setembro 04, 2006

Medidas mais ou menos drásticas

As contas não batiam certo. Nunca batiam certo desde o golpe de estado. Fuzilaram-se os bons contabilistas. E os porteiros. Raio de ideia, largar tudo para ir abrir a porta ou um simples "quem é". Raio de ideia. E depois ainda as formalidades idiotas dos gajos dos bancos da Suiça. Se fosse por cá, era tudo fuzilado.

Ao som de Trust "H & D"

setembro 01, 2006

Depois da bonança

Conheces o personagem? Lembras-te dele? A última entrevista correu-lhe bem não foi? Eu também achei. Vi-a até ao fim. Depois fui ler os recortes. Só os desta semana. Reli os de hoje e ainda liguei a televisão. Queria apanhar alguma reportagem. Tive sorte, um dos canais estava a falar dele. Uma festa ou algo assim. Estava bem vestido. Enfim, apresentável, mas a roupa era de marca. Ele disse qual. Não me lembro. Mas foi discreto. A posição não lhe permite exageros. Nem figuras tristes. Ou demasiado alegres. Li que só bebe duas marcas. Tem de haver pelo menos uma. Tem um acessor para isso. O outro é novo. Parece que é para os fins de semana. Alguns, pelo menos. Uma vez teve de ir buscar uma mala. Tinha de ser aquela. Ainda estava longe. É extremamente rigoroso. E exacto. Estava no outro carro. Não, não, a cilindrada era mesmo aquela. Ele sabe do assunto. A pele é que era muito escura. Tiveram de mudar. Demorou dois dias. Ele foi compreensivo. É um senhor. Era. Achas demais, quatro balas?

Ao som de Trust "L´Elite"

agosto 31, 2006

Mais uma última ceia

- Mostar, vem cá. Traz-me o teu cachimbo e a tua alma.
- Ofereço-ta. Leva-a e dorme com ela esta noite. O cachimbo, deixa-o em cima da mesa. Cheio.

Ao som de Boris Kovac & Ladaaba Orchestra "Danza Transilvanica"

agosto 30, 2006

Por um dia número vinte e seis

Por todas as meias horas de meios dias cheios de meadas de lã, de chávenas com liquidos de plasticina e muitos, muitos ramos de alfazema e jasmins que aprendem a crescer sózinhos, sem risos por cozinhar nem caras de cem riscos oblíquos e gargalhadas altas de quebrar vitrais.

Por idas ao circo de mão dada, pelas cascas de pevides atiradas ao rio, por tartes e bolos de geléia e bolachas a sair do forno, estaladiças e únicas em migalhas que nunca são restos, entre pêssegos e baldes de areia que duram até ao Natal, debaixo da mesa da saia comprida onde se decidem a sorte e as manhãs seguintes.

Por acaso e por tudo o que é da lenda, por isso e por aquele passo a mais no jardim, por cima enquanto o telhado aguenta e por alguma razão que me escapou, por ser domingo ou a segunda feira ao pé do meio dia e o tempo durar e durar muito além do cabo das tormentas.

Porque sim.

Ao som de The Rolling Stones "She´s a Rainbow"

