dezembro 15, 2005

Faltaste ao pequeno-almoço

Espero-te na esquina. Na de sempre, a que reconheço até nas manhãs de nevoeiro cerrado, a que guarda o fumo dos cigarros e as palavras que deixo cair enquanto te espero. Imaginei-te repleta de pormenores antes de te ter visto pela primeira vez. Estava na esquina. Estava frio, um frio doce de açucar queimado às 7 da manhã. Procurei-te junto ao rio, no nascer do sol, na silhueta que passou ao longe apressando o passo para o autocarro. Procurei-te entre as escadas e no andar dos livros, ao balcão de tantos cafés, nos semáforos e nas cores que teimas em deixar onde páras para olhar as montras. Sem entender a ousadia, procurei-te nas mesas vazias junto ao bar. Procurei-te ao soar a música e entre as cabeças que ouvem de cor. Procurei-te entre a multidão, quase certo de um milagre ou de uma coincidência. Ao reencontrar-me só, regresso à esquina de sempre, à espera do afago do passeio descendente e das janelas sempre fechadas do prédio de varandas acabadas.
Ainda te espero. Um dia, um qualquer sem te esperar, nem querer. Na esquina, na de sempre, ou à porta do teatro ou numa passadeira rolante que nunca acaba. E no dia que não te esperar, vais aparecer. Com uma cor qualquer, de livro na mão, com um sorriso que tens só para ti e não dás a ninguém. E se te esperei de manhã, aparecerás à noitinha, antes de um jantar a uma hora que não se procura no relógio. Vais entrar, olhas em volta e sem ver o que procuras, vais encontrar. Eu espero-te. Na esquina de sempre. Sem te dizer qual.

Ao som de The Beloved "Sweet Harmony"

novembro 04, 2005

Depois do baile acabar

Quando a chuva se acabar, quando as nuvens se fartarem da morada, depois de algum percalço menos medido, não restará mais que a última direcção. Já experimentaste todas as outras? Sabes onde acabam?
Eu, por mim, sentei-me durante dias na encruzilhada. Pensei nas direcções, onde terminavam, quem procuravam nas bermas cheias de pó e erva, em que casas passavam a noite. De vez em quando levantava-me e punha-me a caminho. Antes do fim, voltava para trás. Aprendi as respostas sem ter de conhecer os pontos finais. Percorri todas as direcções, menos uma. Percorri-as até antes do fim. Nunca cheguei a saber se o fim estava perto. Sabia que estava lá, e isso bastava-me. Percorri-as todas, menos uma. Não a escolhi por acaso. Tirei-lhe medidas, pesei-a, observei-a de perfil e dos outros ângulos também. Não lhe dirigi palavra. Percorri-as todas. As outras. Quando regressava delas, sentava-me no mesmo sítio e esperava a resposta. Sempre sem conhecer os pontos finais. Não me fazem falta. Quando anoitecia, puxava do meu lenço, abria-o e com o cuidado de quem conhece as respostas, pegava num bocado de laranja e comia descansado.
Passou-se muito tempo, desde estes dias. A encruzilhada está mudada. As direcções já são outras e as respostas também. Dos pontos finais, não ouço falar há muito. Como não gosto de máquinas, deixo-me ficar sentado à espera de voltar a precisar dos meus passos. Antes não. Ainda tenho alguns gomos de laranja.

Ao som de The Smiths "How soon is now"

El Diablo


Sabes reconhecer o diabo, quando se cruzar contigo numa rua de movimento?

