outubro 31, 2006
Ouvi mas não me lembro onde
Depois da única curva da rua, via-se a porta, a varanda e eles. Costumavam sentar-se no degrau da porta ou no passeio. Às vezes, no muro. Olhavam e gritavam um sorriso. Outras vezes não estavam lá. Olhava o rio pela fresta da rua estreita e segurava-me no rebordo da porta da garagem, à espera de qualquer coisa. Como banda sonora, lá fora tinha os barulhos de quem ia vivendo. Lá dentro, as intermináveis listas de descoberta e fitas com guitarras de quatro cordas de todas as cores. O tapete branco com geometrias azuis e verdes fazia parte da família e as fotografias mostravam gente desconhecida. A porta nunca se fechava e só por isso eu não consegui ser mais eu. Só me apercebi no dia que vi a sala sem o tapete e pude finalmente fechar a porta. Não cheguei a fechá-la.
Ao som de The Stranglers "The Raven"
Ao som de The Stranglers "The Raven"
outubro 20, 2006
O sol, o anjo e a fogueira
Durante um resto de Inverno, num momento de madrugada febril, recusei a capa que me ocultava a sombra e entreguei a um estranho as pérolas que guardava junto à pele. Contei-lhe o que pensava ser verdade, mentindo a certeza dos meus dias, quando as noites são o mel das veias que em mim palpitam. Mantive a mentira até ao fim, até agora que desfaleço neste catre. Sinto a caminhante perto, esquecendo pegadas na areia fina. Inventei este castelo, a aldeia e a falésia, até a mesa e o copo onde me torno novo. Fui preso, por me permitir o sonho. Perante o juíz, não confessei um nada. Mantive nas unhas os vestígios da clemência. E ao fim de um ano de cativeiro justo, sai para a rua, jovem, velho e triste. Nos bolsos, os papeis de outrora, as cartas que motivaram o crime. E do recorte que nunca quis guardar, apenas relembro o cumplice e a consistência alheia.
Agora, hoje, junto ao precipicio, releio as linhas que me desgraçaram. Engulo a chuva que me escorre a alma, cerrando os dentes de esquecido esmalte. A mim, a culpa dos meus dias. A ti, a revolta dessa noite.
Ao som de Ophelia´s Dream "Lady Magdalen"
Agora, hoje, junto ao precipicio, releio as linhas que me desgraçaram. Engulo a chuva que me escorre a alma, cerrando os dentes de esquecido esmalte. A mim, a culpa dos meus dias. A ti, a revolta dessa noite.
Ao som de Ophelia´s Dream "Lady Magdalen"
outubro 13, 2006
Ámen duas vezes
As vinganças são bisturis coloridos, retalhando com dois mil cuidados o desalento de tardes de sol ou meias manhãs de chuva miudinha, onde os passeios desistem e os passos se repetem. Ao fundo da rua, junto aos restos de ontem, adormecendo o seu tédio, senta-se um deus em posição de espera, alumiando o reino que prefere privado. Não atende súplicas nem queixumes. Não oferece curas nem segreda sílabas doces. Observa, reduz o horizonte a instante e num esforço incapaz de conter a galáxia, mantém transparente a razão humana. É viciado no jogo, este deus urgente. Tomou como igual o ás de espadas e corrompe damas e valetes a seu contento. Cheira a vão de escada. É estéril. Afinal é filantropo .
Ao som de OMD "Statues"
Ao som de OMD "Statues"
outubro 09, 2006
Vista actual
Semelhanças de casos furtivos,
partilhando as ameias do muro do lado norte
e soprando fios de bruma
presos às mangas
e ao desgosto
das noites de hora marcada,
tossindo espasmos de prazer
em vez de um miar ronronado,
tela de mil sóis à noitinha
quando só se vêem sombras,
ceias iluminadas
e regressos tardios de compromissos inconfessáveis.
Em silêncio
e em fumo,
suspiro.
Depois da pausa,
reflicto.
Devagar.
Revolvo a areia com o pé
como quem procura ouro
ou apenas tempo.
Com os olhos no vale,
percorro os cruzamentos fechados pelo querer alheio.
Enterro-me na certeza de um aqui,
sem mais
nem outro lugar.
