setembro 30, 2005



É com enorme emoção, que anuncio a minha candidatura ao vício. Mais tarde, direi qual...

agosto 05, 2005

Por ter de ser rápidamente

Por detrás do sono há uma intenção, um dever solene de regularizar os amores, as entregas de carícias e de ódios de estimação. A nicotina e os papéis quimicos levantam as suspeitas do costume, os presos estão presos, os guardas persistem nas suas rondas e todas as formalidades resistem ao tempo e às flores no caminho. A qualidade compra-se a golpes de sabre, a sementes de girassol descuidadas, a lágrimas com sabor a cereja, a chamadas telefónicas de meio segundo, ou talvez menos. A vida vende-se à velocidade do tempo. As velhas engasgam-se, os recém nascidos contam histórias de assombrar, os paraplégicos riem sem conseguir parar, as rotinas mostram conclusões fundamentais e todas as crianças, todas, vestem fatos de macaco amarelos com letras pretas. O sonho é real, bebe café ao nosso lado, encostado ao balcão sempre sujo de açucar e migalhas. O sonho paga com as mesmas moedas e cospe o hálito a queimado para o mesmo canto. Os uivos e os cigarros mal apagados formam coligações colossais, à medida de um faraó qualquer, ou então, daquele imperador que faz ginástica no gabinete do lado e já não se entende com o telefone pintado de algum tom de cor de rosa. Os envelopes continuam a rasgar-se com fúria e as cartas deitam-se fora sem se ler. Uma mera formalidade. Ou qualidade. Já não me lembro bem. À saída da câmara dos lordes, olho o céu e a estrada deserta, penso nos livros e nos programas de televisão que pretendi não conhecer e grito as palavras de ordem que repeti, uma e outra vez, na penumbra da dispensa da casa do lado. Uma formalidade. Nem estou bem, nem estou mal, apenas espero o inicio da mensagem, da profecia que ainda me faz sorrir, da ordem das coisas, dos tons de amarelo que ainda consigo recordar. Prefiro entrar em contradições, em ruas de um sentido só, nos cinemas que nao resistiram á falência. Não estudo, não trabalho, facilito os encontrões nas ruas cheias de gente. Entendo tudo isto com uma mera formalidade. Ou qualidade. Não me lembro muito bem.
À esquina, está um pedinte que um dia imaginei meu amigo. Páro junto dele, olho o seu olhar vazio, dispo o meu casaco, tiro os sapatos e deixo-os junto aos seus sacos. Com eles, deixo a minha chave do carro e de casa. Com ele, deixo as minhas invenções e as minhas desculpas. Uma mera formalidade. Ou uma qualidade. Já não me lembro bem.

Ao som de CCCP "Io Sto Bene"

