abril 04, 2006

Ontem, agora e já são verbos

Depois de fazer o inventário, lembro-me ter deixado um sofá beije e bordeaux, desconfortável, forrado a vinil, onde sentado junto à janela da varanda, perdi dias de nuvens e alguma chuva. Escrevia incontáveis linhas de uma espécie de dicionário infalível, onde me revia em todas as letras. Depois, pousava a caneta e olhava a rua, à procura de alguma camisola de cor ou de qualquer grito cúmplice. Retomava por mais uns minutos e sem deixar de manter a rua atenta, ouvia os ruídos da casa grande que se misturavam com cheiros de cozinha de provincia e ladaínhas próprias dos dias reconfortantes. Na sala principal o aquecedor ruminava com um ronronar de hábitos antigos. Aqui, na sala do piano, o frio costumava vir passar a noite. Sentado junto à janela da varanda, deixava a tarde terminar, sabia o momento certo das luzes se acenderem, esticava-me para ver a última traineira do dia e deixava-me estar com uma canção nos lábios à laia de moinha. Só o jantar me retirava deste entorpecimento e me devolvia ao mundo.
Será que vão longe essas dias?

Ao som de Talking Heads "Heaven"

Tudo



Entre a pureza de um organismo vivo e a exactidão de acordes de sintetizador, porque não escolher os dois?...

março 31, 2006

março 30, 2006

março 23, 2006

Nem sim nem não

Depois da hora que encerra a noite, volto-me na cama sem encontrar nem o espelho, nem a alma. Acendo a luz e antes de voltar a reconhecer o qaurto, recordo-lhe os contornos e as arestas. Do frio já só sinto as primeiras meias horas, embalado que estou nas histórias e recordações de peles que convidam a entrega. Já revolvi todas as gavetas e continuo sem as encontrar. Resta-me o isqueiro e pequenos pedaços de vícios sortidos, compras em lojas que já nem existem, em ruas onde não passo porque me esqueci. Tenho na boca o sabor ao contrário. Se calhar por pisar os segredos em vez das palavras. E mesmo assim, se já as escrevi não as vou apagar. Por teimosia, por desleixo e por mentira. Adeus.

Ao som de OMD "Statues"

Navegações


Os abismos existem quando os sabemos encontrar.

março 22, 2006

Especiarias

Lentamente uso o olhar para a rever. Sentada numa almofada oriental, de olhos semicerrados e respiração sonolenta, motiva sabores tranquilos e temperos acres, próprio de um capricho. As velas acesas transformam-na num altar. Eu, calado, de sorriso oculto, prefiro senti-la no recanto de uma ideia. Aquela ideia que não se confessa nem se partilha, como um egoísmo mudo e solene, imune ao remorso e de cor morna. Por decreto, decido-a minha, registo-a como propriedade imensa, num acto ignóbil como quem rouba a obra de arte e a destrói, para mais ninguém a desejar. Lentamente, fecho os olhos e deixo-me ficar gravado na sua presença. Lentamente o espírito constrói-lhe uma fortaleza inexpugnável e ali a algema com fitas de seda e incensos. Depois de enterrar a chave, escondo o desejo e a certeza e invento uma religião. O seu deus, mantenho-o em cativeiro.

Ao som de "You Started Laughing"

março 21, 2006

Pausa

No lugar das coisas
um momento calado
e ténue,
onde todos os pertences
sossegam no que é seu,
por agora.

Os gritos despertos lá fora,
prometem a seiva
e a luz.

Neste momento calado,
todas as coisas
têm o seu lugar.

março 18, 2006

Preferir uma manhã cedo, uma mesa limpa, uns damascos, a virgindade de algum sol e um espírito limpo de certezas.

Começar a manhã ao som de Amadou & Mariam "Coulibaly"

março 14, 2006

Recado por dentro

Como um tango, a morte desbrava intempéries e bonanças, elos onde o momento e a emoção tomam conta, onde remoem e apertam num laço que custa luzir, esperando que se desfaça num instante, tal como o sonho se evapora depois de abrir os olhos. A vontade mastiga-se em migalhas, o sorriso sabe sempre a forçado, suspende-se a garfada no ar, com a culpa de um apetite inocente, hesita-se uma canção ou um adjectivo por ser longo demais. Como um tango, a morte desprende os linhos frágeis, revelando as cadências ferrugentas, alumiando ténuamente o lamento e um longo adeus pausado pelas lágrimas que nem se conseguem definir. É um piano demasiado afinado, onde a nota se multiplica na direcção errada. E tudo gira mais devagar, o tempo teima em diminuir o empenho, a flor permanece atenta e viçosa e ao longe o rio ondeia até à foz.
Eu estou aqui, junto à foz. Estou aqui, parado, encostado ao farol de paredes picadas por um mar que se obriga todos os dias, esperar por mais alguém. E mesmo se esse alguém não voltar a encostar-se ao farol, a luz irá varrer as águas à meia noite e o mar, teimoso, vai esperar como se não soubesse a notícia.