outubro 28, 2005

9 menos um quarto

O lado menos colorido das coisas, obriga-nos sempre a conjecturas demasiado simplistas. Olha-se o lado escuro de uma pedra, o leite que espera a sentença no fundo de um copo, o fósforo apagado depois de morto, a meia pegada junto ao passeio. Encolhem-se os ombros, pede-se piedade, pena, jeitinhos de hortelã e mantas gastas, um resto de saúdezinha de um pacote mesmo no fim. Vira-se a cara para o lado, procuram-se natais, ruas iluminadas, esquinas de portas abertas. E depois, escondem-se os sonhos por realizar, as bocas por alimentar, os perfis da derrota e todas as boas intensões do mundo.
Depois de anoitecer, os sem abrigo voltam aos seus caixotes, as ouriversarias fecham as portas de ferro, as meninas jantam nas salas aquecidas junto à cozinha, o velho do quarto alugado por cima da loja de ferragens assusta-se com o fim da vela. Sabe que os fins estão no fim da rua, à espreita. Gostam de apanhar quem se distrái. Gostam de aparecer sem convite, nem porta aberta. Gostam de surpresas. Depois de anoitecer, as chávenas de café têm outro sabor. Sabem a culpa. Sabem a dia gasto.
Se te acontecer encontrar o lado menos colorido das coisas depois de anoitecer, esconde-te no primeiro vão de escada e espera. Espera toda a noite, se for preciso. E se não gostares de fins, espera de olhos abertos.

Ao som de Blackfoot "Diary of a working man"

outubro 11, 2005

Sem esperar

Outro lado do mundo que estiver certo

Nunca fui. Nem sei se terei coragem de lá chegar. Tão pouco adivinho se algo ou alguém, espera pacientemente a minha chegada, porque paciência nem todos a têm. Creio chamar-se Soledad. Mas posso ter-me enganado. Ou então, enganaram-me. Já aconteceu. Deve ter uma família, daquelas cheias de primas e tios, cunhados de olhar diurno e vizinhas que conhecem as histórias e os segredos. Devem almoçar ao domingo, amontoando-se ao lado dos gritos das crianças e das ladainhas dos mais antigos. Reparte-se a fartura com a fome dos outros dias. Dão-se graças, apenas porque sim, porque já os outros as davam. Vive-se.
Eu ainda aqui estou. Preferi sentir-me cómodo. E preferi a segurança da Calle Amberes. Por uma vez, a Zona Rosa possui a cor perfeita. Na varanda do quarto de hotel, fazendo esperar a chávena de café a ferver na Plaza Garibaldi, acabo um cigarro adoçicado e medito no meu egoísmo. O tal que me decidiu esconder aqui, longe de quem já perdeu a paciência de me esperar, de quem olha os filhos numa adoração desmedida e nunca sabe o dia de amanhã. Talvez amanhã procure este destino. Ou então, um outro qualquer. Um que me espere impacientemente.
Deixo cair o que resta do tabaco, piso os vestígios ainda acesos, olho uma última vez o edifício da American Express e saio do quarto deixando a janela aberta. O ar condicionado nunca funciona. Desço, atiro as boas noites ao Salvador que me responde em rima e fundo-me com a multidão. Na esquina com o Paseo de la Reforma, talvez incomodado com este rio de riqueza entre lixeiras e bairros miseráveis, decido deixar esfriar a chávena de café e procuro um táxi para regressar à existência normal. Espero bastante tempo por um vermelho. Não me sinto com muita sorte para tentar outra cor. Vou a Las Aguilas, bem depois da Barranca del Muerto. Ali vive Soledad. Lembrei-me de lhe ir conhecer os olhos, adoçar a boca das crianças com alguns rebuçados, ouvir as frases feitas dos avós. Lembrei-me de sentir a vida como ela realmente é.
A verdade é que sou demasiado óbvio. Não cheguei a Las Aguilas. Não conheci os olhos de Soledad. Apanhei o táxi, um vermelho bem sujo, guiado por um velhote de dentes podres.
- À donde, patrón?
Hesitei, num gesto próprio dos que não sabem o que fazer do tempo.
- À la Tabacalera.
- Si patrón.
Recostei-me. Doíam-me os rins. Tinha passado a tarde a escrever. Baboseiras e lugares comuns. Demasiado tempo livre, esta é a verdade.
- Dejéme en el Oxford. - O condutor sorriu. Conhecia o destino. Olhou-me pelo espelho e tentou adivinhar-me a tara. Voltou a sorrir, encolheu os ombros e acelerou sem vontade.
Boas intenções. O papel de parede do inferno. Enquanto Soledad olha os filhos que adormecem sob o carinho da mãe, eu, egoísta, bebo o álcool viciado e observo as putas com idade de velha, que se bamboleiam ao som dos tristes boleros que Carlitos insiste em tocar. Pacientemente.