agosto 03, 2005

O sorriso do senhor deputado

Doido de ciúme, Cravon bateu com a porta e desceu a rua de empedrado, com passos furiosos e recalcados. A aba da casaca batia-lhe na perna, com o compasso de uma tragédia em três movimentos. Os olhos vagamente lacrimejantes, mastigavam a revolta incontida de anos e anos de confiança e solenidade, misturados com a pureza de coração que desejava sentir e acariciar, fruto de uma mãe romântica e dos costumados silêncios do pai. Sentia-se traído, ladeado por vagas de lodo e mentira, mergulhado numa escuridão ateada pela tarde de sol no alto. Acelerando o passo, Cravon percorreu as ruas que julgava conhecer. Palmilhou-as até se sentir exausto. E mesmo com o cansaço a toldar-lhe a vista, não admitia parar. Queria esmagar com aquelas passadas remoídas o desgosto e a mágoa de nada voltar a ser como dantes. Pensava no suicídio, na desonra, na chacota e na solidão. Pensava sobretudo em fugir para longe e esquecer tudo o que sabia. Ou julgava saber.
Parou por um instante e levou a mão ao bolso, procurando o grande lenço branco para lhe enxugar a testa. Estava alagado. O calor do mês de Agosto, era cruel na cidade. Ao tirar o lenço, sentiu algo cair no chão. Olhou abismado para uma pulseira negra, de pontas douradas, que se tocavam como um beijo furtivo. Baixou-se, pegou-lhe e sentiu uma dor aguda. Uma das pontas, demasiado afiadas, entrou-lhe na carne e sugou-lhe algumas gotas do seu sangue. Quando levou a mão à boca, a estancar a ferida, jurou sentir o sabor dos beijos dela. Os que trocavam furtivamente, debaixo das arcadas do convento. Olhou admirado a jóia, como se assistisse a uma assombração. Desejou estar enganado, ser vitima de uma maquinação, estar louco, permanecer defunto. Encostou-se à parede desbotada, como se cambaleasse por uma tontura. Olhou uma vez mais a pulseira, medindo-lhe a infâmia. Olhou em frente, vendo as ondas de calor sobre o lajedo, alcançando a pedra despida dos muros do hospício. Sem saber como, sentiu alento. Compôs a gravata, os punhos da camisa, puxou a casaca com brio, soprando-lhe a poeira e avançou decidido, com um sorriso nos lábios.
Chegado ao portão enferrujado do instituto, tirou o chapéu e pediu para falar com o encarregado. Foi recebido com cortesia e disse ao que vinha:
- Quero fazer-me instalar. Sou doido varrido, perigo a segurança alheia, desejo o mal a todas as criaturas vivas e pretendo a ruína do mundo. Faça o favor, leve-me e proponha-me o vosso tratamento mais rigoroso.
Sem mostrar qualquer surpresa, o encarregado sorriu com gentileza deslocada e com um brilho terno no olhar:
- Meu caro, não pode ser. Acredite que compreendo as suas motivações. Não as conheço, mas compreendo. Mas a verdade é que não pode ser. - A razão da recusa começava a ganhar forma. - Os regulamentos são inequívocos. A maldade, o crime de sangue, o estupro, até o caos, não são prova de demência ou imputabilidade. Apenas humanidade, espirito de sociedade, percebe. Não posso encerrá-lo numa cela, submetê-lo a um tratamento cruel e quiçá feroz, atirá-lo ao esquecimento até ao fim do seu tempo, apenas por demonstrar cidadania e normalidade. Sabe que mais, com esses propósitos empreendedores, essa solenidade discreta e essa filosofia de vida tão vincada, concorra ao Parlamento, faça-se político, ainda vai a ministro.
Cravon ficou imóvel por alguns segundos. Sem atingir completamente o porquê, encontrava nas palavras do encarregado a verdade do mundo. Pelo menos, deste lado de cá do mar. Reconheceu-lhes dignidade, até alguns resquíceos de uma a amizade que podia ter existido. Compôs a gravata, os punhos da camisa e apertou vigorosamente a mão do encarregado:
- Compreendo. Agradeço-lhe a atenção. Acredite no meu eterno reconhecimento. Boas tardes.
Pegou no chapéu e saíu. Desceu o passeio até à entrada, rodeado de árvores e plantas raras, numa alegoria de oásis. Tirou o chapéu ao porteiro e seguiu pela rua junto ao rio. As suas passadas tinham perdido a fúria. O seu sorriso sereno, prometia bonanças. Levou a mão ao bolso e os seus dedos encontraram a pulseira negra. Tirou-a, abriu a mão à luz do fim do dia e com um suspiro milenar, atirou-a ao rio.
Coberto de confiança, Cravon compôs a gravata, os punhos da camisa, puxou a casaca com brio e avançou decidido, com o sorriso nos lábios.

