abril 20, 2006

O anel

Da esplanada no café de praia, observava as raparigas no recorte dos fatos de banho. Fumava os cigarros que o tinham iniciado na juventude e o copo de groselha aquecia ao sol amarelecido de Setembro. Apetecia-lhe álcool, mas o cenário perfeito de ontem exigia-lhe o sacríficio. Tinha desenterrado os óculos de sol das idas à piscina e o sorriso ensaiado das tardes logo a seguir ao almoço. Batia o pé com a canção que lhe lembrava antiguidades. Encaixava cada corpo na fantasia que melhor se adaptava. Tinha muitas. Usadas, muito poucas.

Ao som de Patrick Coutin "J´Aime regarder les filles"

abril 19, 2006

O giz continua azul

Um domingo de verão, uma carambola galhofeira percorre o pano esverdeado rumo ao canto escuro. É véspera de segunda feira, sem motivo de urgência. Junto ao balcão, um pires com pastilhas de alcaçuz e um resto de café frio no fundo de uma chávena lascada. Meio copo de cerveja. Algumas cascas de amendoim. São da véspera. Hoje não se limpa. Espera-se. Amontoa-se a preguiça ao longo de cadeiras gastas.
Do fundo do corredor de azulejo, bocados de tarde. Um sol claro e um céu que nunca é demasiado azul. Nas mesas vazias, pó e algum triângulo cansado. Na do canto escuro, uma carambola galhofeira rasga o pano esverdeado. Lá fora, o domingo. Cá dentro, o dia que passa.

Ao som de Madrugada "Hold on to you"

abril 17, 2006

abril 13, 2006

Pausa

E ao terceiro sinal, a hora já não será a mesma.

Amor num comboio real

Caótico

Depois da chávena de café, uma olhadela ao espelho e as costas à rua encharcada. As mãos no bolso descosido procuram alguma chave, seja o que ela abrir. Uma troca de olhos cansados enchem a chávena pela terceira vez. O esmero de uma contabilidade vertical, engana o relógio atrasado e as poucas moedas que restam. Um sorriso detém o suspiro. Afinal, bebe-se a felicidade a goles pausados.

Ao som de The Bambi Molesters "Corazon del Loco Jorge"

abril 04, 2006

Ontem, agora e já são verbos

Depois de fazer o inventário, lembro-me ter deixado um sofá beije e bordeaux, desconfortável, forrado a vinil, onde sentado junto à janela da varanda, perdi dias de nuvens e alguma chuva. Escrevia incontáveis linhas de uma espécie de dicionário infalível, onde me revia em todas as letras. Depois, pousava a caneta e olhava a rua, à procura de alguma camisola de cor ou de qualquer grito cúmplice. Retomava por mais uns minutos e sem deixar de manter a rua atenta, ouvia os ruídos da casa grande que se misturavam com cheiros de cozinha de provincia e ladaínhas próprias dos dias reconfortantes. Na sala principal o aquecedor ruminava com um ronronar de hábitos antigos. Aqui, na sala do piano, o frio costumava vir passar a noite. Sentado junto à janela da varanda, deixava a tarde terminar, sabia o momento certo das luzes se acenderem, esticava-me para ver a última traineira do dia e deixava-me estar com uma canção nos lábios à laia de moinha. Só o jantar me retirava deste entorpecimento e me devolvia ao mundo.
Será que vão longe essas dias?

Ao som de Talking Heads "Heaven"

Tudo



Entre a pureza de um organismo vivo e a exactidão de acordes de sintetizador, porque não escolher os dois?...

março 31, 2006

março 30, 2006

março 23, 2006

Nem sim nem não

Depois da hora que encerra a noite, volto-me na cama sem encontrar nem o espelho, nem a alma. Acendo a luz e antes de voltar a reconhecer o qaurto, recordo-lhe os contornos e as arestas. Do frio já só sinto as primeiras meias horas, embalado que estou nas histórias e recordações de peles que convidam a entrega. Já revolvi todas as gavetas e continuo sem as encontrar. Resta-me o isqueiro e pequenos pedaços de vícios sortidos, compras em lojas que já nem existem, em ruas onde não passo porque me esqueci. Tenho na boca o sabor ao contrário. Se calhar por pisar os segredos em vez das palavras. E mesmo assim, se já as escrevi não as vou apagar. Por teimosia, por desleixo e por mentira. Adeus.