Ao som de Brian Eno & David Byrne "Regiment"

outubro 02, 2005

O lado do mundo que estiver certo

Nunca fui ao Tibete, embora sinta que algo ou alguém, espera pacientemente a minha chegada. Algo, ou alguém, enrolado num cobertor, talvez em farrapos, olha de relance quem desce do último autocarro, mede os seus passos, as suas exclamações, e me procura tarde após tarde por entre a poeira e o cheiro a chá requentado dos vendedores de rua. Eu, egoísta, faço-me esperar como se de um alto dignatário me tratasse, empolando a minha vaga importância num mundo tão prenhe como o que existe no Oriente, ignorante de contrapartidas e variações. Em Lhasa, alguém retarda a sua vez de comer algumas migalhas ou molhar os lábios num chá fumegante, sentado num degrau junto aos autocarros parados. De vez em quando levanta-se, estica-se um pouco, olha as águas do Kyichu e retoma a missão que sem razão aparente lhe foi confiada. Eu, sentado ao computador, fumando um charro com um prazer contido, perguntando-me as razões para tanta agressividade infantil, esfregando os olhos para retardar qualquer lágrima, de dentro da minha t-shirt dos New Order não compreendo este provérbio antigo que me espera pacientemente do outro lado do mundo e prefiro, por agora, ignorar o que nem sei que nome dar-lhe. E ainda assim, no meio das cabeças que descem os degraus sujos dos autocarros, procura-se a minha. A minha cabeça está a prémio. Mesmo se um prémio ínfimo, desajustado ao valor que aqui no Ocidente, apreçamos a existência, o tempo ou a necessidade.
Por enquanto, espero. Espero pelo cartaz que valorize a minha captura. Espero é valer alguma coisa que se veje.

Ao som de Aes Dana "Skyclad (High Frequencies Version)"

setembro 30, 2005



É com enorme emoção, que anuncio a minha candidatura ao vício. Mais tarde, direi qual...

agosto 05, 2005

Por ter de ser rápidamente

Por detrás do sono há uma intenção, um dever solene de regularizar os amores, as entregas de carícias e de ódios de estimação. A nicotina e os papéis quimicos levantam as suspeitas do costume, os presos estão presos, os guardas persistem nas suas rondas e todas as formalidades resistem ao tempo e às flores no caminho. A qualidade compra-se a golpes de sabre, a sementes de girassol descuidadas, a lágrimas com sabor a cereja, a chamadas telefónicas de meio segundo, ou talvez menos. A vida vende-se à velocidade do tempo. As velhas engasgam-se, os recém nascidos contam histórias de assombrar, os paraplégicos riem sem conseguir parar, as rotinas mostram conclusões fundamentais e todas as crianças, todas, vestem fatos de macaco amarelos com letras pretas. O sonho é real, bebe café ao nosso lado, encostado ao balcão sempre sujo de açucar e migalhas. O sonho paga com as mesmas moedas e cospe o hálito a queimado para o mesmo canto. Os uivos e os cigarros mal apagados formam coligações colossais, à medida de um faraó qualquer, ou então, daquele imperador que faz ginástica no gabinete do lado e já não se entende com o telefone pintado de algum tom de cor de rosa. Os envelopes continuam a rasgar-se com fúria e as cartas deitam-se fora sem se ler. Uma mera formalidade. Ou qualidade. Já não me lembro bem. À saída da câmara dos lordes, olho o céu e a estrada deserta, penso nos livros e nos programas de televisão que pretendi não conhecer e grito as palavras de ordem que repeti, uma e outra vez, na penumbra da dispensa da casa do lado. Uma formalidade. Nem estou bem, nem estou mal, apenas espero o inicio da mensagem, da profecia que ainda me faz sorrir, da ordem das coisas, dos tons de amarelo que ainda consigo recordar. Prefiro entrar em contradições, em ruas de um sentido só, nos cinemas que nao resistiram á falência. Não estudo, não trabalho, facilito os encontrões nas ruas cheias de gente. Entendo tudo isto com uma mera formalidade. Ou qualidade. Não me lembro muito bem.
À esquina, está um pedinte que um dia imaginei meu amigo. Páro junto dele, olho o seu olhar vazio, dispo o meu casaco, tiro os sapatos e deixo-os junto aos seus sacos. Com eles, deixo a minha chave do carro e de casa. Com ele, deixo as minhas invenções e as minhas desculpas. Uma mera formalidade. Ou uma qualidade. Já não me lembro bem.