Ao som de Carlos Libedinsky "Otra Luna"

junho 19, 2005

Mesmo se pensares para outro alguém

E depois, por detrás da mesa e das garrafas vazias, dependendo do relógio parado e do telemóvel desligado, com a camisa rasgada por um impulso, fibrilhando a noite com o resto de tarde e preferindo um hálito a cerveja vermelha, fico pouco quieto à procura de palavras vãs. Relego-te para o último lugar da espécie. Prevejo o teu desalinho, as meias rasgadas, as ligas presas no suor. E na boca um cigarro apagado à espera de um isqueiro... ou de um fósforo. Penteio-te com modos virtuais, aspirando o perfume dessa juba negra que me indicia a transgressão. Peso o teu valor de fêmea entre caixotes de tecidos e fardos de palha seca. Pergunto-te a idade, mas respondes-me com um rugido. Ou uma ameaça, não me lembro bem. Enquanto decido passar a língua nos teus pés nus, insisto no grau de condessa que possuis. É tarde, na escala dos humanos. Na tua, apenas atraso.

junho 08, 2005

Três pancadas na porta

As calças de cabedal como almofada e os longos cabelos em forma de lençol, trairam-me a pausa. Olhei para ela como um menino de coro. Creio que corei. Apanhei a camisa amarrotada e atirei-a para cima da cama. Passei as mãos pelo cabelo e senti-me meio adormecido. Estava acordado há quase dois dias. A boca sabia-me a tabaco e a restos de café requentado. Afastei as cortinas e olhei pela janela. A mota estava lá fora. O carro também. Coberto de pó. Sentei-me no sofá vermelho e tirei as botas a custo. Encostei-me e deixei-me ficar.
Quando acordei, não abri logo os olhos. Tinha a certeza que ela se tinha ido embora. Esperei os segundos que me pareceram os bastantes e vi a cama desfeita. Vazia. Na minha inocência, procurei algum bilhete escrito. Sorri. À falta de palavras, estava uma garrafa cheia na mesa. Dois copos. E no cinzeiro, um cigarro quase intacto. Num dos copos, como um presente de Natal, a marca de baton. Levantei-me, entrei na casa de banho e liguei o duche. Despi-me, olhei-me ao espelho com masoquismo e entrei na banheira. Demorei imenso tempo. Fechei as torneiras, usei a toalha e deitei-me na cama, sem me tapar. Não tenho cabelos compridos.

Ao som de The Dickies "Nights in White Satin"

junho 02, 2005

Aos sábados e domingos também

Esta é para quem insiste que estou zangado...

Ao almoço, salada de tofu com laranja, alface e nozes. E água. Muita. Depois, a intenção beliscada com um café. Depois, frases de circunstância avaliadas como verdades universais. O sorriso, a cumplicidade, a porta da saída. Um até logo cheio de coisas que não é preciso repetir. E com o vento na cara, sem reparar nos outros que nos seguem o caminho, regressa a gargalhada, o céu azul com um calor moreno e a intenção de pêssego e ameixa.
Acredito que ainda vale a pena. Quase tudo. Quase, porque não encontro meios absolutos. Acredito que ainda há sol a esperar, nomes para gritar ao fundo da rua, sonos à beira da água, candeeiros de abajour acesos toda a noite, segredos que só se contam baixinho, beijos açucarados, água fresca e letras de canções. E no fim e no depois, ter tudo outra vez. Voltam a ser dez da manhã, os barcos regressam, as janelas estão abertas e o olhar reconhece a candura de todos os dias.
Insistir é a prerrogativa dos complicados. Os outros, os que sabem existir, apanham a maré e deixam-se desaguar. Todos os dias.

Ao som de Steve Harley & The Cockney Rebel "Make Me Smile (Come Up and See Me)"

maio 31, 2005

Evidentemente

Enquanto espero pelo duche, olho o relógio na parede e sei que já é noite. Com o cabelo em desalinho, acabado de levantar de um dia coberto de preguiça, entendo ser prioritário um cigarro e o resto de uma cerveja morna. Olho no tecto o fumo a tentar fugir, procuro em cima da mesa as razões para recusar a inquietação, apago o cigarro e com o robe na mão saio do quarto.
O corredor com a passadeira aveludada é comprido e tem todas as portas fechadas. De um ou outro quarto, ouvem-se ruídos de circunstância. A única circunstância. Sinto que esqueci os chinelos mas nem por um milhão, volto para os buscar. Quando chego a porta da casa de banho, como se de um ritual se tratasse, coloco a palma da mão direita, muito aberta, na superfície polida de madeira escura. Espero um momento e abro a porta. O vapor escapa-se pela abertura. Entro e fecho a porta com algum cuidado.
Lá dentro, a rapariga oriental espera-me. De sorriso indefinido, veste calças carmesim com desenhos dourados, e umas chinelinhas pretas com atilhos dourados. Está despida da cintura para cima. Tem o cabelo solto, ao longo das costas nuas. Sinto uma intimidade violenta neste último pormenor. Ela tira-me o robe das mãos e pendura-mo com alguma solenidade. Com um gesto estudado, oferece-me todo o espaço. Dispo as calças do pijama, passo os dedos pelo cabelo e entrego-me. Ela saberá tratar de mim, melhor que eu.