agosto 28, 2006

250 gramas de sono

3 e meia da manhã.
Duas mulheres, uma loja quase a fechar, uma avenida que desce num zumbido de carris e cabos de electricidade. Impaciente, acordada entre duas insónias, a mulher de túnica roxa e casaco nocturno, procura um táxi rumo à evasão. Um drogado veraneante recita uma lengalenga mole e peganhenta, sumo de um frasco de cola “snifado” até à medula. Insiste numa história de vida, não necessariamente a dele. Procura a evasão sem se mexer dali. O táxi não aparece.
O fulano da loja, um indiano repetitivo de longos cabelos, insiste com a outra mulher. O vestido de noiva, de cauda e véu, rematado por pequenas rosas cintilantes, parece costurado à medida. É uma oportunidade única, como um casamento repetido vezes sem conta. A mulher compõe o véu, puxa ligeiramente a cauda e olha-se no vidro da montra. O indiano já fechou as luzes da loja. O drogado aproxima-se e conta-lhe o seu casamento. Um qualquer. A outra, desesperada, telefona para todo o lado. Deseja um táxi. Almeja o carrinho com a luzinha verde. Anseia a carripana com o sinal de livre, como se não houvesse amanhã. Ou depois de amanhã. Grita ao telemóvel, guincha por um transporte que as leve dali. O indiano aproveita e fecha a porta da loja, fugindo rua abaixo. O drogado explica que já foi desenhador de vestidos de noiva. Era bastante bom. Chegava a coser as mangas. E “snifava” frascos de cola durante as vernisages de apresentação.
Ao telemóvel, a mulher suplica por um táxi. Guincha em belga, em suevo, em búlgaro. O táxi, nada. A noiva roda e revê o reflexo da montra. O drogado relembra já ter sido bailarino. No “Ballet de Moscovo”. Ou de Buarcos, já não tem bem a certeza. Fazia o “Quebra Nozes” quando lhe caiu um enorme frasco de cola; em cima do nariz. A noiva diz que sim. Lembra-se de tudo. De tudo o que ele quiser. E roda outra vez ao sabor do reflexo da montra.
Da tempestade vem qualquer coisa parecida com a bonança. É o silêncio. A mulher, a outra, deixa cair o telemóvel e de boca aberta, seca de palavras, vê-o a descer a rua. Um riquexó. Um riquexó de verdade, com sedas, caracteres chineses e tudo. É conduzido por um nórdico platinado de colete às riscas e babouches cor de vinho. Pára junto delas, enquanto o drogado diz já ter sido nórdico. E dos bons.
- Estou livre – Diz o nórdico, com um leve sotaque de Xangai.
- Mas… mas somos duas. Duas! – E apontando – Ela está de vestido de noiva. Noiva! Com cauda e véu e tudo. – A outra, a noiva, aproveitou e rodou, mostrando a cauda em todo o seu esplendor.
- Já fui cauda. – Diz o drogado.
- Só tem um lugar. Um! E somos duas. Duas! E ela, ela está de…
- Um lugar, sim, seguro e assumidamente eficiente. – Interrompe o nórdico.
- Já fui eficiente. – Adianta o drogado.
- Outro lugar? – Continua o nórdico. – Mas arranja-se com a maior das simplicidades.
- Já fui simples. – Assume o drogado, com grande oportunidade.
A mulher está sem palavras. A outra, a noiva, roda mesmo sem ninguém lhe prestar atenção.
- É preciso mais um lugar? É para já. E pode escolher. – O nórdico sorri, prestável. – O que prefere? Uma carroça puxada por um burro ou um elefante com palanquim.
- Já fui elefa… – O drogado não conseguiu terminar a frase. A mulher, farta, pegou no telemóvel e rachou a cabeça ao drogado.
Depois, desceu a rua de riquexó. A noiva que vá de elefante.

Ao som de A Certain Ratio "Skipscada"

Pausa

É terrível a desolação da caixa de madeira com forro de veludo verde. Nem sequer os dobrões do costume.

agosto 08, 2006

Na borda do precipício

No helicóptero, os três do costume. Nem vou dizer os seus nomes. Faz mesmo muita diferença? É realmente importante? Atreves-te a olhá-los de outra forma, depois de conheceres os nomes? Farás outras perguntas? Não vou dizer os nomes. Os seus olhos muito atentos que te contem as histórias. As verdadeiras. As que são incómodas, que corroem as articulações de tanto desviares o olhar.
O piloto é de uma vilazinha junto a um mar. Uma ilha. Sonhou voar para fugir aos dias sempre iguais. Não sabia que fora dali, os dias ainda são mais iguais. O da máquina fotográfica a tiracolo vem de uma grande cidade. Uma das maiores, das mais ruidosas. Sente falta de um certo café, vai para oito ou nove dias. Não faz a barba desde esse último café. Penteia-se rudemente com os dedos sujos de gordura. Tem os olhos inchados e duas novas rugas que ainda não conhecia. Tem um bebé, lá na grande cidade. O terceiro... a terceira, esfrega as mãos uma na outra, mesmo se as luvas distraiam o frio. Tem o cabelo pelo pescoço, castanho de um claro estranho. Bebe um resto de chá em pequeninos goles. Olha com atenção os pingos de chuva que se estatelam no vidro da frente. Já não lembra do sol e da praia junto ao resto do farol. Só amanhã. Ou depois... Quer dizer qualquer coisa, mas o barulho das pás e do rotor torturam-lhe o silêncio. Faltam duas horas para a noite. Para o destino, um pouco mais. Se tudo correr bem.
Se este momento fosse o momento certo, talvez descrevesse as condições e as consequências, ao mesmo tempo que omitiria as razões. Nem sempre a presença de todas as faces dos dados é necessária. E quase nunca indispensável. Deixava escapar alguns pormenores sem interesse, alguma migalha biográfica, um vício ou dois, um canção cantarolada e mesmo assim cada um imaginaria na sua conveniência o motivo e a moral de cada um. Mas este nem é o momento certo, nem eu sou o anfitrião de uma história que nem é história. Às vezes tudo acontece sem argumento, porque tem de acontecer ou apenas porque sim. Os seus olhos muito atentos, cruzaram-se oito ou nove dias atrás na mesma sala do mesmo concerto. E muito atentos, ouviram as explicações e os momentos de euforia. Comungaram a estranheza de se encontrarem ali, em desviar o olhar. Não costumavam sonhar acordados, seguiam lógicas encarreiradas, não fumavam e sorriam com a preocupação do exagero. Não gostavam do amanhã sem agenda.
O helicóptero descreveu uma ligeira curva para a direita e descaiu teimosamente de encontro às ondas. Ela agarrou-se à pega junto à janela e deixou cair a caneca que rebolou para os pés do fotógrafo. Com os pés em esforço, rangeu os dentes. O piloto esmagou o punho e fez força em vez de imaginar trajectórias. Todos, muito atentos, partilharam o mesmo lamento. Não encontravam a palavra certa.