Ao som de Men Without Hats "Cocoricci (Le Tango des Voleurs)"

dezembro 20, 2005

Chaves e silêncios

Épicamente balançado pelas luzes que anunciam o fim do dia, herança de uma dança de loucos que se prolonga muito mais que 7 minutos e meio, desejo profundamente acreditar nas missões e nos destinos peculiares.
Moro num sítio onde existe uma passagem secreta para os Natais. Os que se misturam com lenda e açafrão, os que mantém o perigo dos primeiros tempos, os que vão muito para lá das montras e dos enganos mortais. Às vezes tento rodar a chave ferrugenta dessa porta fechada por decreto, ouço alguns mecanismos ranger, cai alguma fuligem cor de antigamente e depois, só o silêncio da recusa por demenciais razões e espíritos menores. Então, espreito pelo buraco da fechadura, largo como só antes era possível e para lá da negritude da escuridão silenciosa, adivinho as formas trôpegas de mistérios de juventude, ogres de voz cintilante e mãos simuladas em luvas de pelica tão fina, que se conhece as veias pelo seu nome próprio. Os cheiros e as comadres agachadas junto ao lume, repetem ditos frugais, enquanto os seus olhinhos brilhantes estalam de gozo pelo fumo das cozeduras e o reflexo dos diamantes que pendem do tecto de madeira escura. Ao primeiro silêncio, as luzes baixam de tom e um coro de marfins alados encomenda um caminho novo de três mil e quatrocentos anos. Como resposta, os cristais em forma de animais e verdades, do alto das prateleiras cerimoniais, ri em gritinhos juvenis tornando tudo em cor branca. Ao segundo silêncio, os guerreiros de lábios gretados e ternura na ponta dos dedos, desembainha as espadas imemoriais e num gesto seco mas majestoso, lança-as para longe, onde um regato se transforma em oceano e as cobre definitivamente. À uma, cantam em coro a canção dos que regressam, ladeados pelas imagens ténues dos que por lá ficaram. As comadres à ordem da avó suprema, distribuem os caldos de mil ervas e as bagas de gengibre e veludo, que se comem às mãos cheias. Por momentos, engole-se o sabor e saboreia-se as virtudes de ter alma. Depois da ceia, todos se sentam virados para Este e sem palavra, espera-se. Ao terceiro silêncio, já ele próprio o esperava. A porta estremece, ouvem-se as formas que batem com os pés na pedra em busca de calor e secura, caem os pesados alforges, rebolando para a parede, acotovelam-se os que prolongam a dúvida e ouve-se em pancadas poderosas a porta anunciar a visita. Ao terceiro silêncio, desde tempos sem idade, chegam para o resto da ceia os quatros ventos, miragem eleita como a mais pura e perfeita num mundo prenhe de tomos vulgares e locuções vazias, que terminam antes do começo. Quando a porta se arrasta pela laje, a visão permanece intacta como a lenda: Os quatro ventos só serão vislumbrados pelas mentes limpas e pelas almas intactas.
Eu não os vi. Não conheço ninguém que os já tenha visto. Não sei de notícia de alguém que encarando-os, os tenha reconhecido e por eles tocado. A porta que separa a passagem secreta continua fechada. Consta que a chave enterrada na fechadura não serve. Que em vez, existem alguns milhões tremendos de chaves, espalhadas por aí. Que eu saiba, ainda ninguém encontrou alguma. A porta permanece fechada. As chaves, sem exigir esconderijo, espreitam quem passa, apressado em motivos menos nobres e essenciais para coisa nenhuma. A porta permance fechada. Espera pela chave. Uma qualquer.

Ao som de Shadow Gallery "Mystified"

dezembro 15, 2005

Sem quase querer















Desejo-te com a fome de sushis impossíveis...