Ao som de Madonna "Justify My Love (Deep Dish Even Deeper Mix)"

Selva

Remarcar o compasso de um assunto entre dois corpos e depois, insistir na fragrância de um momento a sós. Era cedo, preparava-se uma trovoada com a teimosia de um vento de sul, a roupa à janela ondulava de inquietação, o meu olhar percorreu o corpo dela, sem pensar em apetites nem consequências. Habituei-me a vê-la quase todos os dias, mas desta forma acho que nunca. De mãos nos bolsos, sem sorriso, encostado ao fogão, bastava-me violá-la com os olhos, revirá-la do avesso, sem intenções, demorando solenidades nos seios, nos vincos das coxas, num imperceptível gesto de entrega que se alongava ao ritmo da minha imobilidade. O telefone tocou e nem me apercebi quando o atendedor apitou. Os copos e as chávenas sujas em cima do lavatório, esperavam em silêncio. Ela quis sorrir e não conseguiu. Eu acho que a queria muito séria, quase zangada ou mesmo triste. Acho que fazia parte da fantasia. Acho, mas não tenho a certeza. Avancei, agarrei-a pelos ombros como se a fosse repreender, mas deixei escorregar os braços pelas suas costas suadas. Ela não se mexeu. Beijei-lhe o pescoço com uma sofreguidão que não me conhecia. Mordi-lhe o ombro e lambi a marca dos meus dentes. Olhei-a, olhos nos olhos, passei o meu polegar pelos seus lábios e forcei, à procura da língua. Ela resistiu. Pareceu-me que lhe tinham brilhado os olhos. Nesse preciso segundo, abracei-a e puxei-a com demasiada força para o chão. Sem oferecer qualquer resistência, abriu as pernas e enlaçou-me como se fosse um animal. Então, olhei os seus olhos uma última vez e aceitando o empenho, fui também animal.

Ao som de La Floa Maldita "L´Enfer Confortable"

maio 30, 2005

Permilagens

Em silêncio. Baixinho. Muito ao de leve, sem perturbar, afastando as almofadas como penas, olhando os ângulos das paredes muito quietas, frágeis, tudo no lugar de ontem, sem vozes, sem mãos que procuram mais e mais. Num tom de preguiça descoberto à toa, as páginas não se mexem junto à brisa que fica na janela fechada. Os livros, as cartas seguras por laços cor de mimo, a caneta fechada em dó maior, os segundos sentados no sofá, atentos, com os olhos em desafio de vantagens neutras, secretas, pedras de altar numa cripta isolada em papel de lustro. As faces, imóveis, solarengas, a vela apagada envolta em musgo de Dezembro, a caixa de fósforos vazia, o casaco deitado a dormitar, a porta entreaberta, á espera dos convidados curiosos, pisando tapetes anónimos e nos copos vinho terno. Pela persiana mourisca, a nuvem e a ladaínha que vem do Norte, sobem no parapeito e segredam rebuçados de morango. Nas bocas há paladares furtivos, vontades mornas vendidas a cêntimo, escolas de paredes brancas, dois pés esperando a hora dos barcos passar.
E quando a noite chegar, calada num colar de pérolas fingidas, permitindo o veludo e o suspiro, em silêncio, baixinho, vou murmurar as linhas que ainda me faltam. Só para eu ouvir.