Ao som de Tangerine Dream "3 AM at the border of the Marsh from Okefenokee"

Já são sete horas?

Podia ser Outubro. Umas onze da noite, por qualquer motivo. Ou Novembro, às seis e meia tarde. Podia estar encostado ao segundo prédio depois da esquina, pé na parede e pé pisando um resto de uma folha cor de rosa, de à três dias e onze e meia da noite de encontro marcado. Podia ter o cigarro a meio, a vontade de acender outro sem acabar este, a sede de uma cerveja belga ou outra à escolha, um lugar sentado no primeiro autocarro de número primo que parar, ou uma lata de caviar e algumas tostas partilhadas nas escadas do metro com um sem abrigo húngaro. Podia ser a sessão da meia noite no cinema junto ao quartel, apenas porque me lembro de algo interessante. Podia ser quase amanhã, os carros estacionados só do lado direito, as árvores quase caladas e o caminho de volta a casa, depois de um serão com um casal de franceses que ainda se lembra do comboio a vapor. Podia ser quase Natal. E quando passasse pelo segundo prédio depois da esquina, via no chão um bocado de papel cor de rosa, as beatas de dois cigarros e a vontade irresistível de abraçar a primeira pessoa que passasse. Mesmo se fosse a pessoa certa.

Ao som de Tangerine Dream "Tangram set 1"

agosto 07, 2006

Paragem

Devagar. Muito devagar, um pé a seguir ao outro, ver a sombra mudar de carril e esperar que ninguém se mova nem que o céu caia no esquecimento. A electricidade parou e as margens estão muito quietas, quase sinceras. O telefone está esquecido no fundo de uma gaveta. Dorme com o passaporte do seu lado e o relógio parado à cabeceira. Devagar, muito devagar, a sombra dobra a esquina. Procura sinais de fumo ou outra desculpa qualquer. O pneu do camião continua furado como na véspera. E a véspera nunca foi ontem.
Devagar, muito devagar, a cidade sorri a si mesma. Tal e qual como num verso.

Ao som de GOL "No Bounds"

agosto 04, 2006

Choque de carrinhos de choque

Ao som de Tangerine Dream "Ultima Thule (Teil 1)"

Recatos

Estou farto de me dizer que o calor não é meu. O frio, deixa-o sossegado. Há-de chegar um domingo ao fim da tarde, com as luzes já acesas e o cachimbo finalmente apagado. O dia estará silencioso na rua das casas todas iguais com o mar ao fundo e barulhento como sempre, na cidade. Mas o calor veio hoje almoçar. E eu, anfitrião, recebo-o com paisagens cor de palha holandesa e álcool agridoce. Ele sorri, como todos os calores que se sentam nas cadeiras de palhinha e sorvem o refresco com vagar. Eu sorrio, como todos os anfitriões que têm as garrafas cheias e todo o tempo do mundo.

Ao som de Fish "Moving Targets"

agosto 03, 2006

Dúvidas

Entre os pingos de calor, junto à estrada e seguindo as pegadas das árvores ao longe, esqueço a ilha e os que regateiam ao sol. Tenho o maço de tabaco vazio e resta-me um único cigarro indiano, daqueles que o brasileiro de sotaque europeu me oferecia sempre. Não tenho fósforos. A segunda e a terceira passa, sabem-me sempre melhor depois de acendê-las com madeira. A quarta também. Fico-me pelo isqueiro que a diva me ofereceu. Ao olhar os campos, abano levemente a cabeça ao ritmo de um bazar que não cheguei a conhecer. Talvez um dia, à tardinha, quando o calor se começar a desfazer enquanto as conversas ganham cor. Hoje não. Hoje, tenho uma missão.
Se não a cumprir, matam-me. Se o fizer, mato-me.

