maio 13, 2006

De passagem

Quarto número doze

É um daqueles inícios onde a tarde e a noite perdem as fronteiras e as ruas nunca são as indicadas nas placas. No andar de cima grita-se o atraso. O café é o de anteontem e os lençóis têm migalhas à vinte e um dias. Ao canto, o fato amarrotado que escurece o brilho de uma soirée de lotação esgotada. A gravata foi cortada em pedaços de ligadura, algures na semana passada. A tarde cai, solenemente, guardada pelas persianas corridas em jeito de luto. Uma laranja já seca faz de sentinela ao testamento que amarelece na gaveta da esquerda. Desde ontem que a sentença é oficial. Um de nós tem de morrer.

Ao som de Jacques Higelin "Champagne"

abril 26, 2006

Sul

Ao sul, debaixo de um sol de filme e embalado pela violência de um beijo adiado para o próximo quilómetro, recuso-me a contar os minutos que sobram. Entrego-me à velocidade e ao corpo inerte da mulher de cabelo negro, que adormece ao meu lado. Adivinho-lhe os sonhos e alguma pressa por um destino perto do mar ou de uma cama de lençóis leves. Antecipo a gulodice de lhe mimar o pescoço e mergulhar no seu ronronar. Invejo-lhe a lânguidez.
Tenho na boca um sabor a pó que faz parte do resto. Da distância, do calor, da pressa que não se procura, do amor em pausa. Passo a mão na cara e torno macia a barba por fazer. Insisto em guiar encostado à porta, por desleixo e por vontade do vento. Acaricio o volante com a ponta dos dedos. Sorrio e sem olhar para o lado, regresso à estrada.

Ao som de Motorcycle Boy "Run Run Run"

abril 20, 2006

Café Tóquio


Quarenta e cinco minutos em serpenteios calados e quietos, sorvendo com cuidado momentos de café, onde o vagar se entrega a doces pózinhos de surpresa. Nas mãos, um isqueiro prateado, escurecido por uma azulada certeza com sabor aniz. Não sei quantos segundos mais, nem se passaram tantos assim. Apenas que o relógio está parado, a hora é a que apetece e o tempo não costuma vir aqui tomar café.

Ao som de 34 Puñaladas "Packard"

O anel

Da esplanada no café de praia, observava as raparigas no recorte dos fatos de banho. Fumava os cigarros que o tinham iniciado na juventude e o copo de groselha aquecia ao sol amarelecido de Setembro. Apetecia-lhe álcool, mas o cenário perfeito de ontem exigia-lhe o sacríficio. Tinha desenterrado os óculos de sol das idas à piscina e o sorriso ensaiado das tardes logo a seguir ao almoço. Batia o pé com a canção que lhe lembrava antiguidades. Encaixava cada corpo na fantasia que melhor se adaptava. Tinha muitas. Usadas, muito poucas.

Ao som de Patrick Coutin "J´Aime regarder les filles"

abril 19, 2006

O giz continua azul

Um domingo de verão, uma carambola galhofeira percorre o pano esverdeado rumo ao canto escuro. É véspera de segunda feira, sem motivo de urgência. Junto ao balcão, um pires com pastilhas de alcaçuz e um resto de café frio no fundo de uma chávena lascada. Meio copo de cerveja. Algumas cascas de amendoim. São da véspera. Hoje não se limpa. Espera-se. Amontoa-se a preguiça ao longo de cadeiras gastas.
Do fundo do corredor de azulejo, bocados de tarde. Um sol claro e um céu que nunca é demasiado azul. Nas mesas vazias, pó e algum triângulo cansado. Na do canto escuro, uma carambola galhofeira rasga o pano esverdeado. Lá fora, o domingo. Cá dentro, o dia que passa.

Ao som de Madrugada "Hold on to you"

abril 17, 2006

abril 13, 2006

Pausa

E ao terceiro sinal, a hora já não será a mesma.

Amor num comboio real

Caótico

Depois da chávena de café, uma olhadela ao espelho e as costas à rua encharcada. As mãos no bolso descosido procuram alguma chave, seja o que ela abrir. Uma troca de olhos cansados enchem a chávena pela terceira vez. O esmero de uma contabilidade vertical, engana o relógio atrasado e as poucas moedas que restam. Um sorriso detém o suspiro. Afinal, bebe-se a felicidade a goles pausados.