Ao som de Joe Satriani "Canon (Acoustic Version)"

maio 25, 2005


Veludilho Posted by Hello

Pausa

Hesito: Um dia de veludo ou de seda...

De sol no alto

As manhãs são agiotas sem perdão. Exigem esforços impossíveis, dentro de redomas, faíscando ao sol da diferença. Querem-nos mal, as manhãs, reprovam a audácia das noites intermináveis, ferem o romance que só existe no sonho, precipitam o amor que navega por entre almofadas e e gemidos de preguiça. São arautos da manha e da tortura, as manhãs viradas a nascente. Sussurram promessas vãs, paixões desordenadas de silêncios comprometidos onde o beijo é bocejo madrugador. São vis, as manhãs de direcção única. Os becos sem saída dos fiéis.
Gosto de as confundir com uma voz de seda. Uma voz que matina uma canção de encantar. Um cigarro prometido, uma chávena de café sem pátria, um restolhar de lábios ávidos de serão. À beira dos carris de um eléctrico atrasado, um bairro dolente, onde as primeiras horas de luz são fadiga muito atenta. Uma porta entreaberta, uma promessa sem final, um dia de insiste em começar, mesmo quando vazio.
As manhãs perturbam os gestos lentos dos deuses. E como eles, também eu não encontro o norte. A bússola de marfim, ainda dorme, coitada.

Ao som de Eskobar featuring Emma Daumas "You Got Me"

maio 20, 2005

5 e meia da manhã, sob o temporal

Sem horas desfeitas
nem minutos perdidos,
conto histórias de pessoas,
de amores
amanhecidos pela ausência de vento,
sós
nas horas de neblina
e pó de arroz.

Na voz enrouquecida
de um jardim em repouso,
um suspiro
é o bastante.
Procuram-se nas mãos,
os esquecimentos de praia,
os degraus do museu,
a vaga suspeita de quem se apaixona num repente.
Mordisca-se uma maçã
num apetite que tarda em regressar,
ouvem-se canções de embalar
com os olhos muito abertos,
onde sorver é razão.

Nos horizontes
guardados no bolso,
estão as fraquezas,
os beijos intermináveis,
os verbos conjugados em suor.
O colchão ficou perdido,
nas ruínas de uma casa que caminha em paz.
A luz do candeeiro de rua,
já não sabe acender.
A lentidão dos dias sem azul,
a esquina que perdeu a memória,
o cheiro de um bocado de noite,
a capa do disco que fala em armários e balas.

E depois dos calendários,
depois das fadas e dos editais,
à beira do rio
num segundo,
rimos longe um do outro,
mortos para o reencontro,
suaves para a sedução.

Mim

A qualquer hora da noite, esfrangalhando células e faltas de apetite, há um ponto de onde não se pode regressar. São 2 horas e 45 minutos e a distância que me separa da auto-estrada, é maior do que a chave na porta de entrada e do botão do elevador. É esta mania da perfeição, da gravação exacta, das chaves do carro na gaveta, do isqueiro meio cheio e da bebida esquecida no copo. É uma irritação que não descola, um algodão encharcado de álcool que se passa no pescoço e refresca o instante. Um minuto mais na conta que o tempo insiste em apresentar, mesmo antes da sobremesa.
Não gosto de falar em noites perdidas. Não acho que as tenha perdido. Encontrei sempre qualquer coisa brilhante, em todas elas. Começar ou terminar um vício, bocados de sono, canções que nunca tinha ouvido com cuidado, vontades ou amanheceres. Não gosto de falar dos momentos escondidos da minha infância, mas não há noite que deixe passar em claro o que fiz, o que deixei de fazer, os caminhos, as manhãs bem cedo, a areia, os tufos amarelecidos pelo vento, as páginas soltas de histórias que me diziam respeito. Lembro cada momento, cada minuto que vale a pena retornar, como frases e palavras que nunca disse a ninguém. Guardo-as sem lhes reconhecer a dicção. É como uma fábrica que só depois de morta me apaixonou. Vagueei pelos seus escombros, toquei nas paredes esgravatadas, demorei-me junto aos ferros retorcidos, desejei entrar na miragem de algumas placas incompletas, tornei-me curioso da ruína e da desolação. E lembro-me dela como uma mulher. Uma que se quer esquecer, mesmo se regressamos onde a vimos pela primeira vez. Mesmo se fugimos dela em linha pouco recta.
Os fins abruptos provocam-me uma certa amargura, mas este, imponho-me a mim mesmo.