Ao som de Vaguement la Jungle "Donner"

julho 11, 2006

Pausa

Os castelos de areia raramente têm damas ou reis. Ases, têm sempre muitos. Às vezes, demasiados.

junho 28, 2006

Horas trocadas


Depois de sete horas de caminho, as ruas parecem-me rigorosamente parecidas. Nas paredes vazias e sujas, algumas janelas iluminadas têm a forma de um sofá velho, confortável nos fins de dia, onde o serão é açucarado e se possível lento. Nos prédios pintados com todos os tons de betão, as estrelas não estremecem e as luas não têm forma. Os gritos pretendem-se calados e os silêncios nunca são de ouro. Prolonga-se a noite e espera-se que a manhã demore a chegar. Os meninos são aconchegados nos cobertores e antes do corredor, um último olhar à respiração de criança, provoca um sorriso de outros tempos. A luz do abajour amarelecido é morna. A pausa antes dos derradeiros afazeres, esfria. Lá fora o vento ameaça.
Passo a passo, o passeio não quer terminar. A rua atravessa-se no meu caminho, por todas as sete horas de vadiagem rumo a qualquer avenida com nome de herói da guerra, onde os semáforos intermitentes são detonadores de suspiros. É tarde. No bolso apenas a chave do quarto de hotel, a carteira de fósforos meia vazia e os dois cigarros que ainda restam. No bar depois da estação ainda há luz. Puxo a gola do sobretudo para cima, olho em volta à procura de algo que me tenha escapado e atravesso a rua. São 2 horas da manhã, a neblina promete cair e o último comboio não trouxe ninguém. Está na hora da saudade.

Ao som de Borghesia "Ohm Sweet Ohm"

junho 09, 2006

O assassinozinho

Começar o fim de qualquer vestígio de crime, permite a intuição de conhecer o criminoso, entrar-lhe na pele e reviver o assassinato. É uma virtude, escolher no conjunto descomunal de minutos que o dia oferece, o instante correcto da arma faiscar ao sol e penetrar no ventre da vítima. É uma arte. Um dom. Uma pincelada ao de leve, onde o íntimo encontra a tela.
Um crime só faz sentido no momento exacto. Proporcionar a facada dois segundos depois, transforma a obra prima em andaime. Um segundo antes é apenas uma garotada. Deixar a tragédia para o dia seguinte, é mimar com misericórdia o punhal, é preguiça de letrado. Não deixes para amanhã o que podes sangrar hoje. É por estas e por outras que investigar o crime é fugaz. Voyeurismo muito depois do evento. Um longo encolher de ombros de quem não lhe conhece interesse e vontade. Um bocejo.
O segredo para além do assassino é pegar o seu vestígio com as duas mãos. Lentamente, com cuidados, acariciá-lo com minúcia e com a intuição com que ele se entrega, afagar o hálito do criminoso, sentindo-lhe o bafo final com que um malogrado qualquer se despede. E no fim, como uma sobremesa que se espera com gulodices aveludadas, resta o fio de sangue que no passeio irregular traça caminhos imaginários, rumo ao Sul. Assassino? Poeta, é o que é.

Ao som de Uriah Heep "Return to Fantasy"

A quinta badalada

Das cinco horas da tarde, duas, ofereço-as à multidão que espera pacientemente ao sol, junto da porta do Ministério dos Assuntos de um Dia Qualquer. O ministro à muito que fechou a pasta na gaveta e se evadiu para não sei ao certo. O secretário em estado novo, jaz nas areias da praia regulamentar. Os funcionários mantém-se fechados na cave. Acreditam numa guerra mundial. Uma qualquer. Os serviços ao público nunca chegaram a abrir... mas a multidão nunca o soube. Espera com a paciência de santo em dia de feira no Vaticano. Espera sequiosa sem conhecer o sabor da água. Nos cantis, só sal. Grosso. Por tudo isso, duas, ofereço-as à multidão.
A terceira, a de canícula, doei-a a um velho que nunca conheceu outra pátria, que a sua cadeira de rodas. Tem uma tez paraplégica e um esgar nocturno. Vive com a certeza de os pés e as pernas serem artigos de luxo, supérfluos à matilha indigente das três da tarde. Bebe chávenas de café. Muitas. Demasiadas. E se o vício se entreter, porquê hesitar? Bebe-as sem açucar. Faz-lhe mal à circulação dos membros. Dos que lhe faltam. No intervalo dos goles de café, lê velhos tomos desirmanados que o camião do lixo lhe deixa. São as suas refeições. Costuma saltar o pequeno-almoço.
A quarta hora, pouco uso lhe posso dar. Geralmente tenho-a como impecilho. É redonda e mesmo assim, lisa de sentimentos. Não provoca paixões. Não faz desmaiar donzelas. Apenas está ali, entre as três e as cinco, absorta, vaga, preocupada com toilletes que não conhecem galas. É uma hora vulgar. Nem sequer ordinária. Deixo que a senhora da limpeza a varra para debaixo do tapete. Arquive-se a sua inutilidade.
Cinco da tarde. Das cinco horas da tarde, duas ofereço-as eu. A terceira é doação de família. A quinta, guardo-a avaramente numa gaveta. Não quero que ninguém a ouça. Filantropices...