Depois da pausa,
renovo.
Sem pressa.
Revolvo a areia com o pé
e encontro.
Com os olhos no vale,
deixo-me aqui.
Ao som de Les Jumeaux "Empty Drama"
partilhando as ameias do muro do lado norte
e soprando fios de bruma
presos às mangas
e ao desgosto
das noites de hora marcada,
tossindo espasmos de prazer
em vez de um miar ronronado,
tela de mil sóis à noitinha
quando só se vêem sombras,
ceias iluminadas
e regressos tardios de compromissos inconfessáveis.
Em silêncio
e em fumo,
suspiro.
Depois da pausa,
reflicto.
Devagar.
Revolvo a areia com o pé
como quem procura ouro
ou apenas tempo.
Com os olhos no vale,
percorro os cruzamentos fechados pelo querer alheio.
Enterro-me na certeza de um aqui,
sem mais
nem outro lugar.
Depois da pausa,
renovo.
Sem pressa.
Revolvo a areia com o pé
e encontro.
Com os olhos no vale,
deixo-me aqui.
Ao som de Les Jumeaux "Empty Drama"
setembro 22, 2006
Dia 22
Se calhar a chuva da manhã tinha sabor. Bebi o café, o que me escorre o encolher de ombros e me liberta o sorriso, mesmo se o tenha guardado no porta luvas do carro. Olho a empregada nos olhos, corrijo-me e acendo a luz do resto da tarde, lembrando as pessoas pelos seus nomes e ouvindo os segredos dos miúdos. No relógio ainda sobram horas e planos para a semana seguinte. Na prateleira não encontrei o livro de versos. Desci a escada, olhei as revistas, sai e nem sequer deixei cair os olhos no passeio. É bom sinal. Os anos continuam arredondados, mas as arestas têm falhas cada vez mais suaves.
Ao som de Peter Ellis "Angel"
Ao som de Peter Ellis "Angel"
setembro 16, 2006
Adro
Depois do fumo me tocar o céu da boca, julguei ter chegado ao meu destino. Uma sucessão de minutos e bocados aleatórios de tempo, encerados e livres de pó como numa paranóia que se constrói com gosto, humedecendo os lábios e esperando por algum sinal da noite. Não costumo falar destas coisas. É desnecessário passar pelas alfândegas e declarar os rasgos da vida que nos serperteiam em baforadas de oxigénio, sujas ou limpas conforme o prejuízo, cruas ou alumiadas por velas ou lumes brandos. Volto a acender o cigarro que entretanto se apaga, vítima por não receber toda a atenção que diz ter direito, birrento porque tem de ser assim. Como eu, que procurava o céu nas varandas e nos horizontes de mar. Ainda o faço, mas apenas por embirração ou restos de dias que insisto em decorar. Ou nem insisto. Têm-me como refém, sem resgates inúteis ou interrogatórios estéreis. Deixam-me ficar à janela ou dentro do carro, como uma testemunha que se dúvida cuscuvilheira ou voyeur. Encomendam-me argumentos e recibos, páginas de papel cheias de riscos, sem pessoas nem nomes. E no fim de cada página, páro, sorrio e encontro-me exactamente no centro do universo, junto ao apeadeiro que me há-de recolher e oferecer o bilhete para o rápido das sete da tarde que nunca pára aqui. Então, procuro nos bolsos se ainda tenho cigarros que cheguem, pergunto ao porteiro onde posso jantar e demoro quase nada sentado à mesa, comendo tudo o que me apetece naquele momento, enquanto passo a considerar o empregado como amigo de infância. Bebo o café e observo todas as baforadas do meu tabaco, à procura de algo único. Visto o casaco, faço uma vénia, esqueço as moedas no pires e regresso. Na rua, tentando encontrar o aconchego de uma direcção cúmplice, esfregando os olhos pelo fumo ou por cansaço, evito enganar-me e peço ao deus que me conhece, uma noite na via láctea.Ao som de The Church "Under the Milky Way"
Redondos
Quando se adia o mergulho e se espera a onda perfeita.
Quando o livro tem páginas a mais.
Quando o relógio não tem segundos às metades.
