Dás-me fome de sushis impossiveis, onde o sabor é o teu lábio multiplicado por mil.Ao som de Airstream "Welcome to Lycira"
...tiros entre os olhos
Depois do fumo me tocar o céu da boca, julguei ter chegado ao meu destino. Uma sucessão de minutos e bocados aleatórios de tempo, encerados e livres de pó como numa paranóia que se constrói com gosto, humedecendo os lábios e esperando por algum sinal da noite. Não costumo falar destas coisas. É desnecessário passar pelas alfândegas e declarar os rasgos da vida que nos serperteiam em baforadas de oxigénio, sujas ou limpas conforme o prejuízo, cruas ou alumiadas por velas ou lumes brandos. Volto a acender o cigarro que entretanto se apaga, vítima por não receber toda a atenção que diz ter direito, birrento porque tem de ser assim. Como eu, que procurava o céu nas varandas e nos horizontes de mar. Ainda o faço, mas apenas por embirração ou restos de dias que insisto em decorar. Ou nem insisto. Têm-me como refém, sem resgates inúteis ou interrogatórios estéreis. Deixam-me ficar à janela ou dentro do carro, como uma testemunha que se dúvida cuscuvilheira ou voyeur. Encomendam-me argumentos e recibos, páginas de papel cheias de riscos, sem pessoas nem nomes. E no fim de cada página, páro, sorrio e encontro-me exactamente no centro do universo, junto ao apeadeiro que me há-de recolher e oferecer o bilhete para o rápido das sete da tarde que nunca pára aqui. Então, procuro nos bolsos se ainda tenho cigarros que cheguem, pergunto ao porteiro onde posso jantar e demoro quase nada sentado à mesa, comendo tudo o que me apetece naquele momento, enquanto passo a considerar o empregado como amigo de infância. Bebo o café e observo todas as baforadas do meu tabaco, à procura de algo único. Visto o casaco, faço uma vénia, esqueço as moedas no pires e regresso. Na rua, tentando encontrar o aconchego de uma direcção cúmplice, esfregando os olhos pelo fumo ou por cansaço, evito enganar-me e peço ao deus que me conhece, uma noite na via láctea.
Estava prometida desde os seis anos. Já era bonita. Ainda não completamente. Ria e sonhava, entre torradas a transbordar de manteiga aquecida e bonecas de cabelos aos caracóis, tardes profundas, sem horas ou finais. Lembrava-se de coisas que tinham acontecido à mais tempo do que era preciso. Agarrou-se a esse hábito para contar os anos que passavam. As histórias ficavam só para ela. Só ela saberia sorrir. Continuava a olhar as torradas, mesmo se a manteiga escorresse com outra cor, media-lhes a proporção e a tristeza, encerradas naqueles cafés de bairro onde a vida não entra e as horas nunca ficam ao balcão.
Oito horas de sono. Mentira, foram cinco. A outras três, menos uns minutos, gastei-as numa meia consciência. Bebidas de marcas estranhas, cigarros sem filtro, risos de escárnio, outros nem por isso, jornais espalhados pela cama que estava feita. Na outra, os lençóis cheiram a suor. Nada de novo. Nas outras noites, tudo foi quase igual. Só mudam as caras e mesmo essas... De pé, junto à máquina do gelo, tudo parece sério e formal. Com a mão no bolso, sinto-me quase cidadão. Desses com direitos e cartões e referências de alguém que sempre os conhece de algum lado. A mim, há sempre alguém que me conhece de algum lado. Ou de lado. Ou pelas costas, que é a maneira mais eficiente de levar um tiro. E tiros, gostava de uma rajada de kalashnikov. Certinha, de cima para baixo, como um bom golo de cabeça. Durante um golinho de qualquer coisa escura. Debaixo de um neón. Crucial é pagar o assassino com antecedência. Detesto ficar a dever.