Ao som de OMD "Statues"

Navegações


Os abismos existem quando os sabemos encontrar.

março 22, 2006

Especiarias

Lentamente uso o olhar para a rever. Sentada numa almofada oriental, de olhos semicerrados e respiração sonolenta, motiva sabores tranquilos e temperos acres, próprio de um capricho. As velas acesas transformam-na num altar. Eu, calado, de sorriso oculto, prefiro senti-la no recanto de uma ideia. Aquela ideia que não se confessa nem se partilha, como um egoísmo mudo e solene, imune ao remorso e de cor morna. Por decreto, decido-a minha, registo-a como propriedade imensa, num acto ignóbil como quem rouba a obra de arte e a destrói, para mais ninguém a desejar. Lentamente, fecho os olhos e deixo-me ficar gravado na sua presença. Lentamente o espírito constrói-lhe uma fortaleza inexpugnável e ali a algema com fitas de seda e incensos. Depois de enterrar a chave, escondo o desejo e a certeza e invento uma religião. O seu deus, mantenho-o em cativeiro.

Ao som de "You Started Laughing"

março 21, 2006

Pausa

No lugar das coisas
um momento calado
e ténue,
onde todos os pertences
sossegam no que é seu,
por agora.

Os gritos despertos lá fora,
prometem a seiva
e a luz.

Neste momento calado,
todas as coisas
têm o seu lugar.

março 18, 2006

Preferir uma manhã cedo, uma mesa limpa, uns damascos, a virgindade de algum sol e um espírito limpo de certezas.

Começar a manhã ao som de Amadou & Mariam "Coulibaly"

março 14, 2006

Recado por dentro

Como um tango, a morte desbrava intempéries e bonanças, elos onde o momento e a emoção tomam conta, onde remoem e apertam num laço que custa luzir, esperando que se desfaça num instante, tal como o sonho se evapora depois de abrir os olhos. A vontade mastiga-se em migalhas, o sorriso sabe sempre a forçado, suspende-se a garfada no ar, com a culpa de um apetite inocente, hesita-se uma canção ou um adjectivo por ser longo demais. Como um tango, a morte desprende os linhos frágeis, revelando as cadências ferrugentas, alumiando ténuamente o lamento e um longo adeus pausado pelas lágrimas que nem se conseguem definir. É um piano demasiado afinado, onde a nota se multiplica na direcção errada. E tudo gira mais devagar, o tempo teima em diminuir o empenho, a flor permanece atenta e viçosa e ao longe o rio ondeia até à foz.
Eu estou aqui, junto à foz. Estou aqui, parado, encostado ao farol de paredes picadas por um mar que se obriga todos os dias, esperar por mais alguém. E mesmo se esse alguém não voltar a encostar-se ao farol, a luz irá varrer as águas à meia noite e o mar, teimoso, vai esperar como se não soubesse a notícia.

Ao som de Men Without Hats "Cocoricci (Le Tango des Voleurs)"

dezembro 20, 2005

Chaves e silêncios

Épicamente balançado pelas luzes que anunciam o fim do dia, herança de uma dança de loucos que se prolonga muito mais que 7 minutos e meio, desejo profundamente acreditar nas missões e nos destinos peculiares.
Moro num sítio onde existe uma passagem secreta para os Natais. Os que se misturam com lenda e açafrão, os que mantém o perigo dos primeiros tempos, os que vão muito para lá das montras e dos enganos mortais. Às vezes tento rodar a chave ferrugenta dessa porta fechada por decreto, ouço alguns mecanismos ranger, cai alguma fuligem cor de antigamente e depois, só o silêncio da recusa por demenciais razões e espíritos menores. Então, espreito pelo buraco da fechadura, largo como só antes era possível e para lá da negritude da escuridão silenciosa, adivinho as formas trôpegas de mistérios de juventude, ogres de voz cintilante e mãos simuladas em luvas de pelica tão fina, que se conhece as veias pelo seu nome próprio. Os cheiros e as comadres agachadas junto ao lume, repetem ditos frugais, enquanto os seus olhinhos brilhantes estalam de gozo pelo fumo das cozeduras e o reflexo dos diamantes que pendem do tecto de madeira escura. Ao primeiro silêncio, as luzes baixam de tom e um coro de marfins alados encomenda um caminho novo de três mil e quatrocentos anos. Como resposta, os cristais em forma de animais e verdades, do alto das prateleiras cerimoniais, ri em gritinhos juvenis tornando tudo em cor branca. Ao segundo silêncio, os guerreiros de lábios gretados e ternura na ponta dos dedos, desembainha as espadas imemoriais e num gesto seco mas majestoso, lança-as para longe, onde um regato se transforma em oceano e as cobre definitivamente. À uma, cantam em coro a canção dos que regressam, ladeados pelas imagens ténues dos que por lá ficaram. As comadres à ordem da avó suprema, distribuem os caldos de mil ervas e as bagas de gengibre e veludo, que se comem às mãos cheias. Por momentos, engole-se o sabor e saboreia-se as virtudes de ter alma. Depois da ceia, todos se sentam virados para Este e sem palavra, espera-se. Ao terceiro silêncio, já ele próprio o esperava. A porta estremece, ouvem-se as formas que batem com os pés na pedra em busca de calor e secura, caem os pesados alforges, rebolando para a parede, acotovelam-se os que prolongam a dúvida e ouve-se em pancadas poderosas a porta anunciar a visita. Ao terceiro silêncio, desde tempos sem idade, chegam para o resto da ceia os quatros ventos, miragem eleita como a mais pura e perfeita num mundo prenhe de tomos vulgares e locuções vazias, que terminam antes do começo. Quando a porta se arrasta pela laje, a visão permanece intacta como a lenda: Os quatro ventos só serão vislumbrados pelas mentes limpas e pelas almas intactas.
Eu não os vi. Não conheço ninguém que os já tenha visto. Não sei de notícia de alguém que encarando-os, os tenha reconhecido e por eles tocado. A porta que separa a passagem secreta continua fechada. Consta que a chave enterrada na fechadura não serve. Que em vez, existem alguns milhões tremendos de chaves, espalhadas por aí. Que eu saiba, ainda ninguém encontrou alguma. A porta permanece fechada. As chaves, sem exigir esconderijo, espreitam quem passa, apressado em motivos menos nobres e essenciais para coisa nenhuma. A porta permance fechada. Espera pela chave. Uma qualquer.