Quando te perdes e já é tarde.
Quando multiplicar provoca ciúme.
Quando não se pode regressar à partida.
Quando a fatia de melão é demasiado grande.
Quando a vela se derrete antes do beijo.
Quando julgas que a estrada termina junto ao mar.
Quando o portão está enferrujado.
Quando ainda é cedo.
Quando a semicolcheia se ri.
Quando há fim.
Ao som de The Bolshoi "Lindy´s Party"
Quando o livro tem páginas a mais.
Quando o relógio não tem segundos às metades.
Quando te perdes e já é tarde.
Quando multiplicar provoca ciúme.
Quando não se pode regressar à partida.
Quando a fatia de melão é demasiado grande.
Quando a vela se derrete antes do beijo.
Quando julgas que a estrada termina junto ao mar.
Quando o portão está enferrujado.
Quando ainda é cedo.
Quando a semicolcheia se ri.
Quando há fim.
Ao som de The Bolshoi "Lindy´s Party"
setembro 13, 2006
Despertador
Depois de pegar na chave, cuspiu na fechadura e sorriu lentamente. Tinha tempo. Todo. Só voltariam de manhã. Tinha a noite toda. Talvez por isso, decidiu deitar-se.
Ao som de New Order "Everything's Gone Green (Cicada Remix)"
Ao som de New Order "Everything's Gone Green (Cicada Remix)"
Esta, não é uma mensagem
Julgava que era sexta feira. Tinha metido um dia de férias para acabar com tudo de uma vez. Levantei-me às onze. Mais cedo seria traição. Calçei os ténis sem meias. Fui até à varanda, nu e fumei um cigarro. Voltei à sala e bebi um resto de café. Frio. Arrepiei-me. Não sei se foi o café. No quarto, vesti as calças e a camisa do costume. Saí à pressa, sem a chave de casa nem a estatueta. O elevador estava parado entre o terceiro e o vizinho de baixo. Encolhi os ombros e desci as escadas. Parei no segundo e encostei-me à parede. Tentei ouvir os gemidos. Não consegui. Devia estar a dormir. Junto à porta da rua, por debaixo das caixas do correio, um fulano, já velho, sentado no chão, observava fatias de pão. Depois escrevia qualquer coisa num pequeno bloco, dava uma dentada e deitava fora o resto. À quarta fatia, fui-me embora.
Na rua, os barulhos soluçavam à medida que me afastava. Antes de virar a esquina, olhei para trás e o prédio tinha ido na direcção oposta. Um de nós estava enganado.
Ao som de Baxter Dury "Cocaine Man"
Na rua, os barulhos soluçavam à medida que me afastava. Antes de virar a esquina, olhei para trás e o prédio tinha ido na direcção oposta. Um de nós estava enganado.
Ao som de Baxter Dury "Cocaine Man"
setembro 05, 2006
198?
Estava prometida desde os seis anos. Já era bonita. Ainda não completamente. Ria e sonhava, entre torradas a transbordar de manteiga aquecida e bonecas de cabelos aos caracóis, tardes profundas, sem horas ou finais. Lembrava-se de coisas que tinham acontecido à mais tempo do que era preciso. Agarrou-se a esse hábito para contar os anos que passavam. As histórias ficavam só para ela. Só ela saberia sorrir. Continuava a olhar as torradas, mesmo se a manteiga escorresse com outra cor, media-lhes a proporção e a tristeza, encerradas naqueles cafés de bairro onde a vida não entra e as horas nunca ficam ao balcão.Encostada à mesa de tampo de mármore, mãos esquecidas, mordia mais um naco de história amarga, polvilhava com o açucar que encontrasse e semicerrava os olhos, esperando a porta abrir e alguma brisa lhe lembrar a morada. Levantava-se, olhava as migalhas como amigas e com o suspiro que alguém lhe ensinara, murmurava as boas noites e perdia-se na rua de sempre.
No outro dia, já toda a gente comentava. Tinham-na visto no telhado. Tinha fugido.