Ao som de CCCP "Io Sto Bene"

agosto 03, 2005

O sorriso do senhor deputado

Doido de ciúme, Cravon bateu com a porta e desceu a rua de empedrado, com passos furiosos e recalcados. A aba da casaca batia-lhe na perna, com o compasso de uma tragédia em três movimentos. Os olhos vagamente lacrimejantes, mastigavam a revolta incontida de anos e anos de confiança e solenidade, misturados com a pureza de coração que desejava sentir e acariciar, fruto de uma mãe romântica e dos costumados silêncios do pai. Sentia-se traído, ladeado por vagas de lodo e mentira, mergulhado numa escuridão ateada pela tarde de sol no alto. Acelerando o passo, Cravon percorreu as ruas que julgava conhecer. Palmilhou-as até se sentir exausto. E mesmo com o cansaço a toldar-lhe a vista, não admitia parar. Queria esmagar com aquelas passadas remoídas o desgosto e a mágoa de nada voltar a ser como dantes. Pensava no suicídio, na desonra, na chacota e na solidão. Pensava sobretudo em fugir para longe e esquecer tudo o que sabia. Ou julgava saber.
Parou por um instante e levou a mão ao bolso, procurando o grande lenço branco para lhe enxugar a testa. Estava alagado. O calor do mês de Agosto, era cruel na cidade. Ao tirar o lenço, sentiu algo cair no chão. Olhou abismado para uma pulseira negra, de pontas douradas, que se tocavam como um beijo furtivo. Baixou-se, pegou-lhe e sentiu uma dor aguda. Uma das pontas, demasiado afiadas, entrou-lhe na carne e sugou-lhe algumas gotas do seu sangue. Quando levou a mão à boca, a estancar a ferida, jurou sentir o sabor dos beijos dela. Os que trocavam furtivamente, debaixo das arcadas do convento. Olhou admirado a jóia, como se assistisse a uma assombração. Desejou estar enganado, ser vitima de uma maquinação, estar louco, permanecer defunto. Encostou-se à parede desbotada, como se cambaleasse por uma tontura. Olhou uma vez mais a pulseira, medindo-lhe a infâmia. Olhou em frente, vendo as ondas de calor sobre o lajedo, alcançando a pedra despida dos muros do hospício. Sem saber como, sentiu alento. Compôs a gravata, os punhos da camisa, puxou a casaca com brio, soprando-lhe a poeira e avançou decidido, com um sorriso nos lábios.
Chegado ao portão enferrujado do instituto, tirou o chapéu e pediu para falar com o encarregado. Foi recebido com cortesia e disse ao que vinha:
- Quero fazer-me instalar. Sou doido varrido, perigo a segurança alheia, desejo o mal a todas as criaturas vivas e pretendo a ruína do mundo. Faça o favor, leve-me e proponha-me o vosso tratamento mais rigoroso.
Sem mostrar qualquer surpresa, o encarregado sorriu com gentileza deslocada e com um brilho terno no olhar:
- Meu caro, não pode ser. Acredite que compreendo as suas motivações. Não as conheço, mas compreendo. Mas a verdade é que não pode ser. - A razão da recusa começava a ganhar forma. - Os regulamentos são inequívocos. A maldade, o crime de sangue, o estupro, até o caos, não são prova de demência ou imputabilidade. Apenas humanidade, espirito de sociedade, percebe. Não posso encerrá-lo numa cela, submetê-lo a um tratamento cruel e quiçá feroz, atirá-lo ao esquecimento até ao fim do seu tempo, apenas por demonstrar cidadania e normalidade. Sabe que mais, com esses propósitos empreendedores, essa solenidade discreta e essa filosofia de vida tão vincada, concorra ao Parlamento, faça-se político, ainda vai a ministro.
Cravon ficou imóvel por alguns segundos. Sem atingir completamente o porquê, encontrava nas palavras do encarregado a verdade do mundo. Pelo menos, deste lado de cá do mar. Reconheceu-lhes dignidade, até alguns resquíceos de uma a amizade que podia ter existido. Compôs a gravata, os punhos da camisa e apertou vigorosamente a mão do encarregado:
- Compreendo. Agradeço-lhe a atenção. Acredite no meu eterno reconhecimento. Boas tardes.
Pegou no chapéu e saíu. Desceu o passeio até à entrada, rodeado de árvores e plantas raras, numa alegoria de oásis. Tirou o chapéu ao porteiro e seguiu pela rua junto ao rio. As suas passadas tinham perdido a fúria. O seu sorriso sereno, prometia bonanças. Levou a mão ao bolso e os seus dedos encontraram a pulseira negra. Tirou-a, abriu a mão à luz do fim do dia e com um suspiro milenar, atirou-a ao rio.
Coberto de confiança, Cravon compôs a gravata, os punhos da camisa, puxou a casaca com brio e avançou decidido, com o sorriso nos lábios.