Ao som de Shadow Gallery "Mystified"

dezembro 15, 2005

Sem quase querer















Desejo-te com a fome de sushis impossíveis...

Faltaste ao pequeno-almoço

Espero-te na esquina. Na de sempre, a que reconheço até nas manhãs de nevoeiro cerrado, a que guarda o fumo dos cigarros e as palavras que deixo cair enquanto te espero. Imaginei-te repleta de pormenores antes de te ter visto pela primeira vez. Estava na esquina. Estava frio, um frio doce de açucar queimado às 7 da manhã. Procurei-te junto ao rio, no nascer do sol, na silhueta que passou ao longe apressando o passo para o autocarro. Procurei-te entre as escadas e no andar dos livros, ao balcão de tantos cafés, nos semáforos e nas cores que teimas em deixar onde páras para olhar as montras. Sem entender a ousadia, procurei-te nas mesas vazias junto ao bar. Procurei-te ao soar a música e entre as cabeças que ouvem de cor. Procurei-te entre a multidão, quase certo de um milagre ou de uma coincidência. Ao reencontrar-me só, regresso à esquina de sempre, à espera do afago do passeio descendente e das janelas sempre fechadas do prédio de varandas acabadas.
Ainda te espero. Um dia, um qualquer sem te esperar, nem querer. Na esquina, na de sempre, ou à porta do teatro ou numa passadeira rolante que nunca acaba. E no dia que não te esperar, vais aparecer. Com uma cor qualquer, de livro na mão, com um sorriso que tens só para ti e não dás a ninguém. E se te esperei de manhã, aparecerás à noitinha, antes de um jantar a uma hora que não se procura no relógio. Vais entrar, olhas em volta e sem ver o que procuras, vais encontrar. Eu espero-te. Na esquina de sempre. Sem te dizer qual.

Ao som de The Beloved "Sweet Harmony"

novembro 04, 2005

Depois do baile acabar

Quando a chuva se acabar, quando as nuvens se fartarem da morada, depois de algum percalço menos medido, não restará mais que a última direcção. Já experimentaste todas as outras? Sabes onde acabam?
Eu, por mim, sentei-me durante dias na encruzilhada. Pensei nas direcções, onde terminavam, quem procuravam nas bermas cheias de pó e erva, em que casas passavam a noite. De vez em quando levantava-me e punha-me a caminho. Antes do fim, voltava para trás. Aprendi as respostas sem ter de conhecer os pontos finais. Percorri todas as direcções, menos uma. Percorri-as até antes do fim. Nunca cheguei a saber se o fim estava perto. Sabia que estava lá, e isso bastava-me. Percorri-as todas, menos uma. Não a escolhi por acaso. Tirei-lhe medidas, pesei-a, observei-a de perfil e dos outros ângulos também. Não lhe dirigi palavra. Percorri-as todas. As outras. Quando regressava delas, sentava-me no mesmo sítio e esperava a resposta. Sempre sem conhecer os pontos finais. Não me fazem falta. Quando anoitecia, puxava do meu lenço, abria-o e com o cuidado de quem conhece as respostas, pegava num bocado de laranja e comia descansado.
Passou-se muito tempo, desde estes dias. A encruzilhada está mudada. As direcções já são outras e as respostas também. Dos pontos finais, não ouço falar há muito. Como não gosto de máquinas, deixo-me ficar sentado à espera de voltar a precisar dos meus passos. Antes não. Ainda tenho alguns gomos de laranja.

Ao som de The Smiths "How soon is now"