Ao som de The Smiths "Last Night I Dreamt that Somebody Loved Me"
setembro 04, 2006
Liquidez
Oito horas de sono. Mentira, foram cinco. A outras três, menos uns minutos, gastei-as numa meia consciência. Bebidas de marcas estranhas, cigarros sem filtro, risos de escárnio, outros nem por isso, jornais espalhados pela cama que estava feita. Na outra, os lençóis cheiram a suor. Nada de novo. Nas outras noites, tudo foi quase igual. Só mudam as caras e mesmo essas... De pé, junto à máquina do gelo, tudo parece sério e formal. Com a mão no bolso, sinto-me quase cidadão. Desses com direitos e cartões e referências de alguém que sempre os conhece de algum lado. A mim, há sempre alguém que me conhece de algum lado. Ou de lado. Ou pelas costas, que é a maneira mais eficiente de levar um tiro. E tiros, gostava de uma rajada de kalashnikov. Certinha, de cima para baixo, como um bom golo de cabeça. Durante um golinho de qualquer coisa escura. Debaixo de um neón. Crucial é pagar o assassino com antecedência. Detesto ficar a dever.Ao som de Yello "Pinball Cha Cha"
Com a mão no bolso
Debaixo do lençol, as notas amontoadas têm a forma da nora do Afonso. Aquele do olho avermelhado e da t-shirt com o macaco azul. Acho que continua fora. Já à dois meses. Foi no comboio das sete. Fui-me despedir e aproveitei para um cafézinho. Qualquer desculpa serve e como estava perto do rio... Tinha ido provar uns vinhos à socapa. Com um amigo, o Teles, o do Alfa azul escuro. Cravo-lhe sempre um charutinho. Gosto de fumar junto ao rio. É dos poucos prazeres que me restam. Os outros, a maioria, ou meti-os no correio ou perdi-os ao póquer. Não tenho jeito nenhum para bluffs.
Ao som de The Stranglers "Hanging Around"
Ao som de The Stranglers "Hanging Around"
Medidas mais ou menos drásticas
As contas não batiam certo. Nunca batiam certo desde o golpe de estado. Fuzilaram-se os bons contabilistas. E os porteiros. Raio de ideia, largar tudo para ir abrir a porta ou um simples "quem é". Raio de ideia. E depois ainda as formalidades idiotas dos gajos dos bancos da Suiça. Se fosse por cá, era tudo fuzilado.
Ao som de Trust "H & D"
Ao som de Trust "H & D"
setembro 01, 2006
Depois da bonança
Conheces o personagem? Lembras-te dele? A última entrevista correu-lhe bem não foi? Eu também achei. Vi-a até ao fim. Depois fui ler os recortes. Só os desta semana. Reli os de hoje e ainda liguei a televisão. Queria apanhar alguma reportagem. Tive sorte, um dos canais estava a falar dele. Uma festa ou algo assim. Estava bem vestido. Enfim, apresentável, mas a roupa era de marca. Ele disse qual. Não me lembro. Mas foi discreto. A posição não lhe permite exageros. Nem figuras tristes. Ou demasiado alegres. Li que só bebe duas marcas. Tem de haver pelo menos uma. Tem um acessor para isso. O outro é novo. Parece que é para os fins de semana. Alguns, pelo menos. Uma vez teve de ir buscar uma mala. Tinha de ser aquela. Ainda estava longe. É extremamente rigoroso. E exacto. Estava no outro carro. Não, não, a cilindrada era mesmo aquela. Ele sabe do assunto. A pele é que era muito escura. Tiveram de mudar. Demorou dois dias. Ele foi compreensivo. É um senhor. Era. Achas demais, quatro balas?
Ao som de Trust "L´Elite"
Ao som de Trust "L´Elite"
agosto 31, 2006
Mais uma última ceia
agosto 30, 2006
Por um dia número vinte e seis
Por todas as meias horas de meios dias cheios de meadas de lã, de chávenas com liquidos de plasticina e muitos, muitos ramos de alfazema e jasmins que aprendem a crescer sózinhos, sem risos por cozinhar nem caras de cem riscos oblíquos e gargalhadas altas de quebrar vitrais.Por idas ao circo de mão dada, pelas cascas de pevides atiradas ao rio, por tartes e bolos de geléia e bolachas a sair do forno, estaladiças e únicas em migalhas que nunca são restos, entre pêssegos e baldes de areia que duram até ao Natal, debaixo da mesa da saia comprida onde se decidem a sorte e as manhãs seguintes.