Ao som de Moonspell "Nocturna"

maio 19, 2006

Razões

Duas horas para o próximo gole de água

Na claridade do dia seguinte, tudo parece no seu lugar. A ponte e o meio dia permanecem à espera e uma sexta feira esguia ziguezagueia, desatenta aos blocos de betão que se enchem de cor. O maço de cigarros está quase vazio e as garrafas de água são três. Uma está quase vazia. No horizonte as serpentes têm veneno adoçicado e esperam por nós. E nós, obedientes, certos da doutrina que inventámos, despimos os casacos e os relógios e rumamos para um sul privado. Os minutos que entregámos na portagem não tinham troco, nem sequer esperámos pelo seu consentimento. Chamamo-nos livres e sem apelido. Vemos muito além da berma da estrada, arremessando ao vento quente as pontas dos dedos com sabor a mel. O mel do amor com gotas de suor, onde se esculpem caminhos ao longo da perna que repousa. Um segredo que se guarda com lacre de cor púrpura.
Tudo parece no seu lugar. Ao longo da secretária, na estante das bobines de filme, na cama desfeita com os lençóis em desalinho, no frigorífico atulhado com as mesmas coisas de todas as semanas, junto ao cortinado que estremece com a aragem da manhã, na porta que se esqueceu encostada. Tudo parece no seu lugar. Menos nós, que já partimos.

Ao som de Mylene Farmer "XXL (Princker Extended Remix)"

maio 17, 2006

Alguns segundos entre chegadas

Devagar. Mais depressa. Sempre pela rua do casino e da loja de penhores. Tenho no bolso mais de duzentos cheques de pagamento militar, misturados com as gomas habituais e os fósforos de Tijuana. Já não me lembro para onde vou. Como entrei neste carro? Conheço o condutor? E os outros? Acabo com o cigarro do fulano da direita e nem tenho a certeza se é um cigarro. Depois se verá. Mais tarde. Quando acordar. Se acordar. Conheço a canção de algum lado, mas não interessa de onde. Algum sítio. Outro. Longe daqui. Ou perto?
Gostava de passar a mão na cara, mas não me apetece. Estranho este desejo de apetecer e não cumprir. Jovial, era a palavra. A outra era mentira. Bastavam as duas para me atirar ao rio, se ele houvesse. Aqui só asfalto e luzes esbatidas de copos altos e destinos cor de menta. Pela outra rua chegávamos mais depressa, mas é mesmo preciso chegar? É preciso estar atento. Ou acordado, não sei bem. Faz-me falta a enciclopédia. A de capa de marroquim como os chinelos do patrão. Nunca o vi. Sei-lhe bocados do nome. Os que interessam. Ele já me viu. Antes. Agora não o conheço. Nem sei onde está. Estará à porta? Espero que não. Prefiro ninguém à chegada. Só a porta encostada e uma cadeira confortável. De onde tirei esta palavra? Parece uma daquelas estradas de mansões milionárias, que sobe em serpentina e acaba num tufo e algumas pedras. Ao longe, o negócio e a rua principal. Não gosto de avenidas. Fazem-me mal. Provocam-me azia, da que dura toda a noite a passar.
Vou fechar os olhos. Abro-os, quando chegar.

Ao som de The Charlatans "Weirdo"

Tarde de menos

Devagar, fechei a porta do quarto e atirei as chaves do carro para cima de uma das camas. Recusei a tentação de me olhar no espelho e tirei o casaco. Por ser tarde, achei-me com tempo e fui tomar um duche. Fiz também a barba. Se morresse esta noite... um caixão de barba feita fica sempre bem.
Afinal olhei-me no espelho. Como batoteiro militante, nunca recusei um trunfo.

Ao som de Tito & Tarantula "After Dark (Terranova Law And Order Remix)"