Ao som de The Bambi Molesters "Corazon del Loco Jorge"

abril 04, 2006

Ontem, agora e já são verbos

Depois de fazer o inventário, lembro-me ter deixado um sofá beije e bordeaux, desconfortável, forrado a vinil, onde sentado junto à janela da varanda, perdi dias de nuvens e alguma chuva. Escrevia incontáveis linhas de uma espécie de dicionário infalível, onde me revia em todas as letras. Depois, pousava a caneta e olhava a rua, à procura de alguma camisola de cor ou de qualquer grito cúmplice. Retomava por mais uns minutos e sem deixar de manter a rua atenta, ouvia os ruídos da casa grande que se misturavam com cheiros de cozinha de provincia e ladaínhas próprias dos dias reconfortantes. Na sala principal o aquecedor ruminava com um ronronar de hábitos antigos. Aqui, na sala do piano, o frio costumava vir passar a noite. Sentado junto à janela da varanda, deixava a tarde terminar, sabia o momento certo das luzes se acenderem, esticava-me para ver a última traineira do dia e deixava-me estar com uma canção nos lábios à laia de moinha. Só o jantar me retirava deste entorpecimento e me devolvia ao mundo.
Será que vão longe essas dias?

Ao som de Talking Heads "Heaven"

Tudo



Entre a pureza de um organismo vivo e a exactidão de acordes de sintetizador, porque não escolher os dois?...

março 31, 2006

março 30, 2006

março 23, 2006

Nem sim nem não

Depois da hora que encerra a noite, volto-me na cama sem encontrar nem o espelho, nem a alma. Acendo a luz e antes de voltar a reconhecer o qaurto, recordo-lhe os contornos e as arestas. Do frio já só sinto as primeiras meias horas, embalado que estou nas histórias e recordações de peles que convidam a entrega. Já revolvi todas as gavetas e continuo sem as encontrar. Resta-me o isqueiro e pequenos pedaços de vícios sortidos, compras em lojas que já nem existem, em ruas onde não passo porque me esqueci. Tenho na boca o sabor ao contrário. Se calhar por pisar os segredos em vez das palavras. E mesmo assim, se já as escrevi não as vou apagar. Por teimosia, por desleixo e por mentira. Adeus.

Ao som de OMD "Statues"

Navegações


Os abismos existem quando os sabemos encontrar.

março 22, 2006

Especiarias

Lentamente uso o olhar para a rever. Sentada numa almofada oriental, de olhos semicerrados e respiração sonolenta, motiva sabores tranquilos e temperos acres, próprio de um capricho. As velas acesas transformam-na num altar. Eu, calado, de sorriso oculto, prefiro senti-la no recanto de uma ideia. Aquela ideia que não se confessa nem se partilha, como um egoísmo mudo e solene, imune ao remorso e de cor morna. Por decreto, decido-a minha, registo-a como propriedade imensa, num acto ignóbil como quem rouba a obra de arte e a destrói, para mais ninguém a desejar. Lentamente, fecho os olhos e deixo-me ficar gravado na sua presença. Lentamente o espírito constrói-lhe uma fortaleza inexpugnável e ali a algema com fitas de seda e incensos. Depois de enterrar a chave, escondo o desejo e a certeza e invento uma religião. O seu deus, mantenho-o em cativeiro.

Ao som de "You Started Laughing"

março 21, 2006

Pausa

No lugar das coisas
um momento calado
e ténue,
onde todos os pertences
sossegam no que é seu,
por agora.

Os gritos despertos lá fora,
prometem a seiva
e a luz.

Neste momento calado,
todas as coisas
têm o seu lugar.

março 18, 2006

Preferir uma manhã cedo, uma mesa limpa, uns damascos, a virgindade de algum sol e um espírito limpo de certezas.

Começar a manhã ao som de Amadou & Mariam "Coulibaly"

março 14, 2006

Recado por dentro

Como um tango, a morte desbrava intempéries e bonanças, elos onde o momento e a emoção tomam conta, onde remoem e apertam num laço que custa luzir, esperando que se desfaça num instante, tal como o sonho se evapora depois de abrir os olhos. A vontade mastiga-se em migalhas, o sorriso sabe sempre a forçado, suspende-se a garfada no ar, com a culpa de um apetite inocente, hesita-se uma canção ou um adjectivo por ser longo demais. Como um tango, a morte desprende os linhos frágeis, revelando as cadências ferrugentas, alumiando ténuamente o lamento e um longo adeus pausado pelas lágrimas que nem se conseguem definir. É um piano demasiado afinado, onde a nota se multiplica na direcção errada. E tudo gira mais devagar, o tempo teima em diminuir o empenho, a flor permanece atenta e viçosa e ao longe o rio ondeia até à foz.
Eu estou aqui, junto à foz. Estou aqui, parado, encostado ao farol de paredes picadas por um mar que se obriga todos os dias, esperar por mais alguém. E mesmo se esse alguém não voltar a encostar-se ao farol, a luz irá varrer as águas à meia noite e o mar, teimoso, vai esperar como se não soubesse a notícia.

Ao som de Men Without Hats "Cocoricci (Le Tango des Voleurs)"