Por acaso e por tudo o que é da lenda, por isso e por aquele passo a mais no jardim, por cima enquanto o telhado aguenta e por alguma razão que me escapou, por ser domingo ou a segunda feira ao pé do meio dia e o tempo durar e durar muito além do cabo das tormentas.
Porque sim.
Ao som de The Rolling Stones "She´s a Rainbow"
agosto 28, 2006
250 gramas de sono
3 e meia da manhã.
Duas mulheres, uma loja quase a fechar, uma avenida que desce num zumbido de carris e cabos de electricidade. Impaciente, acordada entre duas insónias, a mulher de túnica roxa e casaco nocturno, procura um táxi rumo à evasão. Um drogado veraneante recita uma lengalenga mole e peganhenta, sumo de um frasco de cola “snifado” até à medula. Insiste numa história de vida, não necessariamente a dele. Procura a evasão sem se mexer dali. O táxi não aparece.
O fulano da loja, um indiano repetitivo de longos cabelos, insiste com a outra mulher. O vestido de noiva, de cauda e véu, rematado por pequenas rosas cintilantes, parece costurado à medida. É uma oportunidade única, como um casamento repetido vezes sem conta. A mulher compõe o véu, puxa ligeiramente a cauda e olha-se no vidro da montra. O indiano já fechou as luzes da loja. O drogado aproxima-se e conta-lhe o seu casamento. Um qualquer. A outra, desesperada, telefona para todo o lado. Deseja um táxi. Almeja o carrinho com a luzinha verde. Anseia a carripana com o sinal de livre, como se não houvesse amanhã. Ou depois de amanhã. Grita ao telemóvel, guincha por um transporte que as leve dali. O indiano aproveita e fecha a porta da loja, fugindo rua abaixo. O drogado explica que já foi desenhador de vestidos de noiva. Era bastante bom. Chegava a coser as mangas. E “snifava” frascos de cola durante as vernisages de apresentação.
Ao telemóvel, a mulher suplica por um táxi. Guincha em belga, em suevo, em búlgaro. O táxi, nada. A noiva roda e revê o reflexo da montra. O drogado relembra já ter sido bailarino. No “Ballet de Moscovo”. Ou de Buarcos, já não tem bem a certeza. Fazia o “Quebra Nozes” quando lhe caiu um enorme frasco de cola; em cima do nariz. A noiva diz que sim. Lembra-se de tudo. De tudo o que ele quiser. E roda outra vez ao sabor do reflexo da montra.
Da tempestade vem qualquer coisa parecida com a bonança. É o silêncio. A mulher, a outra, deixa cair o telemóvel e de boca aberta, seca de palavras, vê-o a descer a rua. Um riquexó. Um riquexó de verdade, com sedas, caracteres chineses e tudo. É conduzido por um nórdico platinado de colete às riscas e babouches cor de vinho. Pára junto delas, enquanto o drogado diz já ter sido nórdico. E dos bons.
- Estou livre – Diz o nórdico, com um leve sotaque de Xangai.
- Mas… mas somos duas. Duas! – E apontando – Ela está de vestido de noiva. Noiva! Com cauda e véu e tudo. – A outra, a noiva, aproveitou e rodou, mostrando a cauda em todo o seu esplendor.
- Já fui cauda. – Diz o drogado.
- Só tem um lugar. Um! E somos duas. Duas! E ela, ela está de…
- Um lugar, sim, seguro e assumidamente eficiente. – Interrompe o nórdico.
- Já fui eficiente. – Adianta o drogado.
- Outro lugar? – Continua o nórdico. – Mas arranja-se com a maior das simplicidades.
- Já fui simples. – Assume o drogado, com grande oportunidade.
A mulher está sem palavras. A outra, a noiva, roda mesmo sem ninguém lhe prestar atenção.
- É preciso mais um lugar? É para já. E pode escolher. – O nórdico sorri, prestável. – O que prefere? Uma carroça puxada por um burro ou um elefante com palanquim.