Ao som de Sofa Surfers "Sofa Rockers (Richard Dorfmeister Remix)"

maio 05, 2005

Fresta

No bolso esquerdo, o isqueiro que a mulher da sua vida lhe deu. Na gaveta, o relógio relembrado tantas vezes. Na porta da rua, as chaves e a serigrafia de um homossexual assumido, de dentes amarelos e casaco branco de lã grossa. Nos tímpanos, a canção de sempre. A que fala do amor, do celulóide e de um espasmo calmo e mudo. Na boca, um charuto com sabor a ilha e uma tentativa de sorriso. Nos olhos, os contornos turvos dos prédios e os seios escolhidos. No tacto, as chaves do automóvel. No olfacto, o copo. Na idéia, turbilhões, amidos azul claro, tormentas com chuva curta, peles que se tocam, perfumes. Na alma, seja lá o que isso significa, a encruzilhada. E na realidade, todos os caminhos.

Ao som de The Passions "I´m in love with a german film star"

Chambre de Nuit

No conforto do canto escuro, é bom esperar pelo fim. Mesmo se o fim , não é o que se escolhe. A almofada entre os braços e o amigo imaginário ao lado, muito atento e muito calado, são o começo perfeito para qualquer fim. Trauteie-se uma canção que fale de miragens e deixe-se os minutos tomarem conta do resto. Já não se ouve a vida passar, mesmo se o movimento continua lá fora. E depois, não faz mal se o telefone não toca, ou se as cartas chegam sempre abertas. O interesse é coisa de ontem. Cheira a bafio. Aqui, no canto escuro, as histórias andam por outras estradas. Basta mudar a posição do corpo, nem que seja um milímetro, para o destino ter outro contorno e a razão, sabor diferente. As cores têm tons de pausa. Aqueles tons de quem espera uma fatalidade. É o que acontece nos cantos escuros: Esperam-se fatalidades, como comboios atrasados, convencidos da sua importância capital.
E alturas em que o canto escuro é só um suspiro ou um ronronar aconchegado. São as horas da condescendencia e do chá arrefecido. São as contas de uma pulseira que estava no sotão, coberta de pó. São as migalhas do bocado de pão que enrijece em cima da mesa. São as bolachas que sabem melhor amolecidas. E com a almofada entre os braços, tudo parece flanela e muito limpo.
É assim o canto escuro. Doce e amargo como uma canção do tempo da guerra. O fim tarda em chegar, ficam os pés dormentes a as pernas, doridas. E num repente, o canto escuro é uma sala de baile envelhecida, mal iluminada, onde no canto mais escuro, uma banda ultrapassada toca canções vagas e dolentes que apetece ouvir. As cadeiras são de veludo gasto e os reposteiros pesam nas arcadas. O relógio, descomunal de dourados impossíveis, está parado e o tempo, interrompido. Se existe vida em mais algum lugar, ela é dispensável. Aqui, no canto escuro, espera-se o fim. Um qualquer. Mesmo se não é o que se escolhe.

Ao som de Les Negresses Vertes "Leila"

maio 03, 2005


Makura Posted by Hello

Por instantes

Antes do filme acabar, amachuco as cartas de amor e num repente, saio em direcção à chuva. Páro no meio da rua e sem destino preferido, fico a ouvir o ruído molhado que toca no chão. Não me consigo mexer. Sou encharcado sem timidez ou sedução. Apenas quero sentir a chuva na cara e nas mãos, deixar as gotas de água escorrerem sobre mim, soltas, possíveis. O balanço das árvores, as luzes dos apartamentos, os passos longínquos que fogem da tormenta, um alarme esquecido, um néon, um bocado de cidade. E debaixo das gotas cheias, com o caos ali tão perto, rodeio-me da serenidade mais pérola deste mundo. Vejo num segundo as imagens que me modelaram. O topo do edifício, a morte que se aproxima, a mão ensanguentada, uns olhos azuis, gulosos de vida, um medo que se esfuma, a violência que no instante seguinte já não existe. E a chuva, terna, lunática, absolvição de uma última noite. Como agora, nesta rua, sem horas, só, a chuva como senhora de um desejo que não sei explicar. Como estas palavras que não deveria mostrar.