Faltaste ao pequeno-almoço

Espero-te na esquina. Na de sempre, a que reconheço até nas manhãs de nevoeiro cerrado, a que guarda o fumo dos cigarros e as palavras que deixo cair enquanto te espero. Imaginei-te repleta de pormenores antes de te ter visto pela primeira vez. Estava na esquina. Estava frio, um frio doce de açucar queimado às 7 da manhã. Procurei-te junto ao rio, no nascer do sol, na silhueta que passou ao longe apressando o passo para o autocarro. Procurei-te entre as escadas e no andar dos livros, ao balcão de tantos cafés, nos semáforos e nas cores que teimas em deixar onde páras para olhar as montras. Sem entender a ousadia, procurei-te nas mesas vazias junto ao bar. Procurei-te ao soar a música e entre as cabeças que ouvem de cor. Procurei-te entre a multidão, quase certo de um milagre ou de uma coincidência. Ao reencontrar-me só, regresso à esquina de sempre, à espera do afago do passeio descendente e das janelas sempre fechadas do prédio de varandas acabadas.
Ainda te espero. Um dia, um qualquer sem te esperar, nem querer. Na esquina, na de sempre, ou à porta do teatro ou numa passadeira rolante que nunca acaba. E no dia que não te esperar, vais aparecer. Com uma cor qualquer, de livro na mão, com um sorriso que tens só para ti e não dás a ninguém. E se te esperei de manhã, aparecerás à noitinha, antes de um jantar a uma hora que não se procura no relógio. Vais entrar, olhas em volta e sem ver o que procuras, vais encontrar. Eu espero-te. Na esquina de sempre. Sem te dizer qual.

Ao som de The Beloved "Sweet Harmony"

novembro 04, 2005

Depois do baile acabar

Quando a chuva se acabar, quando as nuvens se fartarem da morada, depois de algum percalço menos medido, não restará mais que a última direcção. Já experimentaste todas as outras? Sabes onde acabam?
Eu, por mim, sentei-me durante dias na encruzilhada. Pensei nas direcções, onde terminavam, quem procuravam nas bermas cheias de pó e erva, em que casas passavam a noite. De vez em quando levantava-me e punha-me a caminho. Antes do fim, voltava para trás. Aprendi as respostas sem ter de conhecer os pontos finais. Percorri todas as direcções, menos uma. Percorri-as até antes do fim. Nunca cheguei a saber se o fim estava perto. Sabia que estava lá, e isso bastava-me. Percorri-as todas, menos uma. Não a escolhi por acaso. Tirei-lhe medidas, pesei-a, observei-a de perfil e dos outros ângulos também. Não lhe dirigi palavra. Percorri-as todas. As outras. Quando regressava delas, sentava-me no mesmo sítio e esperava a resposta. Sempre sem conhecer os pontos finais. Não me fazem falta. Quando anoitecia, puxava do meu lenço, abria-o e com o cuidado de quem conhece as respostas, pegava num bocado de laranja e comia descansado.
Passou-se muito tempo, desde estes dias. A encruzilhada está mudada. As direcções já são outras e as respostas também. Dos pontos finais, não ouço falar há muito. Como não gosto de máquinas, deixo-me ficar sentado à espera de voltar a precisar dos meus passos. Antes não. Ainda tenho alguns gomos de laranja.

Ao som de The Smiths "How soon is now"

El Diablo


Sabes reconhecer o diabo, quando se cruzar contigo numa rua de movimento?

outubro 28, 2005

9 menos um quarto

O lado menos colorido das coisas, obriga-nos sempre a conjecturas demasiado simplistas. Olha-se o lado escuro de uma pedra, o leite que espera a sentença no fundo de um copo, o fósforo apagado depois de morto, a meia pegada junto ao passeio. Encolhem-se os ombros, pede-se piedade, pena, jeitinhos de hortelã e mantas gastas, um resto de saúdezinha de um pacote mesmo no fim. Vira-se a cara para o lado, procuram-se natais, ruas iluminadas, esquinas de portas abertas. E depois, escondem-se os sonhos por realizar, as bocas por alimentar, os perfis da derrota e todas as boas intensões do mundo.
Depois de anoitecer, os sem abrigo voltam aos seus caixotes, as ouriversarias fecham as portas de ferro, as meninas jantam nas salas aquecidas junto à cozinha, o velho do quarto alugado por cima da loja de ferragens assusta-se com o fim da vela. Sabe que os fins estão no fim da rua, à espreita. Gostam de apanhar quem se distrái. Gostam de aparecer sem convite, nem porta aberta. Gostam de surpresas. Depois de anoitecer, as chávenas de café têm outro sabor. Sabem a culpa. Sabem a dia gasto.
Se te acontecer encontrar o lado menos colorido das coisas depois de anoitecer, esconde-te no primeiro vão de escada e espera. Espera toda a noite, se for preciso. E se não gostares de fins, espera de olhos abertos.