Ao som de Carlos Libedinsky "Otra Luna"

junho 19, 2005

Mesmo se pensares para outro alguém

E depois, por detrás da mesa e das garrafas vazias, dependendo do relógio parado e do telemóvel desligado, com a camisa rasgada por um impulso, fibrilhando a noite com o resto de tarde e preferindo um hálito a cerveja vermelha, fico pouco quieto à procura de palavras vãs. Relego-te para o último lugar da espécie. Prevejo o teu desalinho, as meias rasgadas, as ligas presas no suor. E na boca um cigarro apagado à espera de um isqueiro... ou de um fósforo. Penteio-te com modos virtuais, aspirando o perfume dessa juba negra que me indicia a transgressão. Peso o teu valor de fêmea entre caixotes de tecidos e fardos de palha seca. Pergunto-te a idade, mas respondes-me com um rugido. Ou uma ameaça, não me lembro bem. Enquanto decido passar a língua nos teus pés nus, insisto no grau de condessa que possuis. É tarde, na escala dos humanos. Na tua, apenas atraso.

junho 08, 2005

Três pancadas na porta

As calças de cabedal como almofada e os longos cabelos em forma de lençol, trairam-me a pausa. Olhei para ela como um menino de coro. Creio que corei. Apanhei a camisa amarrotada e atirei-a para cima da cama. Passei as mãos pelo cabelo e senti-me meio adormecido. Estava acordado há quase dois dias. A boca sabia-me a tabaco e a restos de café requentado. Afastei as cortinas e olhei pela janela. A mota estava lá fora. O carro também. Coberto de pó. Sentei-me no sofá vermelho e tirei as botas a custo. Encostei-me e deixei-me ficar.
Quando acordei, não abri logo os olhos. Tinha a certeza que ela se tinha ido embora. Esperei os segundos que me pareceram os bastantes e vi a cama desfeita. Vazia. Na minha inocência, procurei algum bilhete escrito. Sorri. À falta de palavras, estava uma garrafa cheia na mesa. Dois copos. E no cinzeiro, um cigarro quase intacto. Num dos copos, como um presente de Natal, a marca de baton. Levantei-me, entrei na casa de banho e liguei o duche. Despi-me, olhei-me ao espelho com masoquismo e entrei na banheira. Demorei imenso tempo. Fechei as torneiras, usei a toalha e deitei-me na cama, sem me tapar. Não tenho cabelos compridos.

Ao som de The Dickies "Nights in White Satin"

junho 02, 2005

Aos sábados e domingos também

Esta é para quem insiste que estou zangado...