- Já fui elefa… – O drogado não conseguiu terminar a frase. A mulher, farta, pegou no telemóvel e rachou a cabeça ao drogado.
Depois, desceu a rua de riquexó. A noiva que vá de elefante.
Ao som de A Certain Ratio "Skipscada"
Duas mulheres, uma loja quase a fechar, uma avenida que desce num zumbido de carris e cabos de electricidade. Impaciente, acordada entre duas insónias, a mulher de túnica roxa e casaco nocturno, procura um táxi rumo à evasão. Um drogado veraneante recita uma lengalenga mole e peganhenta, sumo de um frasco de cola “snifado” até à medula. Insiste numa história de vida, não necessariamente a dele. Procura a evasão sem se mexer dali. O táxi não aparece.
O fulano da loja, um indiano repetitivo de longos cabelos, insiste com a outra mulher. O vestido de noiva, de cauda e véu, rematado por pequenas rosas cintilantes, parece costurado à medida. É uma oportunidade única, como um casamento repetido vezes sem conta. A mulher compõe o véu, puxa ligeiramente a cauda e olha-se no vidro da montra. O indiano já fechou as luzes da loja. O drogado aproxima-se e conta-lhe o seu casamento. Um qualquer. A outra, desesperada, telefona para todo o lado. Deseja um táxi. Almeja o carrinho com a luzinha verde. Anseia a carripana com o sinal de livre, como se não houvesse amanhã. Ou depois de amanhã. Grita ao telemóvel, guincha por um transporte que as leve dali. O indiano aproveita e fecha a porta da loja, fugindo rua abaixo. O drogado explica que já foi desenhador de vestidos de noiva. Era bastante bom. Chegava a coser as mangas. E “snifava” frascos de cola durante as vernisages de apresentação.
Ao telemóvel, a mulher suplica por um táxi. Guincha em belga, em suevo, em búlgaro. O táxi, nada. A noiva roda e revê o reflexo da montra. O drogado relembra já ter sido bailarino. No “Ballet de Moscovo”. Ou de Buarcos, já não tem bem a certeza. Fazia o “Quebra Nozes” quando lhe caiu um enorme frasco de cola; em cima do nariz. A noiva diz que sim. Lembra-se de tudo. De tudo o que ele quiser. E roda outra vez ao sabor do reflexo da montra.
Da tempestade vem qualquer coisa parecida com a bonança. É o silêncio. A mulher, a outra, deixa cair o telemóvel e de boca aberta, seca de palavras, vê-o a descer a rua. Um riquexó. Um riquexó de verdade, com sedas, caracteres chineses e tudo. É conduzido por um nórdico platinado de colete às riscas e babouches cor de vinho. Pára junto delas, enquanto o drogado diz já ter sido nórdico. E dos bons.
- Estou livre – Diz o nórdico, com um leve sotaque de Xangai.
- Mas… mas somos duas. Duas! – E apontando – Ela está de vestido de noiva. Noiva! Com cauda e véu e tudo. – A outra, a noiva, aproveitou e rodou, mostrando a cauda em todo o seu esplendor.
- Já fui cauda. – Diz o drogado.
- Só tem um lugar. Um! E somos duas. Duas! E ela, ela está de…
- Um lugar, sim, seguro e assumidamente eficiente. – Interrompe o nórdico.
- Já fui eficiente. – Adianta o drogado.
- Outro lugar? – Continua o nórdico. – Mas arranja-se com a maior das simplicidades.
- Já fui simples. – Assume o drogado, com grande oportunidade.
A mulher está sem palavras. A outra, a noiva, roda mesmo sem ninguém lhe prestar atenção.
- É preciso mais um lugar? É para já. E pode escolher. – O nórdico sorri, prestável. – O que prefere? Uma carroça puxada por um burro ou um elefante com palanquim.
- Já fui elefa… – O drogado não conseguiu terminar a frase. A mulher, farta, pegou no telemóvel e rachou a cabeça ao drogado.
Depois, desceu a rua de riquexó. A noiva que vá de elefante.
Ao som de A Certain Ratio "Skipscada"
Pausa
É terrível a desolação da caixa de madeira com forro de veludo verde. Nem sequer os dobrões do costume.
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