Ao som de Blackfoot "Diary of a working man"

outubro 11, 2005

Sem esperar

Outro lado do mundo que estiver certo

Nunca fui. Nem sei se terei coragem de lá chegar. Tão pouco adivinho se algo ou alguém, espera pacientemente a minha chegada, porque paciência nem todos a têm. Creio chamar-se Soledad. Mas posso ter-me enganado. Ou então, enganaram-me. Já aconteceu. Deve ter uma família, daquelas cheias de primas e tios, cunhados de olhar diurno e vizinhas que conhecem as histórias e os segredos. Devem almoçar ao domingo, amontoando-se ao lado dos gritos das crianças e das ladainhas dos mais antigos. Reparte-se a fartura com a fome dos outros dias. Dão-se graças, apenas porque sim, porque já os outros as davam. Vive-se.
Eu ainda aqui estou. Preferi sentir-me cómodo. E preferi a segurança da Calle Amberes. Por uma vez, a Zona Rosa possui a cor perfeita. Na varanda do quarto de hotel, fazendo esperar a chávena de café a ferver na Plaza Garibaldi, acabo um cigarro adoçicado e medito no meu egoísmo. O tal que me decidiu esconder aqui, longe de quem já perdeu a paciência de me esperar, de quem olha os filhos numa adoração desmedida e nunca sabe o dia de amanhã. Talvez amanhã procure este destino. Ou então, um outro qualquer. Um que me espere impacientemente.
Deixo cair o que resta do tabaco, piso os vestígios ainda acesos, olho uma última vez o edifício da American Express e saio do quarto deixando a janela aberta. O ar condicionado nunca funciona. Desço, atiro as boas noites ao Salvador que me responde em rima e fundo-me com a multidão. Na esquina com o Paseo de la Reforma, talvez incomodado com este rio de riqueza entre lixeiras e bairros miseráveis, decido deixar esfriar a chávena de café e procuro um táxi para regressar à existência normal. Espero bastante tempo por um vermelho. Não me sinto com muita sorte para tentar outra cor. Vou a Las Aguilas, bem depois da Barranca del Muerto. Ali vive Soledad. Lembrei-me de lhe ir conhecer os olhos, adoçar a boca das crianças com alguns rebuçados, ouvir as frases feitas dos avós. Lembrei-me de sentir a vida como ela realmente é.
A verdade é que sou demasiado óbvio. Não cheguei a Las Aguilas. Não conheci os olhos de Soledad. Apanhei o táxi, um vermelho bem sujo, guiado por um velhote de dentes podres.
- À donde, patrón?
Hesitei, num gesto próprio dos que não sabem o que fazer do tempo.
- À la Tabacalera.
- Si patrón.
Recostei-me. Doíam-me os rins. Tinha passado a tarde a escrever. Baboseiras e lugares comuns. Demasiado tempo livre, esta é a verdade.
- Dejéme en el Oxford. - O condutor sorriu. Conhecia o destino. Olhou-me pelo espelho e tentou adivinhar-me a tara. Voltou a sorrir, encolheu os ombros e acelerou sem vontade.
Boas intenções. O papel de parede do inferno. Enquanto Soledad olha os filhos que adormecem sob o carinho da mãe, eu, egoísta, bebo o álcool viciado e observo as putas com idade de velha, que se bamboleiam ao som dos tristes boleros que Carlitos insiste em tocar. Pacientemente.

Ao som de Brian Eno & David Byrne "Regiment"

outubro 02, 2005

O lado do mundo que estiver certo

Nunca fui ao Tibete, embora sinta que algo ou alguém, espera pacientemente a minha chegada. Algo, ou alguém, enrolado num cobertor, talvez em farrapos, olha de relance quem desce do último autocarro, mede os seus passos, as suas exclamações, e me procura tarde após tarde por entre a poeira e o cheiro a chá requentado dos vendedores de rua. Eu, egoísta, faço-me esperar como se de um alto dignatário me tratasse, empolando a minha vaga importância num mundo tão prenhe como o que existe no Oriente, ignorante de contrapartidas e variações. Em Lhasa, alguém retarda a sua vez de comer algumas migalhas ou molhar os lábios num chá fumegante, sentado num degrau junto aos autocarros parados. De vez em quando levanta-se, estica-se um pouco, olha as águas do Kyichu e retoma a missão que sem razão aparente lhe foi confiada. Eu, sentado ao computador, fumando um charro com um prazer contido, perguntando-me as razões para tanta agressividade infantil, esfregando os olhos para retardar qualquer lágrima, de dentro da minha t-shirt dos New Order não compreendo este provérbio antigo que me espera pacientemente do outro lado do mundo e prefiro, por agora, ignorar o que nem sei que nome dar-lhe. E ainda assim, no meio das cabeças que descem os degraus sujos dos autocarros, procura-se a minha. A minha cabeça está a prémio. Mesmo se um prémio ínfimo, desajustado ao valor que aqui no Ocidente, apreçamos a existência, o tempo ou a necessidade.
Por enquanto, espero. Espero pelo cartaz que valorize a minha captura. Espero é valer alguma coisa que se veje.

Ao som de Aes Dana "Skyclad (High Frequencies Version)"

setembro 30, 2005



É com enorme emoção, que anuncio a minha candidatura ao vício. Mais tarde, direi qual...