Ao almoço, salada de tofu com laranja, alface e nozes. E água. Muita. Depois, a intenção beliscada com um café. Depois, frases de circunstância avaliadas como verdades universais. O sorriso, a cumplicidade, a porta da saída. Um até logo cheio de coisas que não é preciso repetir. E com o vento na cara, sem reparar nos outros que nos seguem o caminho, regressa a gargalhada, o céu azul com um calor moreno e a intenção de pêssego e ameixa.
Acredito que ainda vale a pena. Quase tudo. Quase, porque não encontro meios absolutos. Acredito que ainda há sol a esperar, nomes para gritar ao fundo da rua, sonos à beira da água, candeeiros de abajour acesos toda a noite, segredos que só se contam baixinho, beijos açucarados, água fresca e letras de canções. E no fim e no depois, ter tudo outra vez. Voltam a ser dez da manhã, os barcos regressam, as janelas estão abertas e o olhar reconhece a candura de todos os dias.
Insistir é a prerrogativa dos complicados. Os outros, os que sabem existir, apanham a maré e deixam-se desaguar. Todos os dias.

Ao som de Steve Harley & The Cockney Rebel "Make Me Smile (Come Up and See Me)"

maio 31, 2005

Evidentemente

Enquanto espero pelo duche, olho o relógio na parede e sei que já é noite. Com o cabelo em desalinho, acabado de levantar de um dia coberto de preguiça, entendo ser prioritário um cigarro e o resto de uma cerveja morna. Olho no tecto o fumo a tentar fugir, procuro em cima da mesa as razões para recusar a inquietação, apago o cigarro e com o robe na mão saio do quarto.
O corredor com a passadeira aveludada é comprido e tem todas as portas fechadas. De um ou outro quarto, ouvem-se ruídos de circunstância. A única circunstância. Sinto que esqueci os chinelos mas nem por um milhão, volto para os buscar. Quando chego a porta da casa de banho, como se de um ritual se tratasse, coloco a palma da mão direita, muito aberta, na superfície polida de madeira escura. Espero um momento e abro a porta. O vapor escapa-se pela abertura. Entro e fecho a porta com algum cuidado.
Lá dentro, a rapariga oriental espera-me. De sorriso indefinido, veste calças carmesim com desenhos dourados, e umas chinelinhas pretas com atilhos dourados. Está despida da cintura para cima. Tem o cabelo solto, ao longo das costas nuas. Sinto uma intimidade violenta neste último pormenor. Ela tira-me o robe das mãos e pendura-mo com alguma solenidade. Com um gesto estudado, oferece-me todo o espaço. Dispo as calças do pijama, passo os dedos pelo cabelo e entrego-me. Ela saberá tratar de mim, melhor que eu.

Ao som de Madonna "Justify My Love (Deep Dish Even Deeper Mix)"

Selva

Remarcar o compasso de um assunto entre dois corpos e depois, insistir na fragrância de um momento a sós. Era cedo, preparava-se uma trovoada com a teimosia de um vento de sul, a roupa à janela ondulava de inquietação, o meu olhar percorreu o corpo dela, sem pensar em apetites nem consequências. Habituei-me a vê-la quase todos os dias, mas desta forma acho que nunca. De mãos nos bolsos, sem sorriso, encostado ao fogão, bastava-me violá-la com os olhos, revirá-la do avesso, sem intenções, demorando solenidades nos seios, nos vincos das coxas, num imperceptível gesto de entrega que se alongava ao ritmo da minha imobilidade. O telefone tocou e nem me apercebi quando o atendedor apitou. Os copos e as chávenas sujas em cima do lavatório, esperavam em silêncio. Ela quis sorrir e não conseguiu. Eu acho que a queria muito séria, quase zangada ou mesmo triste. Acho que fazia parte da fantasia. Acho, mas não tenho a certeza. Avancei, agarrei-a pelos ombros como se a fosse repreender, mas deixei escorregar os braços pelas suas costas suadas. Ela não se mexeu. Beijei-lhe o pescoço com uma sofreguidão que não me conhecia. Mordi-lhe o ombro e lambi a marca dos meus dentes. Olhei-a, olhos nos olhos, passei o meu polegar pelos seus lábios e forcei, à procura da língua. Ela resistiu. Pareceu-me que lhe tinham brilhado os olhos. Nesse preciso segundo, abracei-a e puxei-a com demasiada força para o chão. Sem oferecer qualquer resistência, abriu as pernas e enlaçou-me como se fosse um animal. Então, olhei os seus olhos uma última vez e aceitando o empenho, fui também animal.