Ao som de The Paradise Hotel "Drive"

abril 30, 2005

Laço sem corda

Queres-me? Não sei se deva desdobrar-me e mostrar o contorno dos segredos cor de deserto. Vou pensar nisso. Os minutos que demorar a minha escrita. Mais que isso, não. Seria doentio. Ou indiferente.
Sabes, li com vagar algumas linhas que a brisa de fim de tarde teimava em estremecer. Por entre os cortinados, os contornos da cidade são sempre esguios e atraentes. É por isso que baixo os estores quando tenho a janelas abertas. Sinto o sopro do mundo lá fora, mas mantenho o meu egoísmo intacto. Intocável. Imaculado. É isto, arrastar a existência entre tabacos horizontais e alguma filosofia de pacote, ziguezagueando nos passeios e nas esplanadas de café de bairro, esgotando as matrizes rodoviárias em manobras acidentais e repetindo as mesmas ruas, outra e outra vez.
Às vezes, atravesso a ponte, só uma delas, vagueio na outra margem à procura de cenários para um filme, imitando estrelas de rock, cansadas pelo vai-vém do seu sucesso, mudos pelo halo brilhante da ignorância que escolheram. Sofro de vertigens. Encho-me de iogurtes com sabores estranhos, encarando o objectivo de me sentir outra pessoa. Bebo chávenas de café com açucar. Peço sempre a mesma marca de álcool. Repito com fervor religioso, o local de suicídio. Alcanço nas canções que levarei para uma ilha deserta, a perfeição e a fé. Em suma, escrevo por um sentido de estado, uma responsabilidade caótica de desmaiar durante a entrega do prémio nobel, um desvio na maré inconcebível do marasmo. E isso não será amor?
Ainda penso. Nisso? Não sei.

Ao som de Rheingold "Dreiklang Dimensionen"

Mais subtilezas

Sibilando por uma rua íngrime, ladeado por vidros partidos de montras saqueadas, permito-me a derradeira lata de veneno. De olhar firme e sorriso permissivo, sinto um pisar duro sobre o pavimento encharcado. Em desafio, procuro no céu azul claro um sinal de exactidão. Satisfeito pela fugaz vitória, marco a subida com passadas directas, entoando um refrão que não ouvia desde os meus dezasseis. Há duas horas que decretei estado de sítio. Matei com tiros certeiros os oficiais de patente superior e aos sargentos, fechei-os nas masmorras a céu aberto. A comissão que enviei ao palácio presidencial, já deve ter terminado. No fogo posto à assembleia, ainda se vêem as colunas de fumo. Dos civis, mais de três mil permanecem mortos. Os feridos, teimo em não contabilizar. E por desdenhar artilharias pesadas, dispensei os meus guardas rebatizando a sua função. Estão caídos, numa atitude de extermínio.
Ao chegar à esquina, com a rua dos quiosques amarelos, viro à direita e antevejo ao fundo o largo do quartel. Ao pisar o lajedo da praceta, procuro com alguma avidez a porta entreaberta do café. Atravesso o largo, sem pisar os corpos imóveis no chão e preparo o palato num hedonismo violento. Num gesto infantil cravejado de saudade, pontapeio a porta e entro no café. Todos os clientes jazem retorcidos. Sobre o balcão, um empregado desafia a gravidade. Empurro o cadáver para o lado e encarando o criado ainda de pé, ordeno delicadamente.
- Um café, com um pau de canela.

Há prazeres que valem o esforço.

ao som de Oberkampf "Couleurs sur Paris"