praça, pelas horas da noite curta, a algazarra é humana. Acendem-se as fogueiras e os archotes, tombam as malhas de ferro forjado e trocam-se saúdes com vinhos sebentos. Vive-se com o vagar das lentidões. Vive-se e espera-se pelo messias... Um qualquer.
Depois de traçada a vertical e a horizontal, no ponto exacto onde se cruzam, nasce um rio de águas tépidas. Vai desaguar na rua das janelas pouco fechadas, onde passeiam as convenções. E porque hoje é dia de fazer de conta, os que restam, os que valem a pena, esticam os dedos, mostram a palma das mãos e recitam em toada, os versículos da idade de todos os dias. Mesmo se hoje é dia de meio sol.

ao som de Gentle Giant "The Runaway"

março 24, 2005

Em frente, na segunda à direita

Do limiar da negação, existe sempre uma rua sem fundo, onde se pode chorar, enterrar subversões, inventar divindades e no fim, seguir o caminho até à esquina seguinte, com a certeza de nunca encontrar becos sem saída. É fatal percorrer uma destas ruas, sem a demora própria de um casamento ou funeral. Deviam ter normas, estas ruas. Avisos ao incauto peão, sugestões de meditação, enfim algo que lhe acordasse a atenção e o incitasse à revolta. O mundo distrai-se com facilidade. Evita parar e perde oportunidades de diamante. Embrenhado numa cadência que não é sua, que lhe foi vendida por alguém sem rosto, segue os passos que fogem à sua frente e acredita em direcções que raramente o levam ao seu destino. Por vezes, esquece o caminho de casa. Por vezes, sabe-o demasiadamente bem. Nestas ruas sem fundo, os outros não importam. Só cada um.

ao som de The The "Kingdom of Rain"

março 22, 2005

Quando ela foge

Sentada à mesa de um café de bairro, esperava o chá arrefecer. Pegou numa revista de ocasião, mas largou-a, certa de não ter pachorra para os sonhos dos outros. Ao balcão, a dona do café quase dormitava. A tarde corria devagar, com pingos de sol furtivos e um calor fora de época. Sorveu o chá, ainda quente demais, sentindo algum veludo na garganta. Abanava a perna ao som de piano, que o rádio desbotado oferecia. Ouviu o eléctrico aproximar-se. Estendeu o olhar e invejou-lhe a rotina. No prédio em frente, algumas janelas abertas, as idosas espreitando junto às cortinas, alguma roupa interior a secar, alguém que escrevia com a outra mão enrolando o cabelo. Nos outros prédios, outros bocados de alguma coisa. Na rua, um estudante de passo rápido e braços pesados de livros e folhas. Uma bicicleta apoiada numa porta de garagem ferrugenta. O cheiro a café usado e coisas de ontem, ruminava-lhe a forma de pensar. Bebeu mais algum chá, morno, ultrapassado. De alguma forma, sentiu-se em casa. Gostava de sonhar que pertencia ali. A este pequeno bocado de vida, pasto de idéias de todos os dias, calado, anónimo, perdido. Queria ficar ali, sem ter de buscar direcções. Ficar ali, alimentando-se de chá e cheiros, abandonada à sua preguiça, vendo os eléctricos levar estrangeiros a outra cidade. Olhou a capa da revista pousada na cadeira e sentiu pena. Das outras e de si. A sua, esqueceu depressa. Recostou-se mais, sentindo as costas da cadeira, tirou um cigarro do maço e acendeu-o com um fósforo. Puxou o fumo com força e deixou-o sair, sem forçar. Pensou na morte, na mãe, no professor que a iniciou para o sexo, no seu quarto, nas poesias que plagiava, nas canções da sua vida, nos bocados de existência que ainda se obrigaria a cumprir.
Levantou a cabeça, como se acordasse de repente de um sono passageiro, bebeu o resto do chá já frio, de um só gole, levantou-se e foi pagar. Agradeceu entre dentes e saiu. Ainda viu o eléctrico a aproximar-se, mas preferiu correr para fora dali. Virou na primeira esquina e desapareceu. Na mesa, agora vazia, só uma chávena e uma revista. Rasgada.

ao som de Paolo Conte "Alle Prese con una Verde Milonga"