Ao som de La Floa Maldita "L´Enfer Confortable"

maio 30, 2005

Permilagens

Em silêncio. Baixinho. Muito ao de leve, sem perturbar, afastando as almofadas como penas, olhando os ângulos das paredes muito quietas, frágeis, tudo no lugar de ontem, sem vozes, sem mãos que procuram mais e mais. Num tom de preguiça descoberto à toa, as páginas não se mexem junto à brisa que fica na janela fechada. Os livros, as cartas seguras por laços cor de mimo, a caneta fechada em dó maior, os segundos sentados no sofá, atentos, com os olhos em desafio de vantagens neutras, secretas, pedras de altar numa cripta isolada em papel de lustro. As faces, imóveis, solarengas, a vela apagada envolta em musgo de Dezembro, a caixa de fósforos vazia, o casaco deitado a dormitar, a porta entreaberta, á espera dos convidados curiosos, pisando tapetes anónimos e nos copos vinho terno. Pela persiana mourisca, a nuvem e a ladaínha que vem do Norte, sobem no parapeito e segredam rebuçados de morango. Nas bocas há paladares furtivos, vontades mornas vendidas a cêntimo, escolas de paredes brancas, dois pés esperando a hora dos barcos passar.
E quando a noite chegar, calada num colar de pérolas fingidas, permitindo o veludo e o suspiro, em silêncio, baixinho, vou murmurar as linhas que ainda me faltam. Só para eu ouvir.

Ao som de Joe Satriani "Canon (Acoustic Version)"

maio 25, 2005


Veludilho Posted by Hello

Pausa

Hesito: Um dia de veludo ou de seda...

De sol no alto

As manhãs são agiotas sem perdão. Exigem esforços impossíveis, dentro de redomas, faíscando ao sol da diferença. Querem-nos mal, as manhãs, reprovam a audácia das noites intermináveis, ferem o romance que só existe no sonho, precipitam o amor que navega por entre almofadas e e gemidos de preguiça. São arautos da manha e da tortura, as manhãs viradas a nascente. Sussurram promessas vãs, paixões desordenadas de silêncios comprometidos onde o beijo é bocejo madrugador. São vis, as manhãs de direcção única. Os becos sem saída dos fiéis.
Gosto de as confundir com uma voz de seda. Uma voz que matina uma canção de encantar. Um cigarro prometido, uma chávena de café sem pátria, um restolhar de lábios ávidos de serão. À beira dos carris de um eléctrico atrasado, um bairro dolente, onde as primeiras horas de luz são fadiga muito atenta. Uma porta entreaberta, uma promessa sem final, um dia de insiste em começar, mesmo quando vazio.
As manhãs perturbam os gestos lentos dos deuses. E como eles, também eu não encontro o norte. A bússola de marfim, ainda dorme, coitada.

Ao som de Eskobar featuring Emma Daumas "You Got Me"

maio 20, 2005

5 e meia da manhã, sob o temporal

Sem horas desfeitas
nem minutos perdidos,
conto histórias de pessoas,
de amores
amanhecidos pela ausência de vento,
sós
nas horas de neblina
e pó de arroz.

Na voz enrouquecida
de um jardim em repouso,
um suspiro
é o bastante.
Procuram-se nas mãos,
os esquecimentos de praia,
os degraus do museu,
a vaga suspeita de quem se apaixona num repente.
Mordisca-se uma maçã
num apetite que tarda em regressar,
ouvem-se canções de embalar
com os olhos muito abertos,
onde sorver é razão.

Nos horizontes
guardados no bolso,
estão as fraquezas,
os beijos intermináveis,
os verbos conjugados em suor.
O colchão ficou perdido,
nas ruínas de uma casa que caminha em paz.
A luz do candeeiro de rua,
já não sabe acender.
A lentidão dos dias sem azul,
a esquina que perdeu a memória,
o cheiro de um bocado de noite,
a capa do disco que fala em armários e balas.

E depois dos calendários,
depois das fadas e dos editais,
à beira do rio
num segundo,
rimos longe um do outro,
mortos para o reencontro,
suaves para a sedução.